ENTREVISTA RS

Após uma década em Hollywood, Wagner Moura chega ao Oscar falando português: ‘Alegria dobrada!’

Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, protagonista de O Agente Secreto celebrou o sucesso do longa, que concorre em quatro categorias na maior premiação do cinema

Henrique Nascimento (@hc_nascimento)

Após uma década em Hollywood, Wagner Moura chega ao Oscar falando português: 'Alegria dobrada!' (Matt Winkelmeyer/Getty Images)

A cena é familiar. Me sento de frente a Wagner Moura, ligo o gravador e peço para que me responda algumas questões. Não estamos em um anexo secreto do Cinema São Luiz, em Recife, mas em uma sala reservada de um luxuoso hotel em Copacabana, no Rio de Janeiro, no fim da tarde. Os lustrosos cabelos negros de outrora estão rajados de fios brancos e o bigode ganhou a companhia de uma barba, igualmente acinzentada, que dão ao ator uma aparência mais madura.

Minha conversa com Wagner acontece no dia 7 de outubro de 2025, cerca de uma hora antes da disputada estreia de O Agente Secreto no Festival do Rio. Depois de uma série de entrevistas, que começaram durante a tarde e se encerraram comigo, quando o sol já havia baixado, o ator ainda encararia mais repórteres, além de uma renca de fãs, que se acotovelariam em frente ao histórico Cine Odeon, no Centro do Rio de Janeiro, para chamar a atenção do baiano, que os brasileiros já viam como o patrono do segundo Oscar brasileiro, graças ao seu retorno triunfal ao cinema nacional, após mais de uma década em Hollywood.

Wagner parecia cansado, como se já sentisse o peso do trabalho árduo que teria nos meses seguintes, durante a temporada de premiações. Porém, quando o perguntei como via a possibilidade de ganhar a sua primeira estatueta de ouro por uma produção brasileira, depois de tantos anos caminhando por terras estrangeiras, a resposta veio com avidez:

“É muito maneiro, não é? Muito bom! Isso aí é uma alegria extra!”, celebra. “Fico bem feliz de ser considerado para um desses prêmios por qualquer filme que tenha feito. Mas por esse, por falar em português… É alegria dobrada!”

O baiano sempre foi do mundo

Há quem não saiba ou se lembre, mas a carreira de Wagner Moura no cinema começou internacionalmente. Em seu primeiro longa-metragem, Sabor da Paixão, protagonizado pela espanhola Penélope Cruz, o ator arriscava um inglês com sotaque baiano em uma participação especial ao lado de Lázaro Ramos e Murilo Benício.

Aos 24 anos em 2000, quando Sabor da Paixão foi exibido na mostra Un certain regard, Wagner chegou pela primeira vez ao Festival de Cannes de onde, 25 anos depois, sairia com estatueta de Melhor Ator por seu trabalho em O Agente Secreto. No meio do longo caminho, o baiano trabalhou com alguns dos maiores cineastas brasileiros, incluindo Walter Salles (em Abril Despedaçado), Cacá Diegues (em Deus é Brasileiro), Jorge Furtado (em Saneamento Básico, o Filme), Hector Babenco (em Carandiru) e José Padilha, responsável por seu primeiro grande sucesso como protagonista: Tropa de Elite, de 2007.

Entre 2013 e 2014, flertou com o cinema internacional em Elysium, co-estrelado por Matt Damon, Jodie Foster e a conterrânea Alice Braga; no britano-brasileiro Trash: A Esperança Vem do Lixo, ao lado de Rooney Mara, Martin Sheen e Selton Mello; e em Praia do Futuro, coprodução entre a Alemanha e o Brasil dirigida pelo cearense Karim Aïnouz.

Porém, foi em 2015 que Wagner realmente chamou a atenção dos gringos ao viver o narcotraficante Pablo Escobar na série Narcos, da Netflix, papel pelo qual recebeu a sua primeira indicação a Melhor Ator (em Série de Drama) no Globo de Ouro — a estatueta de atuação, no entanto, viria apenas uma década depois, como Melhor Ator em Filme de Drama por O Agente Secreto.

No radar dos estrangeiros, estrelou produções como Wasp Network: Rede de Espiões (2019), com Penélope Cruz e Ana de Armas; Sergio (2020), sobre o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello; Agente Oculto (2022), co-estrelado por Ryan Gosling e Chris Evans; e Guerra Civil, do indicado ao Oscar Alex Garland, antes de finalmente se voltar ao cinema brasileiro novamente.

