Aos 42 anos, Stefanie estreia no Lollapalooza: ‘É possível, independente da sua idade’
Com mais de 20 anos de carreira, rapper fala à Rolling Stone Brasil sobre estreia no festival, quebrar paradigmas do etarismo no rap e mostrar que é possível para mulheres na cena
Kadu Soares (@soareskaa)
Foi assistindo a um show da Doechii que a ficha caiu. Stefanie na sua casa, curtindo a apresentação no YouTube, quando o pensamento veio: “Vou estar no mesmo palco que ela. Vou abrir pro show dela”. De repente, o Lollapalooza deixou de ser só um festival distante pra virar realidade concreta. Sexta, 20 de março, mesmo palco que Doechii. Mesmo festival que dezenas de artistas que ela admira. Depois de mais de 20 anos de carreira, aos 42 anos, Stefanie vai pisar no maior palco de um dos principais festivais de música do Brasil. “É surreal, é mágico, é maravilhoso”, ela diz, ainda processando.
O caminho até aqui não foi curto. Desde que começou no rap, Stefanie viu o cenário mudar — viu mulheres conquistarem espaço, viu o trap explodir, viu festivais se abrirem pra diversidade. Mas também viu muitas desistirem. Viu barreiras, etarismo, descrédito. Em abril de 2025, lançou Bunmi, seu primeiro álbum depois de duas décadas fazendo música. E agora, menos de um ano depois, está prestes a apresentar esse trabalho no Lollapalooza, num show inédito que promete reunir tudo que ela aprendeu nesses 20 anos. “Eu me sinto honrada, muito feliz. São vários estilos musicais, tem muita gente que já conhece meu trabalho, mas tem muita que não conhece e vai ter a oportunidade”, ela conta à Rolling Stone Brasil.
“Queria estar ali”… você estará, Stefanie!
Todo mundo já viveu isso. Estar na pista, vendo alguém brilhar no palco, e pensar: “Queria estar ali”. Stefanie teve esse pensamento várias vezes ao longo da carreira. O problema é que, muitas vezes, o sonho parece tão distante que vira quase impossível. “A gente que é artista sonha com isso. Só que muitas vezes a gente acha que é um sonho distante, que não é possível”. Mas o tempo passou, a persistência valeu, e o impossível virou real.
“É um festival onde são diversos artistas, vários estilos musicais. Tem muitas pessoas que vão estar por lá que não conhecem e vão ter a oportunidade de conhecer”. É a chance de quem já acompanha rever o trabalho dela ao vivo, e de quem nunca ouviu descobrir. É vitrine, é validação, é marco.
E a estratégia pra conquistar quem nunca ouviu falar dela? Simples: ser autêntica. “Eu amo estar no palco. Tem pessoas que falam pra mim: ‘Stefanie, no palco você se transforma'”. Ela sabe que o palco traz uma energia diferente, que acessa um lado dela que o dia a dia não revela. “É a música, é a arte. Com certeza vai ser um show pra cima, com muita energia, muita potência, com muito amor, muita paixão. É isso que faz as pessoas se conectarem”.
“No palco eu me transformo!”
Existe a Stefanie do cotidiano — mãe, mulher de 42 anos, artista que medita sobre a vida e reflete sobre suas escolhas. E existe a Stefanie do palco — potência pura, energia que contagia, presença que transforma o ambiente. “O palco me traz uma energia diferente. Faz eu acessar um outro lado que no dia a dia eu acabo não apresentando pras pessoas”.
Estar no palco é o seu momento, ou melhor, é sobre criar um momento. “Quando eu tô no palco, eu quero me divertir. Quero que as pessoas venham comigo pra ter um momento de alegria, de diversão, um momento marcante e inesquecível”. O objetivo é claro: que o público olhe pra trás daqui a alguns anos e diga “em 2026, teve o show da Stefanie no Lollapalooza e foi incrível”.
E pra garantir que isso aconteça, Stefanie está preparando algo especial. Vai ser a primeira vez que ela apresenta um show completo depois do lançamento de Bunmi. É estreia dupla: dela no Lollapalooza, e do repertório pós-álbum no palco. “Vai ser bem especial, uma experiência bem diferente”.
As referências criativas pro show vêm da própria trajetória. “É a minha história. Tudo que eu aprendi até hoje”.
Montar a setlist, porém, vem sendo um dos maiores desafios. Como resumir 20 anos de carreira num único show? Como escolher o que entra e o que fica de fora? A solução foi tentar equilibrar tudo: “A gente tá tentando fazer de uma forma bem amarradinha, bem bonita, pra ter de tudo um pouco. Pra agradar o pessoal que conhece desde o começo até agora”.
É um balanço delicado entre o que o público espera e o que ela quer mostrar. Entre os hits antigos e as faixas novas de Bunmi. Entre nostalgia e futuro. “Vai ser bem bonito”, ela garante. E se depender da preparação, vai mesmo.
Curadora por um dia
No meio da conversa, um momento para descontrair. E se Stefanie pudesse montar um festival de um dia, quem seriam os três headliners? A resposta veio rápida, pensada em gerações. Ela quer equilíbrio, quer mostrar a evolução do rap brasileiro através do tempo.
Um festival de rap dividido em gerações. Anos 90: SP Funk. A geração que abriu caminho, que mostrou que dava pra fazer rap em português, que criou a cena. Anos 2000: Consequência. A consolidação, a expansão, o momento em que o rap começou a furar outras bolhas. Anos 2010: Rimas & Melodias. O aglomerado dela e de várias minas, várias vozes, mostrando que mulher no rap não é exceção. E pra fechar, representando 2020: Ajuliacosta. A nova geração, o futuro, a continuidade.
Contribuir pra carreira de outros artistas
Já no final do papo, quando perguntada sobre qual é o sonho hoje, em janeiro de 2026, às vésperas de um dos shows mais importantes da carreira, a resposta surpreende. Não é um Grammy, não é um feat específico, não é um show gigante. É algo maior: “Um dos meus sonhos é colaborar na carreira de artistas, de novos artistas”.
Ela quer estar mais no estúdio, criando. Quer aprender produção de verdade, colocar a mão na massa. “Eu gosto muito de produção. Há anos eu quero aprender, porque eu sou muito intuitiva. Na minha cabeça, vêm muitas melodias, vêm muitas batidas. Então eu preciso tirar da minha cabeça e passar pra algum lugar tudo que eu imagino”. É sobre transformar ideias em realidade, sobre ensinar o que aprendeu, sobre abrir caminhos como outros abriram pra ela.
E isso não significa parar a própria carreira. Pelo contrário. Pro segundo semestre, já tem lançamentos planejados — ainda guardados a sete chaves, mas confirmados. “A gente tá com um planejamento bem bacana”.
Do sonho distante de ver artistas em palcos gigantes à realidade concreta de subir num desses palcos, Stefanie trilhou um caminho longo, difícil, mas coerente. Aos 42 anos, com mais de 20 de carreira, ela não está no Lollapalooza pra provar nada a ninguém — está lá porque merece, porque construiu, porque resistiu. Na sexta, 20 de março, Stefanie vai subir no palco do Lollapalooza. Vai apresentar Bunmi, dividir espaço com Doechii, e, acima de tudo, mostrar pra toda uma geração — especialmente pras mulheres, especialmente pras que já passaram dos 40 — que é possível. Que não tem idade pra sonhar. Que a continuidade é a única opção quando você ama o que faz.
“Eu quero que as pessoas olhem na memória e falem: em 2026, teve o show da Stefanie no Lollapalooza e foi incrível”. Pode anotar. Será.