Som e Fúria

Como a trilha sonora se tornou o coração de ‘Industry’

O supervisor musical Ollie White e o compositor Nathan Micay falam sobre as canções que impulsionaram a narrativa da 4ª temporada — incluindo o explosivo episódio final

Cheyenne Roundtree / Rolling Stone EUA

Como a música se tornou o coração de ‘Industry’
Como a música se tornou o coração de ‘Industry’ - Crédito: Reprodução

Uma trilha sonora digna de salvar no Spotify, needle drops épicos e uma trilha incidental (score) eufórica e cintilante colocam Industry em um patamar à parte quando o assunto é música na televisão.

Este texto contém spoilers do final da quarta temporada de Industry.

O som da série mais badalada da HBO — que foi recentemente renovada para uma quinta e última temporada — é tão vibrante quanto a própria série, e a quarta temporada, que se encerrou esta noite, trouxe uma mistura mais eclética do que nunca.

Seus oito episódios apresentaram hinos dos anos oitenta como “Forever Young” do Alphaville, “True Faith” e “Fine Time” do New Order, e um remix em estilo italo disco de “Heroes” de David Bowie; clássicos das pistas de dança como “Veridis Quo” do Daft Punk e “All On You (Perfume)” do Paris Angels; além de faixas mais atuais da banda Turnstile.

Os ex-operadores do mercado financeiro que se tornaram criadores da série, Mickey Down e Konrad Kay, mergulham na loucura de sua “novela” ambientada no mundo bancário internacional através das escolhas musicais, mesmo que algumas de suas ideias mais provocativas não cheguem à versão final.

Enquanto o veterano operador Eric Tao (Ken Leung) abandona as finanças e caminha em direção ao subúrbio arborizado ao som da versão de Judy Collins para “Both Sides Now” (de Joni Mitchell) no Episódio Seis, os detentores dos direitos negaram o pedido para usar a mesma música em uma cena de glory-hole anteriormente no mesmo episódio.

Ao contrário de programas semelhantes que abordam mundos de dinheiro e poder, como Billions e Succession, Industry fez da música seu inesperado coração pulsante, usando referências culturais para enfatizar temas centrais de ganância, corrupção e ambição implacável.

O aristocrata Henry Muck (Kit Harington) cantando “He Is an Englishman” (da ópera H.M.S. Pinafore, de Gilbert e Sullivan) para si mesmo no chuveiro — e a música retornando mais tarde para embalar as cenas finais de Henry desfrutando de uma sentença de prisão confortável na propriedade de sua família — é uma crítica direta ao sistema de classes quase impenetrável do país. O CEO da Tender, Whitney Halberstram (Max Minghella), sussurrando-cantando de forma assustadora “I Wanna Dance with Somebody (Who Loves Me)” de Whitney Houston em uma ligação sinistra, porém íntima, com Harper sugere que o fraudador pode ter tirado seu nome falso de um catálogo de karaokê.

Nas primeiras temporadas, a equipe criativa queria “fazer o pregão soar como uma pista de dança”, capturando a essência do otimismo juvenil e o brilho das oportunidades, conta o supervisor musical Ollie White à Rolling Stone.

Mas conforme Eric, Harper Stern (Myha’la), Yasmin Kara-Hanani (Marisa Abela) e Rishi Ramdani (Sagar Radia) trocaram as baias corporativas estéreis por escritórios chiques, suítes de hotéis cinco estrelas, propriedades rurais e até celas de prisão, os sons de seus mundos tornaram-se mais pesados e sombrios.

A Rolling Stone conversou com White e com o compositor Nathan Micay para discutir por que referências a Mad Men e A Grande Aposta surgiram nesta temporada, como eles preveram a queda de Yasmin na corrupção moral e para onde a série pode estar indo a seguir.

Qual foi sua introdução à série? Como você passou a trabalhar com seus criadores?
White: Fui apresentado a Mickey e Konrad por meio de um amigo em comum. Eu estava discotecando muito na época e conheci Mickey primeiro em uma afterparty onde eu era o DJ. Criamos um vínculo por meio da música. Ele me contou que estava trabalhando em um programa de TV. Eu estava fazendo supervisão musical para trailers, anúncios e alguns filmes independentes. Começamos a montar playlists a partir daí.

