CRÍTICA

‘Pânico 7’ se escora em nostalgia para disfarçar roteiro digno de ChatGPT

Após enfrentar turbulências em sua produção, filme aposta no retorno de personagens-legado, incluindo Sidney Prescott, mas falha com história fraca e sem sentido

Henrique Nascimento (@hc_nascimento)

Pânico 7 se escora em nostalgia para disfarçar roteiro digno de ChatGPT; leia a crítica (Divulgação/Paramount Pictures)

Estava tudo certo para Pânico 7 acontecer. Após o sucesso de Pânico 5 (2022) e Pânico 6 (2023), que reviveram a franquia criada por Wes Craven (1939-2015) e Kevin Williamson (The Vampire Diaries), a produção havia encontrado um caminho com uma nova final girl, Sam Carpenter, vivida por Melissa Barrera (Em um Bairro de Nova York), a filha perdida de Billy Loomis (Skeet Ulrich), um dos primeiros a vestir a emblemática máscara do Ghostface, que vivia em uma linha tênue entre ser uma boa pessoa e abraçar a sua herança sombria.

Além de Melissa Barrera, a queridinha Jenna Ortega (Wandinha), que também estrelava a nova fase da franquia, estava marcada para retornar para o novo filme, que seria comandado por Christopher Landon, de A Morte te Dá Parabéns (2017) e Freaky: No Corpo de um Assassino (2020), assumindo o posto deixado por Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, responsáveis pelos dois filmes anteriores.

Estrela de Pânico 5 (2022) e Pânico 6 (2023), Melissa Barrera foi demitida da franquia após defender a Palestina (Divulgação/Paramount Pictures)

No entanto, tudo foi por água abaixo quando Melissa foi demitida, em novembro de 2023, após se posicionar a favor da Palestina no conflito contra Israel. Apenas dias depois, Jenna Ortega abandonou o projeto, alegando conflitos de agenda — desculpa que, eventualmente, foi desmentida pela própria atriz:

“A situação com Melissa estava acontecendo, e tudo estava meio que desmoronando. Se Pânico 7 não fosse com aquela equipe de diretores e aquelas pessoas por quem me apaixonei, então não parecia a escolha certa para minha carreira naquele momento”, esclareceu Ortega.

Por fim, Christopher Landon também deixou o projeto, em dezembro de 2023, e deu a entender que a decisão também tinha a ver com a demissão de Melissa Barrera: “Não havia mais filme. O roteiro inteiro era sobre ela”, esclareceu o cineasta no livro Your Favorite Scary Movie: How the Scream Films Rewrote the Rules of Horror, de Ashley Cullins. “Eu não assinei contrato para fazer um filme de Pânico. Eu assinei para fazer aquele filme. Quando esse filme não existia mais, eu segui em frente”.

Para superar o desfalque, a Paramount Pictures precisou pegar em armas pesadas: atendeu às exigências de Neve Campbell, que havia se ausentado do sexto filme após receber uma péssima oferta para retornar, e trouxe a protagonista original de volta. De quebra, ainda colocou Kevin Williamson para assumir o roteiro novamente, algo que não fazia desde o quarto filme, lançado em 2011, e a direção do longa, levantando as expectativas dos fãs. Mas valeu a pena todas as mudanças e o investimento na nostalgia? Infelizmente, não: Pânico 7 é, de longe, o pior filme da franquia.

Pânico 7 se escora em nostalgia para disfarçar roteiro digno de ChatGPT; leia a crítica (Divulgação/Paramount Pictures)
Pânico 7 se escora em nostalgia para disfarçar roteiro digno de ChatGPT; leia a crítica (Divulgação/Paramount Pictures)

Qual é a história de Pânico 7?

Após se ausentar de Pânico 6, Sidney Prescott está de volta. Rebatizada de Sidney Evans, devido ao seu casamento com o delegado Mark Evans (Joel McHaleCommunity), a eterna sobrevivente do Massacre de Woodsboro se reconstruiu — mais uma vez — e deixou o passado no passado, levando uma vida tranquila na pacata cidade de Pine Grove com o marido e as três filhas.

Após viver anos sob a ponta da faca do assassino Ghostface, Sidney agora enfrenta apenas problemas de contabilidade e fornecimento em sua cafeteria e, em casa, tenta lidar com a relação conflituosa com a sua filha mais velha, Tatum Evans (Isabel May1883), que se sente negligenciada pela mãe, já que ela se recusa a deixá-la conhecer o seu passado sombrio.

