Avenged Sevenfold desfruta de sua resiliência ao presentear SP com grande show
Com A Day to Remember e Mr. Bungle abrindo, banda americana realizou maior show solo da carreira no Allianz Parque — e justo em momento no qual testa e desafia fãs
Igor Miranda (@igormirandasite)
Uma condição clínica ajudou o Avenged Sevenfold a estourar. Em 2004, um ano antes do lançamento de seu terceiro álbum — e primeiro em uma grande gravadora —, City of Evil (2005), M. Shadows foi submetido à sua primeira cirurgia vocal, a laser, para impedir que vasos sanguíneos se rompessem toda vez que ele gritasse ao estilo metalcore. O procedimento foi um sucesso, mas ele ouviu dos médicos que deveria mudar sua forma de cantar, caso contrário não seria capaz sequer de falar num prazo de 5 anos.
Isso forçou o grupo completo por Synyster Gates (guitarra), Zacky Vengeance (guitarra), Johnny Christ (baixo) e, à época, The Rev (bateria) a expandir sua paleta sonora. Sob tal perspectiva, nasceram canções como “Bat Country”, “Beast and the Harlot” e “Seize the Day”, que aproximaram o A7X de influências tanto mais tradicionais (Iron Maiden, Metallica, Guns N’ Roses) quanto ousadas (Queen, Helloween, Sonata Arctica). Com o sucesso, nunca mais olharam para trás: embora procurassem mudar a cada disco, sempre tiveram um raro apreço melódico no segmento do metalcore.

Por outro lado, os problemas vocais de Shadows retornariam, em situações mais conhecidas do público nos anos de 2018 — quando forçou até chegar a uma hemorragia nas cordas vocais e ter de cancelar uma turnê — e, mais recentemente, 2025. Nesta, precisou adiar uma turnê inteira pela América Latina devido a um problema na prega vocal esquerda. O Brasil, antepenúltimo destino, só os assistiria no fim de janeiro, pois as apresentações foram remarcadas para a última quarta-feira, 28, em Curitiba (Pedreira Paulo Leminski, com Mr. Bungle na abertura), e sábado, 31, em São Paulo (Allianz Parque, com A Day to Remember e Mr. Bungle). Chateação à parte, os fãs apoiaram, a ponto de esgotar os ingressos disponíveis para as duas datas.
O Avenged, agora com Brooks Wackerman no posto que um dia foi de The Rev (falecido em 2009), não vinha à capital paulista desde 2014, quando estendeu a turnê Hail to the King para mais seis datas nacionais após uma tumultuada performance no Rock in Rio do ano anterior. Por aqui, fizeram duas datas no Espaço Unimed, mas nas outras quatro cidades, reuniram públicos abaixo do esperado. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Synyster Gates admite: “Dava para perceber que estávamos indo demais ao Brasil e as vendas de ingressos estavam baixas”. Levou uma década até que voltassem ao nosso país, em outro patamar, desta vez como atração principal do já citado Rock in Rio. Ao incluir SP no itinerário um ano depois, ficou estabelecido: por aqui, o grupo faria a primeira apresentação em um grande estádio de toda a sua carreira.

Surpreende que tais feitos ocorram justamente num período no qual a base de fãs encontra-se dividida em função do álbum mais recente, o experimental, desafiador e nem sempre exitoso Life is But a Dream… (2023), responsável por quatro faixas do repertório do último sábado, 31. Exceção feita à fortuita abertura “Game Over” — cantada por um Shadows de rosto tampado por um gorro —, as canções do disco não atraíram reações tão acaloradas.
Ver essa foto no Instagram
Todavia, não é apenas pelo momento atual que o Avenged Sevenfold tem lotado arenas e, agora, estádios ao redor do mundo. Há incontáveis méritos desde a primeira cirurgia a laser que “obrigou” uma mudança artística:
- timing adequado com seu surgimento pós-auge do nu metal;
- ousadia para mudar e até apostar em estratégias diferentes (incluindo sua longa parceria em fornecer composições inéditas às trilhas sonoras dos games Call of Duty);
- apelo estético para além do visual dos integrantes;
- encapsulação dos anseios e sons apreciados pela geração millennial;
- pertencimento à construção identitária de um público específico, ainda que amplo;
- e, especial e obviamente, boas músicas, várias delas executadas no Allianz.
Entre as faixas mais celebradas pelo público, destacaram-se:
- “Afterlife”, primeiro momento de real catarse coletiva;
- “Hail to the King”, aceno mais visível do grupo ao chamado “metal tradicional” (ainda por cima dedicada a todos os brasileiros e trilha sonora para um sutiã ser atirado e posicionado no pedestal de Synyster Gates);
- a emotiva balada “So Far Away”, habitualmente oferecida a The Rev;
- “Bat Country”, composição que melhor compila os predicados responsáveis pelo estouro do A7X;
- e “Nightmare”, evolução da fórmula da composição anteriormente citada.
Também chamou atenção a forma como foram recebidas a semibalada country “Gunslinger”, já que esta nunca saiu como single, e a ligeiramente prog “Buried Alive”, que inicia lentinha para ficar pesada em seu terço final. Para além de algumas canções não tão envolventes de Life is But a Dream…, só não agradou tanto o final recheado de faixas longas emendadas: a enorme “Save Me” e a viajada “Cosmic” tiraram até um pouco do charme do ótimo encerramento “A Little Piece of Heaven”, cuja letra — zoada pelo próprio Shadows — versa sobre… necrofilia. Mas nada que alterasse a avaliação final.
Ver essa foto no Instagram
Em relação ao show de Curitiba, houve apenas duas mudanças pontuais. A 100% prog “The Stage”, única representante do álbum de 2016 no setlist recente, deu lugar ao semipop industrial “Mattel”, que na capital paranaense havia sido excluída para a entrada da metalcore “Chapter Four”. Além disso, a já citada “Gunslinger” voltou ao repertório no lugar de “We Love You”, que só havia entrado no set da última quarta-feira, 28 (“tiramos propositalmente de Curitiba para tocá-la só para vocês”, declarou M. Shadows). De resto, tudo igual, até mesmo a execução improvisada e quase integral da balada “Seize the Day”.
Também seguiu o roteiro curitibano o fato de Shadows ter promovido um chá revelação. As diferenças? Ocorreu após “Nightmare”, era uma menina e só rolou porque, àquela altura, o cantor já havia interrompido o show duas vezes para solicitar atendimento emergencial a fãs. A primeira situação se deu nos segundos iniciais de “Nobody”. Houve ainda um terceiro caso no qual Matt, além de pedir pelos profissionais de segurança e saúde, distribuiu garrafas d’água após ouvir um fã dizer que estava com sede.

