ENTREVISTA RS

Arthurzim volta ao trap com novo álbum: ‘Meu bairro é inspiração, as crianças se espelham em mim’

Rapper cearense lança álbum gravado no Conjunto Esperança, fala sobre responsabilidade de inspirar a quebrada e anuncia nova fase da carreira

Kadu Soares (@soareskaa)

Arthurzim
Foto: @vinutin.midia

Cinco quilômetros a oeste da Parangaba, no Território 34 da Regional IX de Fortaleza, 16.405 pessoas — 22% delas com menos de 14 anos, segundo o Censo de 2010 — moram espalhadas por 80 ruas, no famoso Conjunto Esperança. É aqui, neste pedaço jovem de Fortaleza, que Arthurzim continua morando. Mesmo depois do sucesso do Mixtrapiseiro (2025), do primeiro top 50 e de virar referência para uma geração que escolhe o microfone em vez do “movimento”.

“Meu bairro é a base de tudo”, ele diz em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil. Vestindo uma camiseta branca lisa, corrente dourada no peito e um boné rosa choque com o rosto da Hello Kitty, o rapper dispara: “O que eu canto são coisas que eu vi, vivi e vivo aqui”, e logo nos primeiros cinco minutos de papo já fica claro que o Conjunto Esperança representa muito mais que apenas o CEP para ele.

Bem-Vindo Ao Meu Bairro (2026), o novo álbum de Arthurzim, lançado na última quinta, 22, é a certidão de nascimento dessa relação. Todo o visual foi gravado ali, entre as ruas numeradas e as avenidas que contornam o bairro. Mas o disco é também outra coisa: um acerto de contas. Depois de experimentar com o Mixtrapiseiro — a fusão de trap com piseiro que abriu portas, trouxe novos públicos e provou que o cearense não se limita a um estilo —, chegou a hora de voltar ao trap de verdade. O que fez ele ser conhecido. Ao que sempre foi sua essência.

Arthurzim do Antigo Testamento

Quando Arthurzim lançou o Mixtrapiseiro no começo de 2025, a recepção foi surpreendente. “Toque de Romance” pegou top 50, o público abraçou a mistura inusitada, e de repente ele estava no meio de dois mundos: o trap, que sempre foi seu, e o piseiro, que chegou como experimentação. Mas tanto ele quanto o público sabiam: uma hora, ia ter que voltar. “A gente meio que voltou a fazer o que a gente tem costume, que foi o que fez eu aparecer pro público: o trap”, explica.

A volta não foi impulsiva, está mais para estratégica. “A gente nunca teve em mente abandonar o trap. Mas eram dois públicos diferentes. Então a gente tinha que pensar, ver o que ia lançar.” O Mixtrapiseiro foi importante, mas havia guias antigas guardadas, faixas que o público pedia, um som que Arthurzim devia para rapaziada. BVMB é isso: o resgate.

Ele chegou a pensar em chamar o disco de “Velho Testamento”. A ideia fazia sentido na cabeça: antes de apresentar a nova fase, era preciso fechar o ciclo anterior. Entregar o que estava pendente. Mas durante a produção, mudou de ideia. “Velho Testamento é para aqueles rappers que têm uma carreira longa. Um Felipe Ret, por exemplo, hoje não faz o que ele fazia no começo da carreira, então faria sentido esse nome. Pra mim, não.”

Fez mais sentido chamar de Bem-Vindo Ao Meu Bairro — direto, sem metáforas rebuscadas. E o timing de tudo foi calculado. Quando lançou o Mixtrapiseiro, o trap nacional passava por um momento de estagnação. Foi a hora certa pra experimentar. Agora, com o trap de novo em alta e a experimentação cumprida, era hora de voltar com tudo.

A favela que inspira versos

O bairro está em tudo — na sonoridade, nas letras, nas referências, nas vivências, na postura. “Minha sonoridade vem de inspirações de coisas que eu escuto aqui, que eu cresci ouvindo. É vivências e coisas que eu vejo no dia a dia.”

