Lola Young está sentada em frente a um piano de cauda na Arena Crypto.com em Los Angeles, com as mãos pairando sobre as teclas. Faz cinco meses desde sua última apresentação, e todos na sala estão com os olhos fixos nela. Ela espera um segundo e então começa, a melodia pungente de uma versão crua e despojada de seu megahit, “Messy“, preenchendo a arena. A música cresce lentamente, preparando o terreno para o poder desarmante de sua voz. Alguém sussurra “Uau” enquanto ela inicia o primeiro verso, seu timbre rouco, dolorido e frágil. Então, ela se lança em um refrão arrebatador, e o som é profundo, comovente e—
“Meu equipamento está fazendo barulho, desculpa, gente!” Young grita, interrompendo sua própria música com seu sotaque carregado do sul de Londres e ajustando o microfone na cintura. “Ele tá, tipo, fazendo barulho sem parar.”
Chegam os reforços. Dois técnicos entram no palco para ajudá-la, afinal, este é o momento de acertar todos os detalhes. É o ensaio de Young, poucos dias antes de sua apresentação no Grammy, como parte de um medley com todos os indicados a Artista Revelação. Young é uma das concorrentes deste ano e está revisando cada detalhe de sua performance. O palco está montado exatamente como será na cerimônia de premiação e, abaixo, mesas estão dispostas com recortes de Lady Gaga, Chappell Roan e Bad Bunny, representando as estrelas que lotarão o local no domingo.
Qualquer artista indicado pela primeira vez ficaria nervoso, mas este momento representa algo maior para Young. A cantora de 25 anos é uma compositora franca e dolorosamente honesta que não se esquiva de suas lutas ou inseguranças em sua música, então o que ela passou recentemente não é segredo. Os detalhes mais crus estão ali, entre letras sobre sexo, desilusões amorosas e romance: “I’m a dumb little addict so I’ve been tryna quit the snowflake,” (“Sou uma viciadinha boba, então tenho tentado parar de ser mimada”), ela canta no pop rock animado de “Not Like That Anymore“. “I spent all day tryna be sober,” (“Passei o dia todo tentando ficar sóbria”), ela canta na abertura de “Dealer“, uma melodia ensolarada que mascara reflexões sobre comportamento autodestrutivo. “’Cause it’s been days, but I’ve been busy getting high/And my doctor said, ‘You’ll get sick again, you can’t mix these meds with white lines,’” (“Porque já faz dias, mas eu tenho estado ocupada me drogando/E meu médico disse: ‘Você vai ficar doente de novo, não pode misturar esses remédios com cocaína”), ela confessa na comovente “Who F**king Cares?“. Se a música te der a sensação de estar ouvindo os pensamentos mais íntimos de alguém, é porque você está mesmo — é uma gravação de primeira tomada que Young fez com seu iPhone.
Embora Young tenha sido aberta sobre tudo isso — os altos e baixos da sobriedade, a autoimagem, o isolamento e as complexidades do transtorno esquizoafetivo que ela tem desde a adolescência, além de um diagnóstico mais recente de TDAH — a realidade de sua vida tomou um rumo brutalmente público no ano passado. Por um lado, era aquela virada mágica que todo artista parece buscar: sua carreira estava decolando, impulsionada a alturas extraordinárias por causa do sucesso de “Messy”, uma ode dilacerante, mas com a qual muitos se identificam, sobre se sentir demais e de menos ao mesmo tempo, que encontrou um público viral no TikTok antes de alcançar o estrelato. No início de 2025, “Messy” chegou ao 14º lugar na Billboard Hot 100 e, eventualmente, ultrapassou 1 bilhão de streams. Para Young, que vinha se preparando para esse tipo de momento desde que era uma precoce artista de rua de 14 anos nas ruas de Londres, era quase inacreditável: “É algo com que eu meio que sonhava e você nunca pensa que vai realmente acontecer.” O mundo estava finalmente entendendo quem ela é, descobrindo o que tantos de seus fãs de longa data sempre viram: uma artista incrivelmente sincera e excepcionalmente talentosa que usa sua voz notável para transmitir sentimentos profundamente íntimos que muitas pessoas têm medo até mesmo de expressar em voz alta.
