TRATE AS PESSOAS COM GENTILEZA
Fãs estão literalmente vendendo o próprio sangue por ingressos para shows de Harry Styles
Após o anúncio de uma nova turnê e álbum de Harry Styles, fãs do astro britânico encaram preços exacerbados
CT Jones
Quando Chante Whyte viu Harry Styles anunciar seu quarto álbum de estúdio Kiss All The Time. Disco, Occasionally., seu primeiro pensamento foi de pura alegria com o retorno de seu artista favorito. Mas, assim que as datas da turnê foram anunciadas, outro sentimento ameaçou tomar conta: preocupação.
“Eu prometo para você, meu coração disparava todas as noites pensando em como seria a guerra com a Ticketmaster”, disse ela à Rolling Stone.
Embora a turnê Together, Together só comece em 16 de maio, a venda de ingressos já começou para quase todas as datas. Mas os fãs que se inscreveram na pré-venda exclusiva para artistas e clientes da Amex ficaram chocados ao descobrir que muitos ingressos estão sendo vendidos por mais de US$ 1.000 (mais de R$ 5 mil reais na cotação atual). Parte disso se deve ao fato de ele ser Harry Styles — um astro pop internacional que teve todos os seus álbuns de estúdio estreando em 1º lugar na Billboard Hot 100 — mas também por ser um ex-integrante da boy band One Direction. Styles não faz turnês há vários anos e tem a reputação de praticamente desaparecer após o término de uma série de shows, o que significa que muitos fãs temem que perder um ingresso possa significar esperar pelo menos mais três anos para vê-lo novamente. Há também o fato de que a turnê Together, Together é significativamente menor do que as turnês anteriores de Styles, com apenas 67 datas em 11 cidades, incluindo 30 apresentações no Madison Square Garden. E a demanda é astronômica — mais de 11 milhões de pessoas entraram na fila para os 500.000 ingressos disponíveis para os shows na região da cidade de Nova York.
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E embora todos esses fatores impulsionem a demanda, os fãs de Styles também precisam lidar com a longa batalha da indústria musical contra as ticketeiras. Os preços altos dos ingressos são um problema há décadas — os fãs reclamaram do custo de ver os Rolling Stones nestas mesmas páginas em 1969 — mas, nos últimos anos, artistas e fãs têm se manifestado cada vez mais sobre o assunto. Em setembro, a Comissão Federal de Comércio (FTC) processou a Live Nation e a Ticketmaster, alegando que as plataformas de venda de ingressos escondem taxas dos consumidores e incentivam bots a comprar grandes quantidades de ingressos, elevando o preço de revenda. A Ticketmaster negou as acusações, mas anunciou diversas mudanças na plataforma, incluindo o banimento de contas múltiplas e o encerramento da ferramenta de rastreamento de preços TradeDesk. Mas, enquanto os processos e a controvérsia continuam, os fãs de Styles ainda estão ansiosos para encontrar ingressos — e estão dispostos a fazer o que for preciso para ver seu artista favorito ao vivo.
Para Daniella Barone, de 24 anos, conseguir ingressos é mais do que simplesmente se divertir em uma noite de festa. É a sua segunda chance de vivenciar um fandom que ela ama. A estudante de ilustração frequenta a faculdade na Flórida, mas é originalmente da Venezuela. Ela planejava ir a um show em Miami em 2020, mas teve que sair do país para obter seu green card (cartão de residência permanente dos Estados Unidos). Então, a Covid-19 chegou, fechando a embaixada e a deixando presa na Venezuela por vários meses. Quando finalmente conseguiu voltar aos Estados Unidos, o show havia sido cancelado.
“Eu ouço One Direction desde os 11 anos e agora tenho 24”, diz ela. “Sempre amei a música do Harry, mas também amo o fandom. É como uma pequena família. Isso sempre foi algo que me atraiu muito; ter essa comunidade”.
Ela contou à Rolling Stone que, no minuto em que viu o anúncio da turnê, soube que precisava de dinheiro rápido. Mas, como estudante, precisava de um emprego que não interferisse em sua agenda de aulas lotada. Sua solução? Doação de plasma. Ela já doou duas vezes e planeja continuar doando até conseguir pagar dois ingressos e passagens aéreas para Nova York. E o resto? Bem, ela não tem tanta certeza. “Só posso comer uma vez por dia, mas já fiz isso antes!”, diz ela, rindo. (A prática é geralmente considerada segura para pessoas com 17 anos ou mais que atendam a certos requisitos médicos, de acordo com a Clínica Mayo e a Cruz Vermelha Estadunidense, mas é importante esperar pelo menos 28 dias entre as doações.)
Ava Engle, de 18 anos, teve uma ideia semelhante. A estudante da Universidade Estadual de San Diego se descreve como uma frequentadora assídua de shows. “Já travei muitas batalhas contra a Ticketmaster”, diz ela. Mas, como universitária, ela conta à Rolling Stone EUA que sua agenda limita bastante o tipo de trabalho que pode fazer para ganhar dinheiro e acompanhar as aulas. Ela tem pavor de agulhas, mas depois de não conseguir encontrar um ingresso para o show de Styles por menos de US$ 1.000 na venda oficial da Ticketmaster, ela se inscreveu para doar plasma.
