‘A Miss’ expõe os segredos e a frustrações de uma família que nunca mais será a mesma
Filme de Daniel Porto chega aos cinemas acompanhando a história de uma família atravessada por desejos conflitantes e transformações inevitáveis
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Desde que perdemos Paulo Gustavo, o cinema brasileiro parece ter perdido um tipo muito específico de figura popular: aquele personagem explosivo, histriônico, dono de uma verve capaz de transformar conflitos domésticos em espetáculo catártico. Ao assistir a A Miss, de Daniel Porto (Chemsex), foi inevitável lembrar — guardadas as devidas proporções — da Dona Hermínia de Minha Mãe é uma Peça. Não pelo tom, mas pela força de uma mãe que ocupa todos os espaços e organiza o mundo ao seu redor a partir de suas próprias frustrações.
Há algo na Iêda de Helga Nemeczyk (Modo Avião) que ecoa essa tradição: uma mulher dominadora, exagerada, aparentemente intransigente, mas atravessada por fragilidades que emergem aos poucos. A diferença crucial está no tom. Se o fenômeno estrelado por Paulo Gustavo era essencialmente uma comédia com pitadas de drama, A Miss inverte a lógica e se assume como um drama com respiros cômicos, onde o riso funciona mais como válvula de escape.
Daniel Porto constrói uma dramédia de cores vibrantes, com personagens que parecem viver permanentemente à beira do palco. Martha (Maitê Padilha, Gaby Estrella) é a jovem que não quer ser miss, apesar do sonho obsessivo da mãe. Quando ela descobre que o irmão Alan (Pedro David) se veste de mulher, tudo muda para aquela família. Ao redor deles gravita Atena (Alexandre Lino, O Porteiro), funcionário do salão de Iêda que também performa uma identidade possivelmente construída para sobreviver. É um filme sobre aparências e armários — simbólicos e literais — e sobre os papéis que cada um sustenta para não confrontar seus próprios desejos.
O maior trunfo do longa é Helga Nemeczyk. Sua Iêda começa despertando rejeição, mas aos poucos revela vulnerabilidades que impedem que a personagem se torne um arquétipo simplório de mãe tóxica. Ao explorar traumas e frustrações do passado, o roteiro humaniza essa figura autoritária e sugere que sua rigidez nasce também do medo e da perda. Nem tudo, porém, encontra o mesmo aprofundamento: faltam camadas e outros dilemas que ampliem a sensação de mundo. Os conflitos mais duros — especialmente entre mãe e filhos — se resolvem rápido demais, quase da noite para o dia, comprometendo a verossimilhança. Em formato de série, talvez funcionasse com mais potência; como longa, pede maior densidade emocional.
Ainda assim, A Miss cumpre seu papel como drama de apelo popular disposto a dialogar com questões de gênero, sexualidade e pertencimento. Pode não acertar em cheio — sobretudo pela falta de aprofundamento no arco de Alan, cujas motivações permanecem nebulosas —, mas há potência nesse núcleo familiar que merecia mais tempo fora da obsessão pelo concurso de miss. O que se inicia aqui é um retrato imperfeito, porém instigante, de uma família que aprende, aos tropeços, a sair do armário em que ela mesma se colocou.
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