Elton John, que se tornou um grande fã, resumiu a situação de forma sucinta: “Há uma honestidade rara na voz dela que simplesmente te paralisa — é crua, comovente e completamente autêntica”, escreveu ele em um e-mail para a Rolling Stone. “Músicos como Lola não aparecem com frequência, ela é incrivelmente especial.”
“Foi um ano turbulento”, diz Young sobre seu 2025. “Foi uma loucura, lindo e emocionante, mas também, às vezes, muito triste.” No entanto, a indústria da música pode se mover em um ritmo implacável, principalmente quando artistas estão ascendendo rapidamente ao estrelato, como foi o caso de Young.
Young estava em demanda, viajando de um canto a outro do mundo, com apresentações grandiosas, incluindo
Glastonbury e
Lollapalooza Paris, preenchendo sua agenda lotada. Seus dias começaram a passar em ritmo alucinante, as horas agitadas, intermináveis e exaustivas. Nesse meio tempo, ela buscou ajuda para seu vício em cocaína e trabalhou com um terapeuta de sobriedade que viajou com ela durante boa parte de 2025. Mas, conforme o ano avançava, as coisas ficaram mais pesadas e difíceis.
“Foi um ano turbulento”, diz Young sobre seu 2025. “Foi uma loucura, lindo e emocionante, mas também, às vezes, muito triste.”
“Para ser sincera, o prazer estava diminuindo”, diz ela. “Coisas pequenas que eu tinha que fazer: uma entrevista, uma matéria promocional. Eu simplesmente não sabia de tudo o que isso envolvia. Mas eu não estava bem, e há dois lados da moeda…”, ela divaga. “Você quer dizer sim para tudo porque tudo está em aberto, mas também precisa equilibrar isso com a sua saúde mental, e eu tenho sido muito aberta sobre o meu problema de saúde mental e também sobre todas as outras coisas que estão acontecendo comigo.”
Naquele verão, o empresário de
Young,
Nick Shymansky, disse ao
The New York Times que ela havia tido uma recaída e voltado para o tratamento. Ela retornou à vida pública alguns meses depois, lançando seu terceiro álbum,
I’m Only F**king Myself, em 19 de setembro. O LP, afiado, caótico e mais ousado que seus lançamentos anteriores, narrava suas experiências com amor, isolamento e recuperação, com uma trilha sonora animada. Assim que o disco foi lançado, ela voltou à promoção; participou do programa do
Jimmy Fallon, deu uma entrevista para o
YouTube e fez uma apresentação para o
Museu da Fundação Grammy. Por fora, parecia que ela estava bem, mas nos bastidores, ela estava caminhando a passos largos para uma crise.
As pessoas testemunharam o momento de ruptura em tempo real, sem piedade. Em 27 de setembro,
Young estava no palco em Nova York, no festival
All Things Go.
Young prefere não falar sobre os detalhes daquele dia, mas vídeos da plateia mostraram o que aconteceu: ela estava cantando sua música “
Conceited” quando se virou para o lado, como se quisesse dizer algo para alguém que estava ali. Ela tropeçou brevemente e, segundos depois, seus olhos se fecharam e ela ficou completamente rígida, caindo para trás. Quase imediatamente, os hábitos mais perniciosos da era digital tomaram conta: o vídeo se espalhou pela internet, sendo reproduzido repetidamente em todas as plataformas de mídia social, o pior momento de uma pessoa em constante repetição. Centenas de vídeos surgiram, com fãs preocupados com a saúde de
Young, especulando sobre a pressão que ela estava sofrendo. Os mais cruéis a acusaram de fingir tudo e de ter armado o incidente para chamar a atenção.