Shadows, aliás, é o ponto de dúvida em uma banda que, instrumentalmente, funciona muito bem. O texto se inicia abordando os problemas sofridos e os procedimentos aos quais foi submetido. A boa notícia é: ao menos neste momento, sua performance vocal soa suficiente. Há momentos em que a voz não chega, como em algumas inflexões de “Afterlife”, e por vezes ele joga para a galera ou depende do apoio de Synyster Gates; ainda assim, está melhor do que no Rock in Rio 2024. Seus colegas dão conta do recado com sobras, destacando-se Gates, provavelmente um dos melhores guitarristas de sua geração, e Brooks Wackerman, saindo-se bem da árdua tarefa de executar linhas tocadas por The Rev e Mike Portnoy, além de Arin Ilejay.

Por sua vez, os fãs deram seu próprio show. Em diversas ocasiões, as vozes da plateia estimada entre 45 e 50 mil pessoas soterravam a de Shadows. O cantor, por mais de uma vez, declarou sua paixão ao Brasil. Numa das ocasiões, exclamou: “O que colocaram na água de São Paulo? Vocês são loucos! […] Vocês estão sempre no número um dos nossos corações”. A capital paulista, de fato, está entre as 5 cidades no mundo que mais escuta Avenged Sevenfold no Spotify. A julgar pelo que se viu no último sábado, 31, o A7X, por duas horas e 10 minutos, retribuiu com classe à fervorosa paixão nacional por sua banda. Que não fiquem mais 10 anos sem vir, como no hiato entre 2014 e 2024. Até Synyster Gates deve ter notado: há público, e muito, para ele e seus colegas por aqui.

Setlist — Avenged Sevenfold
1. Game Over
2. Mattel
3. Afterlife
4. Chapter Four
5. Hail to the King
6. Gunslinger
7. Buried Alive
8. Seize the Day (improvisada)
9. So Far Away
10. Bat Country
11. Nobody
12. Nightmare
13. Not Ready to Die
14. Unholy Confessions (com solo de bateria)
15. Save Me
16. Cosmic
17. A Little Piece of Heaven
A Day to Remember e Mr. Bungle
Como mencionado, duas atrações de abertura precederam o Avenged Sevenfold: A Day to Remember e Mr. Bungle. Perfis completamente diferentes, mas que, de alguma forma, se encaixam no conceito sonoro da banda principal.
Mr. Bungle foi o primeiro a surgir, às 17h20, para um show que surpreendeu pela boa recepção. Embora o grupo americano comandado por Mike Patton (voz; Faith No More), Trey Spruance (guitarra; ex-Faith No More) e Trevor Dunn (baixo; Fantômas) seja uma das maiores influências do A7X, seu trabalho é desconhecido de grande parte do público. Ainda assim, o quinteto completo por Dave Lombardo (bateria; ex-Slayer) e Andreas Kisser (guitarra; Sepultura; substituindo Scott Ian, do Anthrax) conseguiu conquistar parte da plateia, ao longo de uma hora, em meio a acertos e características inatas.