[Down e Kay] sempre pensam na música. Eles escrevem muita música no roteiro, o que é ótimo. Ajuda todos a saberem qual é o tom e o humor, e os diretores podem filmar com aquela música em mente. Quando chegamos na edição, nós testamos. Nem sempre funciona, obviamente. Mas, muitas vezes, funciona e realmente eleva o nível, porque significa que tudo foi construído com a música em mente.

É fascinante ouvir que, enquanto escrevem o roteiro, eles já falam sobre escolhas musicais. Houve cenas específicas construídas em torno de uma música?
White: No Episódio Cinco [da 4ª Temporada], usamos “Eyes Without a Face”, de Billy Idol. Aquele episódio inteiro foi construído em torno dessa música. Basicamente, a canção é a pista para tudo: que a Tender é falsa. Não há nada lá. É uma fachada. Essa era uma das músicas que tínhamos provavelmente na playlist da 1ª Temporada: o tom, o humor, as vibrações. Sabíamos que nunca poderíamos pagar por ela naquela fase, então nem pensamos nisso, mas estava definitivamente em nossas playlists. Então eles escreveram aquele episódio, e [a música] estava tão enraizada que era essencial conseguirmos os direitos. Ela era tudo. Eles até deram o título do episódio por causa dela.

Muitas músicas apresentadas em Mad Men também aparecem em Industry nesta temporada, como “Is That All There Is?” de Peggy Lee e “Sukiyaki” de Kyu Sakamoto. Além disso, temos a ex-atriz de Mad Men, Kiernan Shipka, entrando no elenco [como a acompanhante que se torna funcionária da Tender, Hayley Clay]. Essas referências foram intencionais?
White: Tudo é intencional. Mickey e Konrad pintam com um pincel muito maximalista. Eles gostam de suas referências e amam suas inspirações. No Episódio Dois, Stanley Kubrick e Barry Lyndon foram influências massivas para eles. Laranja Mecânica foi uma influência enorme, particularmente para o personagem de Whitney. Psicopata Americano também. Utilizamos tudo isso. Queremos ativamente que o público perceba essas referências e pense em como se sentiu quando assistiu a esses filmes ou programas de TV. Queremos invocar o fato de que estamos referenciando a cultura, e uma ótima maneira de fazer isso é através da música. Mickey fez isso de forma muito inteligente, e há uma faixa usada em A Grande Aposta que usamos no Episódio Oito. [“Tú Y Tu Mirar… Yo Y Mi Canción”, de Los Angeles Negros, toca após Harper “shortar” (apostar contra) a Tender com sucesso e sua ligação para Eric cair na caixa postal]. Foi sugestão dele usar a música. Eu perguntei: “Por que você está colocando isso aí? Não entendo”. Ele não me disse. Então, quando pesquisei a música, percebi: “Ah, é usada em A Grande Aposta”. Foi tudo de propósito. Queríamos referenciar aquele momento.

Nathan, o que você e os showrunners queriam capturar através da trilha incidental na 4ª Temporada, onde os cenários originais da Pierpoint & Co., o banco onde esses jogadores surgiram, estão em grande parte fora de cena e esses personagens existem em escritórios de startups, hotéis de luxo e propriedades rurais?
Micay: [Queríamos capturar] a mudança na escala. Os cenários principais das duas primeiras temporadas são, agora, mais ou menos secundários. Os riscos parecem tão altos em um nível individual, de personagem para personagem, mas agora carregam o potencial de consequências sociais. Uma coisa é para a Harper não relatar uma perda em uma operação na Pierpoint; outra coisa inteiramente diferente é ela ter seu nome envolvido em uma aposta de £500 milhões. Sem mencionar Whitney misturando o que ele sabe ser uma empresa fraudulenta com o governo do Reino Unido.

Queríamos que a trilha parecesse mais sinistra, menos íntima e um pouco de “outro mundo”. Esses personagens agora vivem frequentemente em um mundo que a maioria das pessoas só poderia imaginar, e às vezes é literalmente uma fachada para aplacar a imaginação das pessoas.