Nos meses que se seguiram, houve muito barulho, preocupação e alvoroço, mas nada disso chegou a Young. Uma semana após desmaiar, ela publicou uma mensagem no Instagram: “Vou ficar longe por um tempo. Me dói dizer que vou ter que cancelar tudo por tempo indeterminado. Obrigada por todo o amor e apoio. Sinto muito por decepcionar a todos que compraram ingressos para me ver, isso dói mais em mim do que vocês imaginam. Obrigada por todo o amor e apoio.” Ela se internou em uma clínica e ficou em isolamento por dois meses. Não tinha telefone nem contato com o mundo exterior. Estava lá enquanto as pessoas especulavam incessantemente sobre ela. Foi lá que chegaram as notícias de suas duas indicações ao Grammy: Artista Revelação e Melhor Performance Solo de Pop por “Messy”.
Uma infinidade de artistas a apoiou:
Katy Perry enviou uma mensagem;
Charli XCX escreveu um e-mail.
Kesha e
Elton John entraram em contato.
Lady Gaga mandou uma mensagem de texto. “Foi incrível”, diz
Young. “E isso me fez sentir mais segura.” Ela agradece aos seus fãs e ao apoio incrível que ofereceram ao longo dos últimos meses.
Ainda assim, a recuperação tem sido um processo cuidadoso, com a saúde dela como prioridade. Young afirma que, ao contrário de tentativas anteriores de recuperação, a abordagem desta vez é diferente: a clínica que ela visitou é holística, focando em terapia e psicologia em vez de tratar apenas o vício. Desde que saiu, ela tem frequentado reuniões dos Alcoólicos Anônimos e tem uma madrinha.
Young diz que sua relação com o trabalho também mudou. “Uma coisa que realmente me ajudou foi desacelerar mentalmente, ter tempo para processar as coisas”, diz ela. “Dias de folga são muito importantes. Curtir tempo com amigos, pessoas que te amam.” Mas ela teve que lidar com momentos difíceis e críticas, especialmente depois de cancelar shows e participações. “Havia muito ódio, mas sabe de uma coisa? Que se dane”, diz ela. “Quando você está fazendo algo, sempre vai ter um ou dois filhos da p**a falando m***a. Mas, ao mesmo tempo, foi uma decisão, como eu disse, que eu tive que tomar, e foi triste ter que fazer isso. O que mais eu ia fazer, morrer? Essa era a realidade de para onde meu vício estava me levando.”
Aquele vídeo viral também a alcançou. “Eu assisti, sim”, diz ela estoicamente. “Vi uma ou duas vezes e não voltei a assistir desde então. Obviamente, não vou procurá-lo.” Ela solta uma risada seca e dolorida. “Não é algo que eu gostaria de procurar.” Sua voz fica um pouco mais baixa. “Mas sou muito grata por ter acontecido, porque foi… como se diz? Tipo, um ponto de virada que me permitiu estar aqui hoje, me permitiu ser melhor para os meus fãs, melhor para o futuro e melhor para mim mesma.”
“[Me afastar] foi uma decisão que eu tive que tomar. O que eu ia fazer, morrer?”
Tudo isso nos leva de volta ao Grammy, aos ensaios e ao caminho de recuperação e cura que ela vem trilhando. Ela parece em paz; serena e segura de si enquanto caminha do palco até os monitores. Inclina a cabeça para o lado, observando sua apresentação atentamente. Perto dali, sua equipe assiste, e quando o ensaio termina, a sensação é de pura empolgação. “Estive afastada, tirei um tempo para mim, e este é um lindo retorno”, Young havia me dito antes. “Parece um momento que vou lembrar, e talvez outras pessoas também se lembrem, espero. Parece a coisa certa a se fazer.”
Alguns dias depois, Young volta ao palco do Grammy. Ela toca a introdução de “Messy” no piano e, desta vez, continua e acerta todas as notas. A palteia aplaude de pé. Várias pessoas que assistiam em casa me disseram que a apresentação as levou às lágrimas.