Cada sessão rende a ela cerca de US$ 90 (aproximadamente R$ 472) , o que, segundo ela, dá uma boa soma quando ela também dá aulas particulares. Durante as férias escolares, ela também recebe o valor do salário mínimo trabalhando na recepção de um clube de natação, então, com essas três fontes de renda, ela espera ter o suficiente. Mas ter que se esforçar tanto para conseguir os mesmos ingressos pelos quais algumas pessoas pagaram US$ 200 (aproximadamente R$ 1050) na última turnê ainda a frustra.
“Tenho terror de agulhas, e estava morrendo de medo”, diz ela. “Sentada na cadeira, comecei a ter dúvidas. Tipo, ‘O que estou fazendo?’ Eu só queria ver um dos meus artistas favoritos. Não deveríamos ter que fazer tudo isso só para conseguir dinheiro para ingressos para uma noite”.
Desde que a turnê começou a vender ingressos, os fãs mantêm sua indignação com os preços. Até mesmo o ex-colega de banda de Styles, Zayn Malik, pareceu fazer referência à controvérsia em seu show de 28 de janeiro. “Só quero dizer muito, muito obrigado a cada um de vocês por estarem aqui esta noite”, disse ele no palco. “Espero que os preços dos ingressos não tenham sido muito altos. Só dizendo.” À medida que os preços dos ingressos dispararam, o comportamento dos fãs em relação aos shows também mudou. Para grandes estrelas como Styles, Billie Eilish ou Olivia Rodrigo, que têm uma base de fãs mais jovem, muitos frequentadores de shows compensam o custo dos ingressos comprando ingressos mais baratos para a pista, sem assentos, e acampando durante a noite em frente ao estádio para ficarem o mais perto possível do palco. (Mesmo esses ingressos podem custar de US$ 400 a US$ 900 ou mais (aproximadamente R$ 2101 e R$ 4.727, respectivamente).) Mas também há uma falta de transparência sobre quantos ingressos baratos estão realmente disponíveis, o que, segundo os fãs, faz com que a compra pareça menos um sistema de “quem chega primeiro, leva” e mais uma loteria. (Não foi possível contatar representantes de Styles para comentar sobre os preços dos ingressos.) Na quarta-feira, Styles anunciou que faria um show “por apenas uma noite” em Manchester, Inglaterra, onde todos os ingressos custariam £20 (aproximadamente R$ 142). Os fãs podem “solicitar” ingressos a partir desta sexta-feira. Até o momento, mais de 1,4 milhão de pessoas curtiram a publicação no Instagram.
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“Eu faço tudo certo. Não sou um robô. Então, o fato de eu ainda ser a [100.000ª na] fila e, quando finalmente entro, vejo os preços dos ingressos e não há quase nada disponível, e todos custam mais de US$ 1.000 ou US$ 700 (aproximadamente R$ 5.251 e R$ 3.675, respectivamente) e nem são lugares incríveis. É muito frustrante”, diz Engle. “É tipo, ‘Harry, o que estamos fazendo?’”
Aaron Fern, de 28 anos, não era um grande fã do One Direction. Mas quando ouviu o primeiro álbum solo de Styles, se apaixonou imediatamente. Styles tem sido um de seus artistas favoritos todos os anos desde 2019. Quando ele e seus amigos viram o anúncio da turnê, ele correu para o grupo de mensagens. “Foi tipo, ‘Precisamos comprar ingressos'”, diz ele. “Parecia que precisávamos ir agora, ou então seriam mais cinco anos até vê-lo”.
Fern se inscreveu em dezenas de pré-vendas para os shows no Madison Square Garden, mas ainda planeja se endividar ainda mais no cartão de crédito para comprar os ingressos. Seu orçamento previsto era de cerca de US$ 1.000 (R$ 5.251) para dois ingressos, mas depois de falhar em várias pré-vendas, ele diz que vai com tudo e está procurando um segundo emprego. “Estou realmente surpreso. Não culpo o Harry, porque é como culpar o homem do tempo pelo clima. Mas é uma loucura”, diz ele. “Estou procurando trabalhos como bartender, em restaurantes, em lojas de discos. Qualquer coisa em que eu sinta que tenho experiência, mas que também possa me render dinheiro rapidamente”.
Quando Whyte, de 25 anos, pensa nas dezenas de vezes em que assistiu aos shows de Styles, ela os descreve como experiências “transformadoras”, repletas de amizade e senso de comunidade. “Na última turnê do Harry, eu fui a quase 30 shows. É meio insano”, diz ela, rindo. “Eu sempre digo para minha mãe que tem um neurônio que entra em curto-circuito quando se trata desse homem”.
Como os ingressos estão muito caros, Whyte, formada em direito e atualmente estudando para o exame da Ordem dos Advogados, diz que terá que usar boa parte de suas economias para ver Styles se apresentar ao vivo. É um sacrifício que ela está disposta a fazer — principalmente porque planeja ir ao máximo de shows para os quais conseguir ingressos. Mas Whyte disse à Rolling Stone que o alto custo dos ingressos é mais do que frustrante — parece contradizer os temas que Styles promove.
“Existe um fascínio em estar num show do Harry Styles. Sim, é o Harry. Mas também tem a ver com a comunidade à qual você se junta, estar na pista, dançando junto, acampando. É essa sensação de pertencimento que me faz voltar sempre”, diz ela. “Acho irônico que toda a turnê se chame Together, Together e que a ideia seja de que pertencemosjuntos, quando os preços dos ingressos claramente dizem o contrário”.