Dos êxitos, o principal esteve na montagem do setlist, mais orientado ao metal (especificamente thrash metal e crossover) e menos aos sons experimentais de álbuns como Mr. Bungle (1991; representado por “My A** is on Fire”) e California (1999; com “Retrovertigo”, “coverizada” pelo Avenged na década passada). Metade das escolhas veio da pesada regravação da demo The Raging Wrath of the Easter Bunny (1986), disponibilizada em 2020. Dos cinco covers, três acrescentaram ingredientes à performance: a delicada abertura “Tuyo” (Rodrigo Amarante; trilha de Narcos), a paulada “Refuse/Resist” (Sepultura) e uma releitura do pop atemporal “All by Myself” (Eric Carmen) adotando no refrão a letra “tomar no c*”. Sobre a releitura do clássico do Sepultura, dá para dizer que nem Lombardo, impecável em todo o set, conseguiu reproduzir com maestria as linhas de Iggor Cavalera.
Ver essa foto no Instagram
Das características inatas, o destaque reside, claro, em Patton, um cantor de capacidade imensa e um artista de criatividade inconteste. Em meio ao seu desfile de técnicas vocais e de instrumentos inusitados — incluindo um teremim —, o frontman conduziu a plateia recorrendo a um português quase fluente, seja manifestando de modo sério sua crença umbanda ou dizendo absurdos do tipo “eu quero tomar no c*” e “descabelar o palhaço”.

Também gozou de uma hora o A Day to Remember, para um show bem menos despojado e mais calculado que o do Mr. Bungle. Notória por explorar elementos de metalcore e pop punk/emo praticamente na mesma proporção, a banda americana despertou, por vezes, celeuma similar à de uma atração principal. Em retribuição, entregou uma performance correta — até demais — e, por que não, divertida.

O “até demais” é por, sim, incomodar demais a perfeição excessiva do ADTR no palco. Cada movimento parece devidamente pensado. As timbragens dos instrumentos soam comprimidas. De um jeito ou de outro, as canções seguem fórmulas à risca, dispensando desde solos de guitarra até variações tonais em seus andamentos. Até seus integrantes se mostram visualmente alinhados, alguns saídos diretamente de barbearia gourmet. O vocalista Jeremy McKinnon — que completa a formação com Kevin Skaff (guitarra), Neil Westfall (guitarra) e Alex Shelnutt (bateria) além do músico de apoio Bobby Lynge (baixo) — tem presença de palco, mas conversa pouco com a plateia, sem deixar brecha para se comprometer falando besteira.
Ver essa foto no Instagram
Deméritos? De forma alguma. A Day to Remember se mostra uma aposta segura num mercado que parece procurar por isso. Não por acaso mantiveram-se relevantes mesmo no período de decadência do emo e até mesmo cresceram antes da onda pré-nostalgia. Além disso, conseguem agradar gregos e troianos: as grudentas “Right Back at It Again”, “Have Faith in Me” e “If It Means a Lot to You” se contrapõem às mais pesadas “Make It Make Sense”, “Paranoia” e “2nd Sucks”, ainda tendo faixas no meio do caminho a exemplo de “The Downfall of Us All” e “Miracle”. No meio de tudo isso, tem bastante pirotecnia, chuva de papel picado e até um cara vestido de Super Mario atirando camisetas para o público. Até que entretém, sim.

Setlist — Mr. Bungle
1. Tuyo (original de Rodrigo Amarante)
2. Anarchy Up Your An*s
3. Bungle Grind
4. I’m Not in Love (original do 10cc)
5. Eracist
6. Raping Your Mind
7. Retrovertigo
8. Refuse/Resist (original do Sepultura)
9. Hypocrites / Habla español o muere
10. Sudden Death
11. Hopelessly Devoted to You (original de John Farrar)
12. My A** is on Fire
13. All by Myself (cover de Eric Carmen – alterada no refrão para “Tomar no C#”)
Setlist — A Day to Remember
1. The Downfall of Us All
2. I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?
3. Right Back at It Again
4. Bad Blood
5. Make It Make Sense
6. Paranoia
7. Miracle
8. Mr. Highway’s Thinking About the End
9. All My Friends
10. Have Faith in Me
11. 2nd Sucks
12. Silence
13. If It Means a Lot to You
14. All I Want
15. All Signs Point to Lauderdale
Rolling Stone Brasil: Avenged Sevenfold na capa
A nova edição da Rolling Stone Brasil traz uma entrevista exclusiva com os 5 integrantes do Avenged Sevenfold, às vésperas de seus maiores shows solo no Brasil. Também há um bate-papo com Planet Hemp, um especial Bruce Springsteen, homenagem a Ozzy Osbourne e muito mais. Compre pelo site da Loja Perfil.

+++ LEIA MAIS: Avenged Sevenfold: desafiar para conquistar [ENTREVISTA]
+++ LEIA MAIS: Avenged Sevenfold promete tocar músicas menos conhecidas em shows no Brasil
+++ LEIA MAIS: A discografia do Avenged Sevenfold, comentada pelos 5 integrantes
+++ LEIA MAIS: Avenged Sevenfold vai a show intimista do Mr. Bungle em São Paulo
+++ Siga a Rolling Stone Brasil @rollingstonebrasil no Instagram
+++ Siga o jornalista Igor Miranda @igormirandasite no Instagram