Mas o momento mais memorável acontece mais tarde no show, quando
Charli XCX apresenta o prêmio de
Melhor Performance Solo de Pop, uma categoria repleta de estrelas como
Justin Bieber e
Lady Gaga. “Eu me identifico muito com essa música”, diz
Charli, anunciando
Young como a vencedora por “
Messy“.
Young fica boquiaberta; ela salta da cadeira e corre para o palco. “Eu não sei o que vou dizer porque não preparei nenhum discurso!”, grita ela no microfone. “Obviamente que não; é uma bagunça!” Ela agradece à sua equipe e à sua família; um palavrão acidental torna tudo ainda mais cativante. Então ela sai do palco, radiante de alegria e mais leve do que nunca.
Young é o tipo de artista por quem você torce. Ela é uma musicista para músicos, que toca vários instrumentos e transita sem esforço de uma balada poderosa para uma faixa trap (ela já fez rap no passado, e
Tyler, the Creator a convidou recentemente para uma colaboração). “Não acho que você simplesmente nasce com uma voz e depois a aprimora. Acho que a voz é esculpida com o tempo, porque é uma questão física”, diz o cantor e produtor
James Blake, que tem trabalhado com
Young recentemente. “Sempre que ouço a voz dela, penso: ‘Isso é mais do que a soma das partes.'”
Seus gostos são variados: em um momento, quando nos encontramos pela primeira vez no ensolarado terraço do Chateau Marmont, ela me conta sobre seu histórico recente de músicas ouvidas no
Spotify:
Doechii,
Victoria Monét,
Death Cab for Cutie,
Minnie Riperton, a trilha sonora de
Shrek 2. O estilo e a personalidade de
Young são igualmente ecléticos e complexos. Seus olhos são de um verde penetrante, emoldurados por cílios de boneca, e agora seu cabelo está tingido de preto — um visual novo em comparação com as longas extensões castanhas e loiras que usava no ano passado. Pessoalmente, ela é engraçada, direta e espirituosa, frequentemente soltando uma risada deliciosamente contagiante. Mas ela também é contemplativa e autoconsciente, e há um certo cansaço do mundo e uma sabedoria que a dominam quando ela fala sobre coisas como as pressões da indústria e o estado atual do mundo.
As pessoas frequentemente mencionam o quão multifacetada é Young. Seria uma coisa se ela fosse apenas uma cantora poderosa com uma extensão vocal impressionante, ou apenas uma letrista espirituosa que consegue misturar autodepreciação cômica com vulnerabilidades devastadoras. Mas parte do que faz Young se destacar é que ela faz tudo isso. A composição, em especial, parece inata; ela escreve desde criança em Beckenham, um subúrbio no sul de Londres. Young é a segunda mais velha de quatro irmãs; seu padrasto era baixista de estúdio e sua mãe, que trabalhava em uma organização sem fins lucrativos, tem uma voz linda. Quando criança, Young teve aulas de piano e aprendeu a tocar violão sozinha.
Ela descobriu algo profundo quando começou a compor músicas no ensino fundamental. “Se fosse dia de aula, eu chegava em casa e pensava: ‘Isso me inspirou muito’, ou ‘Aquilo me impactou bastante’, ou ‘Não gostei do que disseram’, e blá blá blá. Aí eu tentava criar alguma coisa. E sabe de uma coisa? Isso me deixava orgulhosa. Eu sentia que tinha conquistado algo”, diz ela.
Ao entrar no ensino médio,
Young fez um teste para a
BRIT School for Performing Arts and Technology em Croydon, não muito longe de seu bairro. (
Young já havia participado de alguns programas de TV e fez o teste enviando um vídeo dela cantando “
A Case of You“, de
Joni Mitchell.) A lista de ex-alunos notáveis da
BRIT é longa:
Amy Winehouse,
Adele,
FKA Twigs e
Olivia Dean, com quem
Young conviveu enquanto estudava lá (elas se conheciam, mas se aproximaram desde então). Mas muitos desses anos de formação foram passados batalhando na cena de microfone aberto de Londres e se apresentando nas ruas. “Lembro-me de quando ganhei, tipo, algumas centenas de libras”, ela recorda daquela época. “Eu pensei: ‘Caramba, não sou tão ruim assim. Consigo fazer isso, porque as pessoas estão dando notas de dez libras, e é como se dissessem: “Certo! Vocês têm dinheiro!”
