RESENHA

Não faltou nada no show de Bad Bunny no Super Bowl

No Super Bowl LX, o porto-riquenho entregou 13 minutos históricos sobre identidade, amor e resistência — sem pedir desculpas em inglês

Kadu Soares (@soareskaa)

Bad Bunny no Super Bowl
Foto: Chris Graythen/Getty Images

Não faltou nada no show de Bad Bunny no Super Bowl LX. Não faltou energia, faltou celebração, música boa, simbolismo, orgulho porto-riquenho ou posicionamento político. Teve tudo! E, principalmente, teve clareza sobre o que tinha ido fazer no Levi’s Stadium em Santa Clara, Califórnia, no último domingo, 8: transformar os 13 minutos mais assistidos da televisão americana num manifesto sobre identidade sem tradução.

Uma semana após ganhar o Grammy de Álbum do Ano com DeBÍ TiRAR MáS FOToS (2024), Benito Antonio Martínez Ocasio subiu no palco do intervalo mais cobiçado vestindo camisa de futebol americano off-white com seu sobrenome e o número 64 — referência ao ano em que Don Omar nasceu, pioneiro do reggaeton.

Antes mesmo da apresentação, lá quando ele havia sido anunciado, já estava claro que seria histórico. Quando ele disse no Saturday Night Live meses antes que todo mundo deveria aprender espanhol, não era piada. E no Super Bowl, ele cumpriu: foram 13 minutos inteiros em espanhol e mais de 100 milhões de pessoas assistindo performances de “Tití Me Preguntó”, “Yo Perreo Sola”, “Safaera”, “EoO” — reggaeton que dominou paradas globais, mas nunca havia tido esse espaço na TV aberta.

O palco — um dos mais bonitos da história recente do evento — virou Porto Rico. Trabalhadores de campo com chapéus pava tradicionais. Homens jogando dominó. Mulheres fazendo unhas. Vendedores de piraguas. Boxeadores treinando. Muito mais que cenografia, era cotidiano. A “La Casita”, casa rosa tradicional e símbolo da turnê ocupou o centro do campo representando lar, comunidade e diáspora. Tudo ali, sem exotização, sem estereótipo e com expoentes defensores da cultura — Pedro Pascal, Karol G, Cardi B — no meio disso tudo. Cada elemento visual carregava peso político mesmo quando parecia decorativo.

Mais para frente, a primeira surpresa: Lady Gaga apareceu para cantar “Die With a Smile” em versão salsa. Los Pleneros de la Cresta tocaram ao vivo, metais explodindo, ritmo caribenho dominando. Era Gaga que estava no show de Bad Bunny, não o contrário.

A segunda surpresa veio com Ricky Martin cantando “Lo Que Pasó en Hawaii” no cenário da capa do disco e passando o bastão geracional. Daquele que abriu portas pro pop latino nos anos 1990, para o que está exportando o gênero para o mundo.

No terço final, “El Apagón” serviu como crítica aos apagões constantes que Porto Rico sofre desde o Furacão Maria, em 2017. A música fala sobre negligência, deslocamento, a ilha tratada como colônia descartável, e Bad Bunny não parou para explicar nada disso. Não pausou para contextualizar. Não inseriu explicação em inglês. Quem sabe, sabe. E mesmo quem não soubesse — ou fingia não saber — foi forçado a acompanhar.

No meio disso tudo, tivemos um casamento real, com festa e tudo, “NuevaYol”, “BAILE INoLVIDABLE”. Criança dormindo em cadeira, bares porto-riquenhos e o momento mais especial: Bad Bunny entregando o troféu do Grammy para uma criança que o acompanhava na TV. Cada detalhe incrível fortaleceu essa narrativa. Nada era por acaso.

Mas além de posicionamento político, teve amor. Teve inspiração. No meio do show, Bad Bunny parou e disse: “Se eu tô aqui no Super Bowl agora, é porque nunca parei de acreditar em mim. Você também nunca pare de acreditar em você”.

Benito hoje representa possibilidade. Representa que dá para chegar onde quiser sem mudar quem você é. Para Porto Rico, especialmente, ele é prova viva de que a ilha não precisa pedir desculpas por existir. E pra América Latina inteira, ele é confirmação de que o continente está cada vez mais no centro dos holofotes.

Por fim, veio a bola com a frase “Juntos somos América” estampada e logo depois, Bad Bunny gritou “Deus Abençoe América!”, que engloba de Chile, Argentina e Brasil à Venezuela, Cuba e Estados Unidos, todos citados pelo cantor. E depois de cravar a “The Duke” no chão, veio o refrão mais aguardado da faixa-título, junto da mensagem no telão que resumiram esse show: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.

Então a reflexão: devia ele gritar “F*ck ICE”? Não! Tudo que envolveu esse projeto já deixou a posição mais que clara. Do discurso no Grammy uma semana antes à lista de países. A mensagem já tava gritando sozinha. Se ele tivesse xingado, teria contradito o que acredita, o que estava no telão. Ele escolheu o caminho mais difícil, mas o mais corajoso.

Bad Bunny fez história no Super Bowl LX. Não só por ser o primeiro latino a performar majoritariamente em espanhol no intervalo. Mas por recusar concessão. Por manter símbolos claros. Por governar a narrativa sem ceder controle. Por transformar o palco mais assistido do mundo em manifesto sobre identidade não-negociável. Fez isso com sorriso no rosto. Com festa. Com “Benito Bowl” estampado em 100 milhões de corações. Tudo isso para mostrar para quem ama que eles não estão sozinhos. Que a cultura deles merece estar ali. Que não precisa pedir desculpas por existir. E que quando você sobe no palco mais importante da televisão americana e recusa dobrar, você não tá só fazendo show. Tá fazendo história. Bad Bunny fez as duas coisas. E não faltou nada.

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Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
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