No entanto, quando o Ghostface ressurge mais uma vez, agora usando de inteligência artificial para ressuscitar fantasmas do passado de Sidney, a filha de Maureen Prescott (Lynn McRee) precisa resolver os seus problemas com Tatum e proteger a jovem dos assassinos antes que seja tarde demais.

Pânico 7 se escora em nostalgia para disfarçar roteiro digno de ChatGPT; leia a crítica (Divulgação/Paramount Pictures)

Pânico 7 parece improvisar enquanto se apoia na nostalgia

É curioso que Pânico 7 aborde o uso da inteligência artificial em sua trama, porque o próprio longa parece ter sido produzido em uma dessas ferramentas. A novidade abandona o conceito de metalinguagem e aposta na autorreferência, apoiando-se no retorno de Sidney Prescott e nas participações especiais de outros personagens-legado para criar um clima nostálgico e empolgar os fãs de longa data, mas que só esconde uma história fraca, que traz a ameaça mais sem pé nem cabeça de toda a franquia, resultando em um péssimo e absurdamente frustrante terceiro ato.

Com exceção de Sidney e Tatum, todos os personagens são subutilizados — e isso inclui os veteranos. Sim, mesmo Gale Weathers (Courteney CoxFriends) e os gêmeos Mindy (Jasmin Savoy Brown, The Leftovers) e Chad Meeks-Martin (Mason Gooding, A Queda), que estiveram nos dois últimos filmes da franquia, parecem jogados na história apenas para somar à sempre crescente pilha de corpos dilacerados pelo Ghostface.

O foco fica todo na relação entre Sidney e a sua filha — e não há problema algum em Pânico 7 ir por esse caminho. É um bom fio condutor, apesar de afetar diretamente o desenvolvimento dos demais personagens que, em certo momento, são tirados de cena em um rompante, antes mesmo que o espectador possa decorar o nome de um deles.

No entanto, se a ideia era transformar Tatum em uma nova final girl da franquia, Kevin Williamson — responsável pelo roteiro, junto com Guy Busick (Casamento Sangrento), e a direção da novidade — desperdiçou duas horas e, principalmente, milhões de dólares em investimento.

Depois da própria Sidney e, principalmente, Sam Carpenter, a “final-girl-a-um-passo-de-se-tornar-uma-Ghostface, a personagem de Isabel May é sem graça e age como uma adolescente mimada, com uma curiosidade mórbida pelo passado da mãe que, quando começa a respirar pertinho do seu pescoço, transforma a garota em um cachorrinho assustado. Se considerarmos que a talentosa Mckenna Grace (Eu, Tonya) estava logo ali, à disposição, e foi desperdiçada em um papel secundário, a escolha por May parece ainda pior. Ao menos, Grace poderia acrescentar um carisma necessário à garota.

Apesar de todos os problemas, Pânico 7 não falha em sua principal qualidade: é um slasher que entretém. O suspense continua lá e as mortes ainda são satisfatórias, alimentando os fãs que se deliciam com a fúria implacável do Ghostface, mesmo torcendo para que o vilão se dê mal no final do filme.

Porém, para o legado da franquia, a novidade é um golpe doloroso. Ainda que dividam opiniões, Pânico 5 e, principalmente, Pânico 6 conseguiram desenhar novos e interessantes caminhos para Pânico e o futuro era promissor, sem a necessidade de continuar se apoiando em personagens-legado para contar novas histórias.

Pânico 7, por sua vez, apresenta um retrocesso à franquia. Se a ideia era faturar com o hype conquistado com os dois filmes anteriores, após uma década longe das telonas, a chance de sucesso do longa é altíssima. Mas até quando dá para mexer em uma história sem que ela perca a essência do que a tornou um sucesso em primeiro lugar?

LEIA TAMBÉM: Melissa Barrera seria o assassino Ghostface em Pânico 7, revela ator

Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, em São Paulo, Henrique Nascimento começou como estagiário na Veja São Paulo e passou por veículos como SBT, Exitoína, Yahoo! Brasil e UOL antes de se tornar coordenador do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
TAGS: Isabel May, Joel McHale, mckenna grace, neve campbell, Pânico, Pânico 7, Wes Craven