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Como Layne Staley convenceu Jerry Cantrell a cantar no Alice in Chains

Guitarrista da banda grunge relembra como se deu a transformação da identidade sonora do grupo, marcada por harmonias vocais sombrias e densas

Guilherme Gonçalves (@guiiilherme_agb)

Layne Staley e Jerry Cantrell do Alice in Chains em 1993 (Foto: Tim Mosenfelder / Getty Images)
Layne Staley e Jerry Cantrell do Alice in Chains em 1993 (Foto: Tim Mosenfelder / Getty Images)

O Alice in Chains se notabilizou por harmonias vocais sombrias e densas, uma marca registrada que define o som do grupo grunge de Seattle. No entanto, o que muitos fãs podem não saber é que essa dinâmica de “dois vocalistas” quase não existiu.

Originalmente, Jerry Cantrell não tinha a menor intenção de dividir o microfone com Layne Staley. Ele queria apenas ser o guitarrista da banda.

Em entrevista à Gibson TV (via Ultimate Guitar e site Igor Miranda), Cantrell revelou que sua resistência inicial em cantar vinha da modéstia e do respeito absoluto pelo talento de Staley.

Ele comentou:

“Eu nunca quis ser vocalista principal, nunca mesmo. Eu só queria tocar guitarra, compor e fazer backing vocals. Em parte porque é muito mais fácil fazer isso, e em segundo lugar, porque tínhamos o Layne Staley. Eu não preciso cantar nada, ele dá conta do recado. Nunca ouvi ninguém que soasse como ele e nunca vou ouvir.”

Jerry Cantrell, guitarrista do Alice in Chains (Foto: Scott Legato/Getty Images)
Jerry Cantrell, guitarrista do Alice in Chains (Foto: Scott Legato/Getty Images)

O guitarrista, porém, acrescentou:

“Sempre fui fã de bandas com várias vozes, vários vocalistas principais — pessoas que conseguem cantar afinadas, que têm uma paleta vocal diferente. É algo que sempre achei legal na nossa banda e que talvez muitas outras bandas de Seattle não tivessem.”

Layne Staley (Foto: Frans Schellekens/ Getty Images)
Layne Staley (Foto: Frans Schellekens / Getty Images)

Aos poucos, o jogo foi virando. A mudança de postura começou durante as gravações do primeiro EP da banda, Sap (1992). Layne Staley, percebendo a conexão pessoal de Cantrell com as letras que escrevia, passou a incentivá-lo a assumir o protagonismo em certas faixas. O argumento de Staley foi simples e direto: as palavras teriam mais peso se saíssem da boca de quem as criou.

Cantrell relembra:

“Ele me disse: ‘Cara, essas são as suas letras. Sem ofensa, mas elas provavelmente significam mais para você do que para mim. Eu adoro cantá-las e tudo mais, mas você deveria cantar algumas delas’.”

A partir daquele momento, a colaboração vocal entre os dois se tornou um dos pilares da sonoridade do Alice in Chains. Músicas como “Would?”, “Down in a Hole” e “Brother” mostram como as vozes de Jerry e Layne se fundiam de forma quase inseparável em certos momentos.

Após amadurecer a ideia, Jerry Cantrell gostou do resultado:

“Comecei a cantar cada vez mais, e isso foi acontecendo aos poucos, então nos tornamos mais uma dupla, em vez de eu ser apenas a backing vocal do Layne. Começamos a ficar mais próximos e a dividir o peso, além da versatilidade de termos duas vozes diferentes. O mais legal é que, quando cantávamos juntos, nossas duas vozes se uniam para formar uma voz maior. Dá para perceber quando é ele, dá para perceber quando sou eu, mas muitas vezes, quando cantamos juntos, é difícil distinguir quem é quem.”

Tal prática, que começou como um incentivo de Layne Staley, acabou sobrevivendo mesmo após a morte do cantor em 2002. Atualmente, a dinâmica continua com William DuVall, vocalista que assumiu o posto em 2006.

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Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room, Rock Brigade e Guitarload. Atualmente, é redator em IgorMiranda.com.br, revisa livros das editoras Belas Letras e Estética Torta e edita o Morbus Zine, dedicado a resenhas de death metal e grindcore.
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