Você compôs temas específicos para os personagens. Para Harper, Yasmin e Eric, como você descreveria os elementos originais desses sons e como isso evoluiu ao longo de quatro temporadas?
Micay: Na 1ª Temporada, Harper e Yasmin eram graduadas empolgadas em o que parecia ser um lugar empolgante. A música era cinética, e tentei fazer cada momento delas parecer elétrico e em movimento. O som original do Eric era puramente um sub-grave estrondoso. Eu queria que ele parecesse maior que a vida. Quando ele fala, a terra treme. Eles o temem. Isso continuou nas duas temporadas seguintes, mas essa escala de medo e respeito começou a se equalizar, pelo menos entre Harper e Eric.

Os temas da Harper tornaram-se mais pesados, menos melódicos e carregam mais peso. Os da Yasmin tornaram-se mais sombrios e, de certa forma, mais tristes. As cenas dela nesta temporada envolveram principalmente um piano muito desafinado e fora de centro. A vida dela nunca parece estar no nível certo, nunca. Então tentei capturar isso com esses grandes ataques de piano desafinado. Perto do final da temporada, conforme o grande plano da Harper finalmente dá certo, consegui finalmente retornar àqueles sentimentos de alegria das primeiras temporadas com sintetizadores. A trilha desta série sempre volta para o sintetizador.

Yasmin foi revelada no final como uma mistura de Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein, com traços de seu pai — a causa de uma nova ruptura entre ela e Harper. Você usou “Mon Dieu”, de Édith Piaf, em grandes partes do episódio final. Por que escolher algo romântico para um momento que é tão horrível em sua essência?
White: Decidimos que o que esse momento precisava ser, musicalmente, era a representação dessas duas personagens. Obviamente, elas estão falando de um conteúdo horrível, mas queríamos ignorar isso por um momento e apenas pensar no que a música pode fazer. Essas duas personagens que são amigas, que estão se separando. Esta é a gota d’água. Yasmin virou-se para Harper e é de partir o coração [ela] dizendo: “Isto é a única coisa que me faz sentir poderosa, onde eu pertenço”.

Queríamos uma música que pudesse capturar o desgosto emocional dessas duas personagens e pelo que elas passaram. A trilha que estávamos testando [originalmente] era totalmente diferente; retratava a Yasmin como uma vilã, basicamente. Mas acabamos seguindo um caminho diferente.

Houve algum destaque pessoal nesta temporada no que diz respeito à composição de sequências específicas?
Micay: A trilha durante a grande ligação telefônica entre Harper e Whitney — onde ele canta Whitney Houston, depois lê sua carta para Henry e mais tarde recebe a grande revelação de Ferdinand — acho que é o melhor momento musical da temporada. Foi um empreendimento enorme com tantos tons e momentos importantes acontecendo um após o outro.

Além disso, a música de Henry invadindo seu jantar sob o efeito de ácido no Episódio Dois foi super divertida de fazer. Eu queria fazer algo com grandes tambores ao estilo Ghost in the Shell [do filme cyberpunk japonês] desde a 1ª Temporada e eles finalmente me deixaram fazer.

Industry tem alguns needle drops enormes. Meu favorito foi o mashup dos Pet Shop Boys de “Where the Streets Have No Name” e “Can’t Take My Eyes Off You” no Episódio Dois. Vocês têm um needle drop favorito desta temporada?
White: Esse [dos Pet Shop Boys] está lá no topo. Se você não tivesse dito que é o seu favorito, eu teria dito que é o meu. Então, tenho que escolher outra coisa: eu diria “Magic Man” do Turnstile, que usamos quando Henry é preso. Eu amei. Eu simplesmente amo essa banda. É meu álbum favorito do ano passado. Eles ficaram realmente empolgados em serem usados na série. A música funciona brilhantemente para o Henry naquele momento.

No final, ouvimos a música-tema “Blue Spring” novamente, que você mencionou que encapsula a sensação de novos começos e possibilidades. Há algo que possa compartilhar sobre a escolha criativa de terminar com essa nota? Isso sinaliza um futuro feliz para a Harper?
Micay: Eu acho que sim! Mas conhecendo a Harper, ela encontrará um jeito de garantir que esse futuro feliz seja “curto” (short), sem trocadilhos.

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