A triste história de Lorenz Hart, interpretado por Ethan Hawke em ‘Blue Moon’
Letrista da Broadway teve uma vida marcada por alcoolismo, inseguranças e um fim precoce
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Blue Moon, novo filme de Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude), resgata a trajetória de um dos nomes mais importantes — e trágicos — da história do teatro musical americano: Lorenz Hart. No longa, Ethan Hawke (Antes do Amanhecer) interpreta o letrista autor de algumas das canções mais famosas da Broadway, como a que dá título ao filme.
Embora hoje seu nome não seja tão lembrado pelo grande público, Hart deixou um legado musical, que atravessa gerações. Ao mesmo tempo, sua vida pessoal foi marcada por inseguranças, solidão e um alcoolismo que abreviou a sua carreira. Blue Moon mergulha justamente nesse momento final: uma noite simbólica que revela o brilho e a dor de um artista que percebe estar ficando para trás. Conheça a história a seguir:
Qual é a história de Blue Moon?
Blue Moon se passa em março de 1943, durante a estreia de Oklahoma!, um espetáculo que mudaria para sempre a história da Broadway. Hart passa a noite no lendário restaurante teatral Sardi’s, em Nova York. Ali, entre copos de bebida e conversas amargas, ele observa de longe o sucesso do antigo parceiro Richard Rodgers (Andrew Scott, Todos Nós Desconhecidos).
Um gênio em declínio
Hart e Rodgers formaram uma das duplas criativas mais importantes do teatro musical americano. Durante mais de duas décadas, escreveram sucessos que se tornaram clássicos — entre eles My Funny Valentine, The Lady Is a Tramp, Bewitched e Blue Moon. Hart era conhecido por letras sofisticadas, espirituosas e profundamente melancólicas. Muitos de seus versos exploravam rejeição amorosa, solidão e fragilidade emocional — temas que refletiam sua própria vida.
Baixo — tinha cerca de 1,52 metro — e extremamente inseguro com a própria aparência, o letrista também enfrentava problemas graves com o álcool. Com o tempo, seu comportamento imprevisível e a dificuldade em cumprir prazos começaram a comprometer o trabalho com Rodgers. Foi nesse contexto que o compositor decidiu seguir em frente com Oscar Hammerstein, iniciando uma parceria que revolucionaria o gênero musical na Broadway.
A ruptura que mudou a Broadway
A separação definitiva aconteceu quando Rodgers recebeu a proposta de compor Oklahoma!. Ele teria pedido a Hart que abandonasse a bebida para continuar na parceria. O letrista recusou — e acabou se afastando do projeto.
A partir daí, Rodgers e Hammerstein formariam uma das duplas mais influentes do teatro musical do século XX, responsáveis por clássicos como The Sound of Music, South Pacific, The King and I e Carousel. Em Blue Moon, esse momento histórico é visto do ponto de vista de Hart: um artista brilhante que observa o nascimento de uma nova era sem saber exatamente qual será o seu lugar nela.
Uma noite imaginada
O filme não pretende ser um relato histórico literal do que aconteceu com Hart. O roteiro de Robert Kaplow imagina como poderia ter sido aquela noite para Hart, criando encontros e diálogos que revelam o estado emocional do personagem. Entre as figuras que cruzam seu caminho estão o escritor E. B. White e um jovem Stephen Sondheim, então protegido de Hammerstein.
Também aparece Elizabeth, interpretada por Margaret Qualley (A Substância). A personagem é inspirada em uma estudante que trocou cartas com Hart na vida real e por quem ele teria desenvolvido um amor impossível. Segundo Linklater, o filme funciona como “um pequeno grito de desespero de um artista que ficou para trás”.
Além de Blue Moon, Lorenz Hart tem outro filme biográfico intitulado Words and Music, lançado em 1948 pela MGM.
Morte
Após mais uma crise de alcoolismo, Hart foi encontrado embriagado na rua durante o inverno de novembro de 1943 e levado ao hospital. A pneumonia que se seguiu acabou tirando sua vida no dia 22 daquele mês.
LEIA TAMBÉM: ‘Blue Moon’ transforma triste despedida em retrato íntimo e melancólico de um artista em ruína