CRÍTICA

YoungBoy Never Broke Again prova que certificações não garantem um bom álbum

Com 30 faixas repetitivas, o rapper mais certificado da história entrega um álbum excessivo que dilui seus melhores momentos

Kadu Soares (@soareskaa)

YoungBoy Never Broke Again
Foto: Prince Williams/WireImage

Recentemente, a Recording Industry Association of America (RIAA) coroou YoungBoy Never Broke Again como o rapper mais certificado de todos os tempos. Com 126 certificações e 140,5 milhões de unidades vendidas, ele superou nomes como Drake, Kanye West e Jay-Z — feito impressionante para alguém que está na casa dos 20 anos. A premiação veio poucas horas após o lançamento de seu oitavo álbum de estúdio, Slime Cry (2026), e foi exatamente essa notícia que me instigou a apertar o play.

Slime Cry tem 30 faixas. Trinta. Quase uma hora e meia de YoungBoy fazendo trap no molde mais tradicional possível: sonoridade carregada, pesada, com beats praticamente idênticos do início ao fim. Não é o trap que o mainstream faz atualmente, muito menos as fusões que Travis Scott ou Playboi Carti exploram. É trap cru, direto, como se estivéssemos em 2016, no auge dos Migos ou Future, embora esses tenham faixas que ainda sejam interessantes nos dias de hoje. Mas aqui, por uns 10, talvez 15 minutos, essa estética até funcione. O problema é que há mais 75 minutos pela frente. E YoungBoy não muda o disco.

O rapper de Baton Rouge passa a maior parte do álbum narrando suas vivências, problemas, ameaçando opositores e relembrando pessoas que matou. Máscaras, luvas, mulheres, grana, Glocks, o vocabulário se comprime numa fórmula que se repete até perder qualquer impacto. “Mask and Gloves” faz isso. “Another Episode” faz isso. “Headtap” faz isso. “Good Dope” faz isso. “Bang Out” faz isso. Quando você chega em “Vendetta”, lá pela metade do álbum, já ouviu a mesma bravata por tanto tempo que as ameaças param de registrar.

As músicas de amor carregam o mesmo desespero das músicas violentas. “My Life I Apologize” começa com ele vendo dor nos olhos de alguém e pedindo desculpas, mas no segundo verso já está ameaçando violência. “Badder Than Yours” consegue a proeza de ser uma das piores músicas não só do álbum, mas de 2026 até agora — produção genérica, letra preguiçosa, refrão arranhado. É horrível.

Mas nem tudo é descartável. “Teary Eyes” com Burna Boy se destaca justamente por ser diferente do resto, talvez o único momento em que YoungBoy permite alguma vulnerabilidade real entrar sem imediatamente sabotá-la com ostentação cafona. Os vocais de Burna adicionam textura, a produção respira, e há algo próximo de emoção genuína. É uma pausa bem-vinda do ataque sonoro constante. Além dela, “Bruce Wayne” é outro destaque, equilibrando a dualidade de YoungBoy. A canção tem rimas interessantes e um flow atraente.

O problema é que esses momentos ficam enterrados sob tanto material mediano que perdem força. “My Grave”, na posição 22, contém alguns dos detalhes mais afiados do álbum, falando de banhos, frios, uniformes e armas debaixo do colchão e da casa. Ele fala sobre chorar na cela, verificar a metragem quadrada de cada cômodo que entra agora, sentir falta da família. (YoungBoy cumpriu 23 meses por acusações federais de porte de arma, comandou um esquema de fraude de prescrições médicas de sua casa em Utah, e foi perdoado por Donald Trump em maio de 2025, saindo com a liberdade condicional suspensa. A pressão legal aparece por todo Slime Cry.)

YoungBoy Never Broke Again é um fenômeno cultural inegável. Ele detém vários recordes e sua turnê MASA arrecadou 28,3 milhões de dólares (aproximadamente 151 milhões de reais na cotação atual) no ano passado. No YouTube, ele acumula quase o dobro de visualizações de Drake, Morgan Wallen e Bad Bunny combinados. Mas números não fazem um grande álbum. E Slime Cry, com toda sua ambição sonora e confissões ocasionais, é fundamentalmente um álbum que não sabe quando parar.

Trinta faixas dizendo basicamente a mesma coisa é excesso com cara de produtividade. É a prova de que mais nem sempre é mais — às vezes é apenas mais do mesmo. Se YoungBoy tivesse cortado isso para 12, talvez 15 faixas bem escolhidas, teríamos algo poderoso e coeso. Em vez disso, temos um álbum que começa minimamente interessante e, após 10 músicas, te deixa exausto só de ver que ainda faltam mais 20. Os bons momentos existem — “Teary Eyes”, “Bruce Wayne”, “My Grave” —, mas ficam diluídos em tanto material descartável que mal conseguem respirar. É um desperdício de potencial. E considerando o talento e os números que YoungBoy acumula, isso é ainda mais frustrante.

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Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
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