Ty Dolla $ign volta às raízes do R&B em ‘girl music vol. 1’ e entrega um trabalho honesto
Em seis faixas e 17 minutos, cantor abandona a mega-produção cheia de features e se reconecta com o próprio R&B — com resultados bem melhores do que no último álbum
Kadu Soares (@soareskaa)
Cinco meses depois de TYCOON (2025) — aquele disco indeciso de 15 faixas, recheado de participações que iam de Travis Scott a Lil Wayne, mas não chegavam a lugar nenhum — Ty Dolla $ign fez o movimento mais inteligente da fase recente: diminuiu a escala. O EP girl music vol. 1 chega como antítese direta do projeto anterior.
Sem tentar virar um grande evento, sem promessas infladas, sem uma lista interminável de convidados e sem a necessidade de provar que conhece todo mundo na indústria. São só seis faixas, 17 minutos e participações escolhidas a dedo. E, surpreendentemente ou não, funciona melhor do que o trabalho anterior. Ty enfim lembra que, antes de virar o artista que aparece na música de todo mundo, era — e ainda é — um cantor de R&B com talento de sobra para segurar um projeto sozinho.
O conceito é simples: fazer “música pra garotas”. Nada de trap agressivo ou hits aleatórios pensados exclusivamente no TikTok. Aqui, ele se reencontra com o R&B para agradar qualquer um, independente de gênero. O resultado é um projeto coeso e focado, que sabe exatamente o que quer ser.
Musicalmente, girl music vol. 1 brilha justamente onde TYCOON tropeçou: na simplicidade. A produção é elegante e polida, sem soar excessiva, e deixa espaço para a voz de Ty respirar. Não há necessidade de empilhar camada sobre camada, nem de colocar um produtor famoso atrás do outro. É um R&B direto e honesto, que confia na melodia e na performance vocal para sustentar as músicas.
“3 Billion” pega emprestado da cartilha do Timbaland nos anos 90 e mistura isso com o som polido do começo dos 2000, criando uma faixa que funciona tanto para a pista quanto para a playlist de madrugada. “Bad Bitch Alert” é o momento mais solto do EP, onde Ty, em terceira pessoa, descreve uma mulher de batom Chanel e unhas francesas que não atende ligações de quem está duro. Não precisa ser levado a sério, e nem tenta.
Mas é “miss u 2” que rouba a cena. A parceria com Leon Thomas — que Ty assinou para o próprio selo EZMNY — entrega exatamente o que a estranha “MIXED EMOTIONS”, do último álbum, não conseguiu: química real, vozes que se complementam e uma produção que sabe abrir espaço para os dois brilharem. A faixa sampleia “I Miss You”, de Aaron Hall, e o resultado é uma síntese perfeita entre nostalgia e o futuro do R&B.
Além de Thomas, as colaborações funcionam porque foram escolhidas com propósito. Ronald Isley, aos 84 anos, abre o EP em “nobody has to know”, interpolando “Down Low (Nobody Has to Know)”, de 1995. Isley não tenta acompanhar a energia de ninguém: apenas entrega o que sabe fazer — presença, legado e uma voz que carrega décadas de história do R&B. Brandy aparece em “Intention”, balada de piano em que ela e Ty trocam versos sobre sentimentos mútuos e harmonizam no refrão. E Camper fica mais na produção da quarta faixa, que vale a menção.
A EP girl music vol. 1 não é uma obra-prima revolucionária. Mas, para o tamanho do projeto e para o hype que vinha em cima, cumpre as expectativas com sobra. Ty Dolla $ign prova que continua sendo um cantor de R&B legítimo quando para de tentar ser tudo para todo mundo e foca no que faz melhor. São 17 minutos que valem mais do que as quase 50 faixas que lançou nos últimos dois anos. E a promessa de que “esse é só o volume um” deixa a esperança de que, desta vez, ele entendeu o caminho. Menos pode ser muito mais — principalmente quando esse “menos” tem Leon Thomas, Brandy, Ronald Isley e Ty finalmente confortável no próprio som de novo.
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