LANÇAMENTO

Lucas Santtana lança ‘Brasiliano’ com faixas em 8 idiomas diferentes: ‘Longa viagem’

Santtana celebra 25 anos de carreira e homenageia a identidade linguística nacional ao lado de Gilberto Gil, Os Paralamas do Sucesso, Rachel Reis e mais

Gabriela Nangino (@gabinangino)

Lucas Santtana e capa do álbum 'Brasiliano'
Lucas Santtana (Foto: Divulgação/José de Holanda) e capa do álbum 'Brasiliano' (Imagem: Jêrome Witz)

Nesta sexta, 6, o cantor e compositor baiano Lucas Santtana retorna às plataformas digitais com seu décimo álbum de estúdio, Brasiliano. Em celebração aos seus 25 anos de carreira, o projeto inovador reúne faixas colaborativas em oito idiomas diferentes: brasiliano (português do Brasil), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e crioulo da Guiné-Bissau (kriol).

O objetivo de Santanna foi investigar a história da identidade da língua falada no Brasil, refletindo sobre a relação entre língua, poder político, apagamento cultural e pertencimento desde a influência do latim vulgar, na Itália, até o tupi-guarani e as línguas africanas.

Faixa-a-faixa

A primeira faixa do álbum é “A História da Nossa Língua”, single lançado em outubro de 2025 com Gilberto Gil. Segundo Santanna, ele se inspirou no livro Latim em pó (2022), de Caetano Galindo. “É como se a nossa língua fosse um ser feminino que nasce na região de Lazio-Itália e depois faz uma longa viagem até encontrar o Tupi-Guarani, com a chegada das caravelas portuguesas no Brasil”, explica o cantor.

O italiano é a língua românica mais próxima do latim vulgar, já que foi de uma região da Itália, a Toscana, que essa língua partiu em viagem pelo mundo, por meio da expansão do império Romano. A língua italiana e a língua brasileira têm muitas palavras em comum. Algumas com o mesmo sentido e outras que se escrevem igual, mas que têm significados diferentes. Contudo as vogais abertas trazem uma musicalidade parecida entre ambas.

Ao longo do disco, diversas canções trazem simbolismos e referências históricas. Um exemplo é “Cuando mi lengua“, que traz a poeta galega Maria Lado para recitar o poema Paxaros e maceiras. “Apesar de ter sido proibida pela Igreja por quatro séculos, a língua galega resistiu e se tornou matriz do português, influenciando profundamente a cultura do Nordeste brasileiro”, afirma Santtana.

Ver Meu Povo se Abraçar“, parceria com Chico César, homenageia as festas de São João interrompidas pela pandemia e evoca a origem da data, que nasceu na região francesa de Occitânia como uma celebração do solstício de verão e da colheita. “Reprimida inicialmente pela Igreja, [a festa] acabou sendo incorporada ao calendário cristão. Tanto lá quanto no Brasil, permanecem os mesmos símbolos: fogueiras, adornos, sanfona e dança”, relata.

Brasiliano ainda inclui parcerias com Rachel Reis (“Eu Ainda Te Amo“) — segundo Santtana, “uma das vozes mais singulares da nova música brasileira” —, o italiano Dimartino (“Strati di Tempo”), o duo feminino de música occitana Cocanha (“Liga”), a indígena Tainara Takua e o rapper francês Oxmo Puccino (que se unem em “Línguas Gerais“).

“[Línguas Gerais] critica a confusão racista e xenófoba promovida pelo [escritor] Éric Zemmour ao estigmatizar a fala de filhos de imigrantes das ex-colônias francesas”, ressalta o cantor.

Uma parceria especial

Mas uma parceria tem um espaço especial no coração de Santanna: “Que Seja um Reggae”, com Os Paralamas do Sucesso. Sua história com Os Paralamas começou na gravação do seu primeiro álbum, Eletro Ben Dodô (2000), que incluiu um cover da música “Mensagem de Amor”, de Herbert Vianna. “É a minha gravação mais escutada nas plataformas digitais de música. Muita gente pensa até hoje que a música é minha”, conta.

Em O Deus que Devasta também Cura (2012), Santanna também gravou uma versão da faixa “Músico”, parceria dos Paralamas com Tom Zé. “Finalmente, 25 anos depois de ‘Mensagem de Amor’, tenho a honra de tê-los cantando e tocando comigo a minha música ‘Que Seja um Reggae’. Um ciclo que se completa, mas espero que não termine, pois quero sempre estar perto dos meus heróis de adolescência”, comemora.

O álbum se encerra com “Independência”, que enfatiza a necessidade do Brasil reconhecer sua independência linguística denominando a língua nacional de Brasiliano, e não de “português do Brasil”.

“Muitos linguistas já reconhecem que se trata de outra língua, com estrutura, ritmo e identidade próprios”, afirma Santanna. A faixa é um feat. com a cantora da Guiné-Bissau Karyna Gomes, que também defende a autonomia linguística em seu país. “Ela canta em crioulo, ampliando o diálogo entre línguas que nasceram da resistência”. Escute Brasiliano a seguir:

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Jornalista em formação pela Universidade de São Paulo, Gabriela é mineira e apaixonada por arte e cultura. Ela também já foi dançarina e seu principal hobbie é conhecer todos os cinemas de rua de SP. Foi estagiária no Jornal da USP e, na Rolling Stone Brasil, fala sobre música, filmes e séries.
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