Narcos
Wagner Moura como Pablo Escobar em Narcos, que rendeu a sua primeira indicação ao Globo de Ouro (Divulgação/Netflix)

“O filme é um encontro do que o diretor quis dizer com o público que o assiste”

Wagner conheceu Kleber Mendonça Filho há cerca de vinte anos, no Festival de Cannes, apesar de o cineasta alegar que o primeiro encontro ocorreu ainda antes, durante a estreia de Deus é Brasileiro, em 2003. “Gostei de Kleber de cara, quando o conheci em Cannes. Eu já gostava tanto dele que, para mim, a gente já tinha virado amigo. Falei: ‘Esse cara é foda!’”, relembra. “Ele é nordestino. A gente compactua com coisas da cultura nordestina. Apesar de ser pernambucano e eu ser baiano, tem muita coisa ali. Muita coisa pra gente dividir.”

Na época, apesar de já ter rodado alguns curtas, Mendonça Filho atuava, principalmente, como crítico de cinema e, até que a amizade realmente florescesse, ele viria a dirigir O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016) e Bacurau (2019), consagrando-se como um dos cineastas brasileiros mais relevantes da atualidade. Porém, não foi o cinema que os uniu: “No período entre 2018 e 2022, a gente se conectou muito. Porque ele sofreu coisas, eu também sofri, então a gente se colocou em contato com o outro. Mais por política do que pela ideia de fazer um filme, mas isso, inegavelmente, foi se amalgamando e virando um filme.”

Apesar de situado na década de 1970, O Agente Secreto nasceu a partir de um Brasil muito mais recente, marcado não apenas pelo conservadorismo, mas por um reacionarismo que transformaram os últimos anos “numa época em que tantos criminosos se orgulham de serem criminosos”, como descreve o próprio Kleber Mendonça Filho.

O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura, encerra filmagens
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura durante as gravações de O Agente Secreto (Divulgação)

Curiosamente, há quem diga que esse revisionismo histórico contou com a colaboração de Wagner Moura. Em 2007, quando Tropa de Elite explodiu nacional e internacionalmente — chegando a receber o Urso de Ouro, prêmio de maior prestígio do Festival de Cinema de Berlim —, o jornalista Arnaldo Bloch, então colunista do jornal O Globo, criticou o filme, questionando se ele seria fascista por trazer um protagonista, o capitão Nascimento, vivido por Wagner, que combatia o crime violando direitos humanos.

À época, o ator refutou a opinião do jornalista: “Não, Tropa de Elite não é fascista. (…) Mas também fico preocupado quando vejo o capitão Nascimento ser tratado como herói. Fico pensando como reagiria ao filme uma plateia sueca. Não creio que pensariam naqueles policiais torturadores como heróis, assim como muita gente que vê o filme aqui também não pensa”, escreveu.

E, como um prenúncio dos anos que viriam, completou: “Talvez, aí sim uma tragédia, fascistas estejamos nos tornando nós, brasileiros, cidadãos carentes de uma política de segurança pública qualquer, que vemos naqueles policiais honestos, bem treinados, mas desrespeitadores dos direitos humanos mais elementares, a solução para o caos em que estamos metidos.”

Quase vinte anos depois, Wagner mantém o seu posicionamento. “O filme é um encontro do que o diretor quis dizer com o público que o assiste. Você vê que muitos filmes, anos depois, são reavaliados, redescobertos, cancelados, e isso sempre achei interessante. Marighella [primeiro longa dirigido por Wagner, que conta a história do guerrilheiro Carlos Marighella] foi lançado no governo Bolsonaro. Se tivesse sido lançado pouco tempo antes, no governo Dilma, seria outra coisa”, exemplifica.

“Quando me manifestei a respeito do Tropa, eu quis falar de mim, das razões pelas quais eu fiz aquele filme, que era trabalhar com o cara que dirigiu [o documentário] Ônibus 174, um dos filmes mais humanistas que eu tinha visto nos últimos tempos, que queria dizer como a polícia operava no Rio de Janeiro, com violência, sobretudo com os pobres”, explica. “Agora, o filme que as pessoas viram é legítimo também. Não é que a pessoa viu o filme errado. Ela viu o filme que ela quis ver. Isso é que é bonito no cinema: ele é polissêmico.”

