‘Dupla Perigosa’ prova que a química ainda é a melhor arma do cinema de ação
Longa protagonizado por Dave Bautista (Guardiões da Galáxia) e Jason Momoa (Aquaman) já está disponível no catálogo do Prime Video
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Em um cenário dominado por franquias infladas e ação excessivamente digital, Dupla Perigosa chega ao catálogo do Prime Video encontrando sua maior força em algo simples e cada vez mais raro: a química entre seus protagonistas. Na novidade, Dave Bautista (Guardiões da Galáxia) e Jason Momoa (Aquaman) demonstram total domínio de seus personagens e transformam o contraste de estilos em combustível narrativo.
O filme dirigido por Ángel Manuel Soto (Besouro Azul), a partir do roteiro de Jonathan Tropper (O Projeto Adam), entende que nenhuma explosão substitui o carisma em cena e constrói sua identidade a partir da relação entre dois personagens opostos, que se chocam, se provocam e se completam. O roteiro acerta ao escrever personagens sob medida para essa dupla e é nessa dinâmica que Dupla Perigosa se ancora, recuperando a essência dos grandes buddy movies, como Máquina Mortífera (1987), uma das referências da novidade, que apostava na sintonia entre Mel Gibson (Coração Valente) e Danny Glover (Predador 2 – A Caçada Continua).
A trama acompanha Jonny (Momoa) e James (Bautista), dois meio-irmãos distantes, que precisam trabalhar juntos para desmascarar uma conspiração envolvendo a morte misteriosa e inesperada do pai no Havaí. O reencontro acontece em um momento de luto e desconfiança, forçando uma aproximação marcada por ressentimentos antigos. Enquanto Jonny é um policial inconsequente, guiado pelo impulso, James é um disciplinado membro da marinha, fiel às regras e à hierarquia — um contraste que estrutura tanto o conflito dramático quanto o humor do filme.
A direção de Ángel Manuel Soto aposta em uma ação que serve aos personagens e não o contrário. As sequências mais intensas funcionam como extensões do vínculo entre os protagonistas, revelando conflitos mal resolvidos e tensões familiares que atravessam toda a narrativa — vale citar, inclusive, uma longa sequência de pancadaria entre eles que remete à longa troca de socos entre Roddy Piper (A Continuação da Espécie) e Keith David (O Enigma de Outro Mundo) em Eles Vivem (1988), de John Carpenter. Quando essa violência explode, ela carrega peso dramático e até doses de humor, reforçando a ideia de que o embate físico também é um diálogo entre dois corpos que compartilham história e traumas.
Visualmente, Dupla Perigosa evita o visual pasteurizado comum ao gênero. As locações naturais e a fisicalidade das cenas de ação reforçam a sensação de impacto real, enquanto a encenação privilegia a presença corporal de dois brucutus dos tempos atuais. A ação é menos sobre velocidade e mais sobre peso, cansaço e consequência — elementos que fortalecem a conexão emocional entre os personagens e o espectador.
No fim, a novidade não tenta reinventar o cinema de ação, mas lembra por que ele funciona tão bem quando feito com atenção aos vínculos humanos. Ao colocar a química no centro da experiência, o filme reafirma que grandes parcerias ainda são capazes de sustentar uma narrativa inteira. Em tempos de fórmulas gastas, essa talvez seja sua arma mais eficiente.
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