O legado de Chico Science, artista que faria seu 60º aniversário
Lendário frontman da Nação Zumbi e fundador do movimento manguebeat faleceu em um acidente de carro a caminho de Olinda em 1997
Pedro Hollanda (@phollanda21)
Chico Science foi, ao mesmo tempo, uma série de coisas. Vocalista carismático da Nação Zumbi, pioneiro do manguebeat — um estilo musical que combinava rock, hip hop, eletrônica, percussão afro-brasileira e dub —, intelectual futurista cyberpunk. Entretanto, ao examinarmos sua vida nesta sexta-feira, 13, quando completaria 60 anos de idade, a percepção é: o músico era, acima de tudo, um exemplo de como a arte é libertadora.
Nascido em Olinda, Chico cresceu no conjunto habitacional de Rio Doce, quase à beira do mangue que viria a ser sua marca. Conheceu o guitarrista da Nação, Lúcio Maia, ainda na escola pública. Anos mais tarde, arrumou um emprego de almoxarifado para a companhia de informática da prefeitura de Recife, onde encontrou Gilmar “Bola Oito” Correia, integrante do grupo de percussão Lamento Negro.
Science parecia ser o elo entre diversas partes diferentes da cena jovem pernambucana. Ele tocava rock no Loutsal, banda que tinha com Maia e o baixista Alexandre Dengue, mas também fazia parte do Bom Tom Radio, com Jorge du Peixe e Mabuse, mais focado em eletrônico, hip hop e funk.
Visitas ao Daruê Malungo, um núcleo cultural de apoio à criança, fizeram Chico Science perceber as possibilidades de unir os três projetos em um só. Não que todo mundo estivesse dentro. Dengue não era muito fã da mistura de samba e reggae feita pelo Lamento Negro, conhecido por animar o Carnaval da região. O vocalista acalmou o baixista e fez uma promessa: o som do grupo seria algo diferente de tudo.
Antes mesmo da banda estrear, Science já tinha todo o conceito por trás do projeto mapeado. Isso porque ele e Fred 04, do Mundo Livre S.A., desenvolveram um manifesto cultural intitulado “Caranguejos com cérebro”, no qual mapearam a realidade local e sua visão para o futuro sob uma lente cyberpunk e afrofuturista.
Até então, a música pernambucana tinha como seus maiores expoentes figuras como Alceu Valença, famoso desde os anos 1970. A cena não havia evoluído além disso. A proposta de “Caranguejos com cérebro” era drástica: mostrava um caminho no qual a juventude fagocitava todas as tendências alternativas dos 25 anos anteriores para criar um novo ritmo que refletia o mundo à sua volta. Nascia o manguebeat.
Após a ideia, a banda
A Nação Zumbi começou a tomar forma com jams entre Loutsal e Lamento Negro, mas a primeira performance de fato aconteceu no Abril Pro Rock de 1993. Essa era a primeira edição do festival e Science conseguiu uma vaga para seu projeto tocar. Ele então pediu para Bola Oito recrutar meia dúzia de percussionistas para solidificar a formação. Nunca conseguiriam mudar o mundo se continuassem um coletivo solto.
A aparição no festival chamou a atenção da mídia nacional e isso levou a shows no Sudeste. Essas apresentações levaram a interesse de gravadoras. O primeiro álbum do grupo, Da Lama Ao Caos (1994), se tornou um marco na história da música brasileira.
Um dos grandes desafios de gravar Da Lama ao Caos foi justamente descobrir como fazer o casamento da percussão com o elemento rock no contexto do estúdio. O produtor Liminha teve muita dificuldade de capturar os tambores de maneira adequada, além de precisar chamar Chico Neves para operar a parte de sampling. Apesar de todas essas questões técnicas, o carisma de Chico Science amarrava tudo numa mensagem revolucionária.
Entretanto, o sucesso comercial ainda parecia eludir a Nação Zumbi. Singles não tocavam nas rádios rock porque eram vistos como regionais demais, enquanto as estações mais populares achavam tudo muito roqueiro.
O grupo começou a mudar essa sina ao fazer sucesso no exterior. O som, aliado ao conceito futurista do manguebeat, causou furor no Montreux Jazz Festival e a Nação Zumbi saiu no New York Times. Ao retornar pro Brasil, o álbum de estreia finalmente estourou. O sucessor, Afrociberdelia (1996), cimentou a fama da banda no país graças ao hit “Maracatu Atômico”, releitura de uma canção do compositor carioca Jorge Mautner.
Legado
Ainda maior que o sucesso foi a pegada cultural de Chico Science e a Nação Zumbi. O grupo foi responsável por expor uma geração de bandas pernambucanas ao resto do Brasil, sem falar na transformação de Recife como um pólo musical alternativo até hoje. Artistas como Otto, Mombojó, Cordel do Fogo Encantado surgiram em anos subsequentes a partir dessa exposição.
Um dos músicos brasileiros mais famosos dos anos 1990, Max Cavalera (ex-Sepultura), foi tão impactado pelo manguebeat a ponto de se apresentar em 1997 no Abril Pro Rock com o resto da Nação Zumbi. Entretanto, essa performance ocorreu em circunstâncias muito tristes.
Em 2 de fevereiro de 1997, Chico Science perdeu o controle do seu Fiat Uno após tomar uma fechada a caminho de Olinda. Ele bateu num poste e, apesar de ter sido socorrido com vida no local, sucumbiu aos seus ferimentos no hospital.
A banda continuou com Jorge Du Peixe nos vocais, mas a figura de Chico Science permaneceu viva. Seja na influência de sua música ou na confiança que deu a gerações de artistas fora do eixo, o cantor mostrou como o mundo presta a atenção quando se chama a atenção.
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