Wagner Moura como capitão Nascimento em Tropa de Elite, longa de 2007, que se tornou um dos maiores sucessos da carreira do ator (Divulgação)

O inimigo do povo e a busca pela memória

A narrativa de O Agente Secreto é impulsionada pela ditadura militar, que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985, apesar de o filme não focar no regime. Nunca se tornam explícitos os motivos para que Armando, personagem de Wagner, mude o seu nome e se refugie em Recife, antes de organizar a sua partida para fora do país, mas fica subentendido que, “em uma época cheia de pirraça”, o professor universitário é contra toda a baderna, o que o torna um inimigo da ditadura e, para os algozes em sua cola, um inimigo do povo.

“É um personagem que é punido não por seus defeitos, mas por suas qualidades. [Esse] é um tema que venho buscando também e tem tudo a ver com a peça que estou fazendo em Salvador”, explica Wagner, referindo-se a Um Julgamento: Depois do Inimigo do Povo, a sua reestreia nos palcos brasileiros, que também passou por Rio de Janeiro e São Paulo em 2025, com ingressos esgotados em poucos minutos.

Uma sequência de Um Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen, o espetáculo apresenta o julgamento do médico Thomas Stockmann, interpretado por Wagner, que denunciou e pediu a interdição de um balneário após descobrir que as suas águas estavam contaminadas, o que movimentou toda a comunidade. Para o ator, Armando e Thomas “são personagens que conversam muito”.

Wagner Moura como Thomas Stockmann na peça Um Julgamento: Depois do Inimigo do Povo (Divulgação)

Na dinâmica de Um Julgamento: Depois do Inimigo do Povo, um grupo de pessoas é escolhido, dentre os espectadores, para acompanhar o julgamento de Thomas e, ao final da peça, decidir se ele é ou não um inimigo do povo. Em O Agente Secreto, no entanto, não há a possibilidade de redenção para Armando: prestes a fugir do país com o filho, ele acaba morto a tiros em praça pública e, nos jornais, o ex-professor é acusado de corrupção, o que teria motivado o seu assassinato.

Pergunto a Wagner se, em algum momento, ele torceu para que o final trágico de Armando na história fosse diferente. Apesar de titubear, ele me responde que não: “A morte dele é como a morte de muitos outros, que são mortos duas vezes. Eles morrem e, depois, a memória é assassinada”, justifica. Marighella dialoga com isso. É muito triste e muito real. É mais do que a morte física. E isso reflete no menino [Fernando, filho de Armando], na memória que esse menino tem do pai”.

O ator se refere aos minutos finais de O Agente Secreto, em que descobrimos que o seu filho, também vivido por Wagner na fase adulta, acabou esquecendo Armando e nem mesmo o reconhece como pai, creditando ao avô a paternidade. “Esse filme é sobre memória. Memória individual, memória coletiva. Memória do Brasil, um país que teve a Lei de Anistia e que, agora, quer ter outra, [ambas] muito nocivas. É um entendimento que a gente tem que ter da nossa História”, afirma.

“Filmes que falam sobre isso são importantes. É lembrar o que foi, que isso aconteceu há pouquíssimo tempo, que ainda é uma ferida aberta”, complementa. “Tem jovem que não sabe que teve ditadura no Brasil. E esses filmes cumprem esse papel. Ainda Estou Aqui reconectou muito o brasileiro com o cinema brasileiro e com a história que ele foi contando.

“O filme reconectou [o público] com os artistas brasileiros. Para mim, a coisa mais bonita foi quando vi as pessoas torcendo pela Nanda [Fernanda Torres, indicada ao Oscar de Melhor Atriz], pelo Waltinho [o diretor Walter Salles], pelo filme [que venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional]. Depois de uma época de falácia, de mentira, de que o artista é inimigo do povo, que o artista é ladrão. Aquilo foi muito bonito, muito positivo”, finaliza Wagner.

E, agora, com O Agente Secreto indicado a quatro categorias no Oscar 2026, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura, essa beleza não deve se dissipar por um bom tempo.

Após uma década em Hollywood, Wagner Moura chega ao Oscar falando português: ‘Alegria dobrada!’ (Divulgação)

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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, em São Paulo, Henrique Nascimento começou como estagiário na Veja São Paulo e passou por veículos como SBT, Exitoína, Yahoo! Brasil e UOL antes de se tornar coordenador do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
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