Com o tempo, a força de suas apresentações ao vivo lhe rendeu oportunidades maiores. Quando Young tinha 16 anos, estava em um show quando foi abordada por Shymansky, o mesmo empresário que havia contratado Winehouse quando ela tinha 16 anos. (Winehouse escreveu a famosa música “Rehab” depois que Shymansky a incentivou a fazer tratamento.) Nessa época, Young já havia despertado o interesse de muitos empresários e gravadoras, e a princípio, ela estava insegura em relação a Shymansky: “Eu pensava: ‘Sim, sim.’ Aí ele disse: ‘Ah, eu empresariava a Amy’, e então eu comecei a prestar atenção.”
Mas, além do currículo, havia uma conexão profunda que fez Young sentir que ele era a pessoa certa. “Nos encontramos na estação Victoria, não sei quando foi, mas ele simplesmente ouviu. Ele simplesmente ouviu o que eu tinha a dizer”, lembra Young. “Nick tem muito interesse pelas outras pessoas, mas particularmente por mim, ele me entendeu, me compreendeu, e ainda estamos em sintonia.”
Shymansky esteve com
Young em todos os altos e baixos; ele era seu empresário quando ela foi diagnosticada com transtorno esquizoafetivo; ele esteve presente durante a cirurgia nas cordas vocais; ele estava lá quando ela assinou com a
Island Records em 2019. (
Young foi empresariada em conjunto com
Nick Huggett, que contratou
Adele, por um tempo antes de ele deixar a equipe.)
“Quero compor músicas que as pessoas se importem. Compor músicas que façam as pessoas chorar, rir, terminar relacionamentos, se apaixonar.”
Young está determinada a esclarecer as acusações de que sua equipe a administrou mal ou a sobrecarregou de trabalho. “Quando alguém está passando por um vício ou enfrentando dificuldades de qualquer tipo, é difícil saber o quanto uma pessoa consegue fazer… Era o meu trabalho, certo? Então eu queria fazê-lo. Se eu estivesse em casa, eu estaria em uma situação ruim.” Ela afirma que a reação negativa que Shymansky recebeu foi injusta. “Nick não tem culpa nenhuma. Ele é quem mais me apoia. Foi ele quem me disse para parar; ele sempre foi quem me disse para pegar mais leve”, diz ela. “Eu escolhi me machucar e me autossabotar, e também escolhi subir ao palco e me apresentar. Ele é um empresário incrível e, claro, você sabe, quando você está em uma indústria que está constantemente querendo que você diga sim, é difícil dizer não. Mas eu também fui a principal responsável por dizer sim.”
Não existe um manual para estrelas pop que lidam com o vício, mas Young e sua equipe descobriram que o que mais ajuda é ela se dar tempo e se ouvir. “Aprendemos que as coisas precisam desacelerar, e saber disso é muito saudável”, diz ela. “Mas não, não acho justo que as pessoas culpem alguém quando não conhecem a história completa.”
Ainda assim, ela dá um voto de confiança aos fãs que se preocupam com ela. “Eu também não culpo essas pessoas, sabe, porque elas estão me protegendo e se importam”, diz ela, acrescentando: “Acho fofo que as pessoas queiram, sabe… mas as pessoas na internet, honestamente, são insanas, algumas delas. Elas simplesmente inventam coisas do nada e as espalham a mil por hora.”
