Jonny Greenwood, do Radiohead, defende que música deve existir ‘acima de preocupações políticas’ em meio a polêmicas
Guitarrista do Radiohead responde a chamados de boicote relacionados a Israel e explica colaborações com músicos de diferentes nacionalidades
Kadu Soares (@soareskaa)
Poucas bandas navegam território político tão delicado quanto o Radiohead nos últimos anos. A turnê de retorno do grupo em 2025, primeira em sete anos, foi acompanhada por protestos organizados e pedidos de boicote. A razão? O show que a banda realizou em Tel Aviv, Israel, em 2017 voltou a ser centro de debate. Ativistas pró-Palestina argumentaram que o “silêncio cúmplice” do Radiohead durante o que uma investigação independente das Nações Unidas classificou como genocídio em Gaza deveria levar fãs a rejeitarem a banda. Jonny Greenwood, guitarrista e membro fundador, finalmente abordou a controvérsia em entrevista ao The Times publicada nesta quarta, 19, defendendo que música e arte devem existir “acima e além de preocupações políticas”.
Greenwood descreveu a situação como “muito difícil de falar”, mas não fugiu de articular sua visão pessoal sobre o papel de artistas em conflitos geopolíticos. “Acho que música e arte devem estar acima e além de preocupações políticas. Sabe, fiz um álbum envolvendo músicos israelenses, iraquianos, egípcios e sírios. Se eu devesse parar de trabalhar com músicos porque não gosto de seus governos, então não trabalharia com nenhum deles. O fato é que o que nos define como músicos não são nossas nacionalidades. Mas esse ponto não parece passar”, explicou o guitarrista.
A posição é profundamente pessoal para Greenwood. Ele é casado com Sharona Katan, artista visual israelense cujo sobrinho serviu nas Forças de Defesa de Israel (IDF) e foi morto em combate há dois anos. Greenwood também se apresenta frequentemente com o cantor israelense Dudu Tassa, e a dupla estava programada para tocar no Reino Unido em 2025 até que os shows foram cancelados devido ao que descreveram como “evidentemente um método de censura”. Durante uma apresentação com Tassa em Israel em 2024 — um dia após Greenwood supostamente ter participado de protestos pedindo a libertação de reféns mantidos em Gaza e a convocação de novas eleições — a dupla repetidamente pediu paz. Tassa declarou do palco: “Há músicos aqui, não políticos. A música sempre fez maravilhas, que possamos conhecer dias melhores e que todos retornem em segurança”.
Thom Yorke, vocalista e figura mais pública do Radiohead, também enfrentou manifestantes diretamente durante uma turnê solo em Melbourne em 2024. Durante a apresentação de “Karma Police”, um membro da plateia interrompeu o show com gritos pró-Palestina. Yorke pausou o show e confrontou a pessoa: “Suba aqui e diga isso. Aqui mesmo. Suba no maldito palco e diga o que quer dizer. Mas não fique aí como covarde, venha aqui e diga. Vamos”. O momento viralizou e dividiu opiniões: alguns aplaudiram Yorke por não tolerar a interrupção do show, outros criticaram a reação como desproporcional e demonstração de privilégio de um artista branco britânico que pode ignorar o sofrimento palestino. Em maio de 2025, Yorke falou publicamente sobre o que chamou de “caças às bruxas em redes sociais”, dizendo que “ficou em choque que meu suposto silêncio estava de alguma forma sendo interpretado como cumplicidade”. Em outubro, esclareceu sua posição: o Radiohead “absolutamente não” retornará a Israel e ele “não gostaria de estar a oito mil quilômetros perto do regime [do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu]”, e que a “caça às bruxas” sobre a postura do Radiohead “me acorda à noite”. Greenwood adicionou uma perspectiva mais ampla: “A esquerda procura traidores, a direita procura convertidos, e é deprimente que sejamos o mais próximo que conseguem”.
A controvérsia não impediu que a turnê de 2025 fosse um sucesso comercial e crítico massivo. A primeira série de shows do Radiohead em sete anos incluiu 20 concertos distribuídos por Madrid, Bolonha, Londres, Berlim e Copenhague, com cada cidade recebendo quatro apresentações. Os shows esgotaram rapidamente apesar — ou talvez por causa — dos protestos.
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