RESENHA

Ajuliacosta domina show no Cine Joia sem mirabolâncias e com muita lírica

Com ingressos esgotados na casa de shows em São Paulo, a rapper transformou o palco em um espaço de celebração feminina e denúncia contra a violência de gênero

Giulia Cardoso (@agiuliacardoso)

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Ajuliacosta domina show no Cine Joia sem mirabolâncias e com muita lírica - Crédito: pollo.

O que importou durante o show de Ajuliacosta neste último final de semana, dias 7 e 8 de março, foi a entrega absoluta de uma artista que domina o rap. Com um público majoritariamente feminino, era possível notar a presença vibrante de casais afrocentrados e homens na plateia. Nos looks, a estética estava dividida: metade vestia AjcShop e a outra exibia produções bem trabalhadas que valorizavam as curvas negras.

O repertório da noite foi estruturado em cima do álbum Novo Testamento, que serviu como fio condutor para a narrativa da apresentação. Logo de cara, “Quero Saber” ditou o tom da noite e, com “Toc toc Toc” e “O que a Julia vai ser?”, a artista não só iniciou o show, mas alimentou as expectativas do público. A sequência de faixas mostrou a maturidade do disco, trabalho de outras mulheres da cena e culminou no hino “Liberdade”, que encerrou a apresentação com alta energia..

AJC entrou no palco exatamente como diz em sua música “Toc Toc Toc”: “É só uma DJ, balé e MC. Quando ela solta a base, eu boto fogo aqui”. Sem grandes mirabolâncias técnicas, o que preencheu o espaço foi a presença de palco magnética da artista e de suas bailarinas. O público, em resposta, fez a casa tremer. Cada música era seguida por pausas para aplausos e gritos, provando uma sinergia orgânica e poderosa entre palco e plateia.

Além do trabalho solo, a apresentação abriu espaço para o impacto das colaborações que colocaram a artista no topo das paradas recentemente. Ajuliacosta cantou a sua parte do “THE BOX MEDLEY 12” e as músicas “Set Ajc 2” (dela e das outras meninas), como “Eles Me Odeiam” e “Você Parece Com Vergonha”. Ficou claro como essas músicas, embora parcerias, já foram completamente abraçadas pelos fãs como parte essencial da identidade da rapper.

Durante a faixa “3M”, Ajuliacosta entregou mais que voz e coreografia. Na colaboração com Sotam, em que simulam uma discussão de casal por telefone, o público recebeu um momento “Escola Wolf Maya” de atuação da artista, que ainda finalizou o número com improvisos e piadinhas diferentes em cada dia.

O segundo dia da dobradinha aconteceu no Dia Internacional da Mulher. A data não passou em branco, servindo como celebração e  resistência. Tanto as convidadas especiais quanto sua família (mãe e avó) prestaram homenagens emocionantes no palco.

Sobre a resistência: curiosamente, no primeiro dia, a artista não fez discursos diretos, mas deixou que o ambiente falasse por si. “Fiquei pensando muito sobre o que eu poderia falar sobre isso, mas eu percebi que já faço esse trabalho, eu já falo sobre”, disse a rapper em entrevista para a Rolling Stone Brasil. Antes do show começar, sua equipe colou cartazes pela casa que denunciavam dados de violência contra a mulher e feminicídio. Já no segundo dia, a fala veio após a homenagem surpresa de sua família.

“Acho que todas essas notícias têm me atravessado muito e eu acho que qualquer mulher se sente impactada com tudo isso que está acontecendo. E aí eu pedi para a gente trazer esses posteres, porque, por mais que a gente tivesse celebrando a vida nesse momento, é importante lembrar que somos alvo”, completou.

Ajuliacosta também relembrou o papel dos homens na luta contra o feminicídio: “Acho muito importante que homens estejam com a gente nessa luta também e que falem para o público deles, porque é esse público que, geralmente, são os abusadores. Então a gente está aqui falando ‘se proteja’, ‘não aceite menos do que você merece’, etc., para vir um homem tirar tudo isso da gente. Eu não acho justo e cada vez mais quero lutar para com que não tenham piedade com abusador e eu espero realmente que esses homens tenham a humanidade de se impor e falar: ‘Gente, está errado’”.

As convidadas de ambos os dias entregaram performances distintas e complementares. NandaTsunami hipnotizou o público com “Oi Linda” e P.I.T.T.Y. (Parecendo Uma Cafetina)”; Ciça trouxe as rimas de “Entre vielas e avenidas”  e “Tranquila & Calma”, desestabilizando a casa; Slipmami trouxe o peso do rap mais explícito com “Oompa Loompa” e Cae cantou sua próxima música “Groupie (homem é sobremesa)” que chega em 13/03. Todas elas, incluindo, claro, Ajuliacosta, representam a pluralidade do que é ser mulher. Não é fácil fazer um público ferver sem o uso de autotune, tecnologias complexas ou trocas constantes de cenário.

Foram ótimas noites para o rap atual.

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Jornalista em formação pela Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, Giulia Cardoso começou em 2020 como voluntária em portais de cinema. Já foi estagiária na Perifacon e agora trabalha no núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
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