Focar no vício de Young parece redutivo, especialmente quando seu catálogo é repleto de humor, intelecto e talento. Ela se incomoda com a ideia de se tornar porta-voz da sobriedade quando sua própria jornada não foi fácil nem linear. E, no entanto, grande parte de sua força como artista reside em ser sincera sobre o que acontece dentro dela. “Eu simplesmente escrevo o que estou sentindo e, depois, percebo: ‘P**a m***a. Eu não deveria ter dito que sou uma viciada em drogas descontrolada.’ Aí penso: ‘Sabe de uma coisa? Eu sou. Que diabos estou tentando esconder?'”
É essa honestidade e vulnerabilidade inabaláveis que viajaram tão longe — pelo mundo todo, na verdade — alcançando as pessoas que mais precisam ouvir sua música. Ela conta que já ouviu relatos de como suas canções animaram pessoas, as ajudaram a superar términos de relacionamento e as lembraram de que elas são suficientes. Um fã escreveu recentemente que ficou tão profundamente tocado por sua música que aprendeu inglês sozinho para entendê-la melhor.
E há também aqueles que disseram a Young que sua música salvou suas vidas. “Quero ajudar de todas as maneiras que puder”, diz ela.
Duas semanas depois do Grammy, Young ainda está em Los Angeles, radiante com sua gloriosa vitória. Ela está no quarto do hotel, se maquiando no banheiro e conversando animadamente pelo Zoom enquanto relembra toda a noite. “Eu estava muito nervosa, né?” Nos dias que antecederam a apresentação, o nervosismo aumentou, principalmente porque ela soube que alguns de seus ídolos — incluindo Joni Mitchell — estariam na plateia.
A princípio, Young não achou que a apresentação tivesse sido tão boa quanto nos ensaios, mas a reação do público a fez mudar de ideia. “Agora, as pessoas adoram, e eu estou muito feliz com o resultado”, diz ela. O momento mais marcante, claro, foi quando ela finalmente ganhou um Grammy. Ela já tinha se conformado com a ideia de voltar para casa sem um troféu, principalmente porque o prêmio de Artista Revelação foi para Dean. “Eu pensei: ‘Me diverti muito, e estou feliz por estar aqui’. Então, quando anunciaram meu nome, eu simplesmente pulei.” Eu digo a ela que parecia que ela quase caiu da cadeira. “Eu voei pela sala”, diz ela, rindo. “Eu realmente voei pela sala.”
Ela ainda não recebeu seu gramofone dourado, mas brinca sobre onde pretende exibi-lo quando o receber. “Vai ficar no centro… talvez logo na entrada”, ela provoca. A emoção é palpável enquanto ela fala. “Eu ainda penso nisso e fico tipo, ‘É, um Grammy, ninguém pode mais falar comigo, nenhum daqueles invejosos importa!'”
A vitória chega em um momento particularmente promissor e produtivo.
Young tem ido ao estúdio todos os dias, trabalhando arduamente em novas músicas. Ainda não há um plano concreto, mas ela tem trabalhado com
Blake e
Mustard em Los Angeles. “Eu realmente não sei o que será ainda. Mas algumas coisas parecem minimalistas”, diz ela, citando influências como o falecido
Jeff Buckley. “Será algo mais positivo, mas também com… um toque de aconchego.”
Tem uma música já pronta, chamada “Room for Your Love”, que ela escreveu para as duas irmãs mais novas. É sobre amar e aceitar a si mesma, mas ela para enquanto tenta recitar a letra para mim. “Caramba!”, ela grita, rindo. “Será que eu escrevi essa música mesmo?” O refrão vem à mente depois de alguns segundos: “You don’t get to choose who you love, but you can choose who you let in. And you’ve got room, but save some for you” (“Você não escolhe quem ama, mas pode escolher quem deixa entrar. E você tem espaço, mas guarde um pouco para você”).
Essas são as mensagens que ela quer continuar deixando para os fãs. “Quero compor músicas que as pessoas se importem. Quero fazer músicas que façam as pessoas chorar, rir, terminar um relacionamento, se apaixonar”, diz ela. “Essa é a artista que eu quero ser.” Ela ainda tem muito a compor, muitas pessoas para inspirar, muito a conquistar. No momento, o mundo é dela.