Desde o começo, o bairro foi parceiro. “Qualquer coisa que a gente vai fazer aqui, o pessoal sai, apoia. É massa mesmo.” Quando Arthurzim grava clipe no Conjunto Esperança, a rua inteira vira set. Quando ele solta música nova, a quebrada vibra. E o retorno é outro: as crianças olham pra ele de um jeito diferente. “As crianças me veem como inspiração. Tem muita criança aqui que em vez de ir pro crime tá se espelhando em mim, tá querendo rimar.”

É um peso e tanto. Mas Arthurzim carrega com consciência. Ele compara com o moleque do futebol que inspira outras crianças a virarem jogadores. “Toda quebrada tem um mano que pelo futebol inspira. Da mesma forma, as crianças hoje me olham e pensam: eu quero ser artista também, quero fazer música, ver outra solução.” Até “figuras do movimento” (se é que me entende) reconhecem. “Os caras chegam e falam: ‘Mano, tu não tem noção. Tem muita criança aqui que tá querendo rimar por tua causa’.”

E Arthurzim não saiu de lá. Afinal, como dedicar um projeto ao seu bairro se esse não é mais o seu bairro?

Arthurzim
Foto: @vinutin.midia

“Não é mais só por mim”

Com um pouco mais de 30 minutos de conversa, Arthurzim reflete sobre a trajetória que começou há tempo. Desde 2018, com vários singles — com destaque para “Sessão de Cria“, a primeira vez em que furou a bolha —, o rapper diz que tem dias que todo artista acorda querendo desistir. “Todo mundo tem aquele dia que acorda e pensa: ‘vou desistir, não é pra mim’. Independente de tudo, você tem esses dias.” Mas hoje, quando o pensamento vem, outro pensamento chega antes: tem gente que depende de mim.

“Antes era só meu sonho, era vencer na vida. Não, mano, hoje em dia eu faço isso principalmente pela minha família. Quero ver minha família bem, numa condição boa, quero proporcionar coisas que eles nunca puderam, talvez nunca iriam conseguir.” A música deixou de ser só sobre ele. Virou sobre os outros. Sobre o exemplo que ele representa. “Se eu desistir, não vai ter mais aquela imagem ali pra inspirar outras pessoas. Então não é questão que é só mais por mim. Tem gente que depende de mim.”

É uma responsabilidade que pesa, mas também motiva. “Eu sou inspiração pra muita pessoa. Se eu parar, aquelas pessoas pra quem eu sempre falei ‘não desiste, continua’ vão ver que o cara que me inspirava desistiu. Então não tem porquê.”

E isso tudo tá em BVMB. Cada faixa é um pedaço dessa história, dessa responsabilidade, dessa consciência de que a música transcende entretenimento — ela pode mudar trajetórias.

Real, diferente e versátil

E depois de saber tudo isso, fica evidente que BVMB fecha um ciclo, mas não é o fim. Arthurzim tem plena consciência disso. “O álbum foi pra encerrar um ciclo. O Arthurzim, sem ser da parte do trapzeiro, mas do trap que fez vocês me conhecerem, encerra aqui. Agora vem um Arthurzim novo.”

“Eu vou focar agora na nova fase. Faixas novas, estética nova, lírica nova. Tudo mais afiado, mais bravo, mais atual, mais diferente.” A ideia é trazer singles, fazer feats que a galera espera há tempo e correr atrás da próxima bomba.

Quando perguntado sobre como define essa nova fase em três palavras, Arthurzim não hesita: “Real, diferente e versátil.” Real porque continua sendo ele, sem filtro, sem personagem. Diferente porque a sonoridade vai evoluir, se atualizar, surpreender. Versátil porque, como ele sempre deixou claro, não se limita a um estilo só. “Hoje tô fazendo trap, mas amanhã posso tá lançando um reggae, um funk. Minha arte não se limita.”

Do Conjunto Esperança pra onde a música levar, Arthurzim segue com os pés no chão e a visão no horizonte. BVMB é o marco que separa o velho do novo, o experimental do essencial, o passado do futuro. Mas uma coisa não muda: o bairro continua sendo a base. As crianças continuam se espelhando. A responsabilidade continua pesando — e impulsionando.

“Meu bairro é a base de tudo”, ele repete.

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Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
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