ENTREVISTA RS

De Bryson Tiller ao tempero baiano, Alee e Klisman falam sobre novo álbum ‘Para: Todas Que Fingi Amar’

Dupla baiana da NADAMAL conta à Rolling Stone Brasil sobre o projeto de 14 faixas inspirado em Bryson Tiller que foi a nona maior estreia da semana no Spotify Global

Kadu Soares (@soareskaa)

Alee e Klisman
Foto: @yago_davila

Eram 3h ou 4h da manhã: Alee na casa nº 415, Klisman no 414. Vizinhos de janela na Lapa, no Rio. Enquanto conversavam sobre música, relacionamentos e aquele som que Bryson Tiller fazia, uma ideia surgiu: fazer um álbum de trap soul, de melodia arrastada, groove lento, letras sobre um amor que não dá certo. “Bora fazer logo um álbum colaborativo?”, Klisman perguntou. Alee nem pensou duas vezes: “Vamos”. E, ali, naquela madrugada, Para: Todas Que Fingi Amar começou a existir.

Cinco anos depois, aquela conversa de madrugada virou a nona maior estreia do Spotify Global na semana. Ao lado de Bruno Mars, Gorillaz, Mitski. “Um monte de gringo e a gente no meio”, como conta a dupla em entrevista exclusiva nos estúdios da Rolling Stone Brasil.

 

View this post on Instagram

 

A post shared by Spotify (@spotify)

“A gente consumiu TRAPSOUL demais”

O ponto de partida sempre foi Bryson Tiller. Mais especificamente, TRAPSOUL (2015) — álbum que criou um subgênero inteiro ao fundir trap com R&B. Aquela melancolia arrastada, aquele groove que parece que vai desacelerar mas não desacelera, aquelas letras sobre relacionamentos complicados que não têm final feliz.

“É um álbum que meio que criou um subgênero, uma nova wave ali dentro do R&B, uma parada que a gente consumiu muito e que já conversa com a gente”, conta Klisman. “Quando a gente foi fazer esse álbum, foi meio que natural até a gente escolher transitar pelo trap soul”.

A dupla cresceu ouvindo isso. Alee havia sido contratado na antiga gravadora para fazer R&B. Klisman começou no violão, escrevendo música antes de rimar em beat.

Mas Bryson Tiller foi só o começo do caldeirão. Tinha Drake e PARTYNEXTDOOR, The Weeknd, Tory Lanez, Summer Walker, SZA e até Lucas Carlos — que levou Alee pro estúdio pela primeira vez e virou referência constante. A lista é longa e vai crescendo.

“A gente trouxe essa alma do trap soul pra realidade do Brasil e com o tempero baiano que eu e Alee temos”, resume KL. “É algo que nunca foi explorado na música nacional e que acreditamos que é um ritmo que a galera quer ouvir”.

Mas no fim, como eles mesmos admitem, consumiram tanta referência que nem sabem mais de onde vem cada coisa. “A gente já esqueceu toda a referência e fez só na nossa”, resume Klisman. “A gente consumiu tantas referências que nem lembra mais. A gente só faz”.

E fazer, para eles, é meio intuitivo, meio maluco. “Tem um sample no álbum que é o alarme do iPhone”. Alee tinha acabado de fazer “Luz, Cama e Ação” em casa, ouviu o barulho tocando, e pensou: “Pô, mano, isso daqui dá uma música”. Acordou o produtor e fez”.

Tem outra música — “Roberta” — cuja bateria foi feita batendo na mesa. “Literalmente!”, os caras do estúdio batendo na mesa, gravando, virando instrumento. É esse tipo de criatividade espontânea que define o processo. Quando estavam fazendo o álbum, produziam rápido. “A gente faz, sei lá, duas três músicas no dia. E a gente também ajuda muito um ao outro no estúdio”, conta Alee. Um tem uma ideia, o outro abraça, desenvolve, vice-versa. “Acho que a nossa conexão ajudou muito o álbum”.

Alee e Klisman se conheceram em 2018, por acaso, no primeiro show do Jovem Dex em Feira de Santana. Depois se encontraram de novo na antiga gravadora e gravaram uma faixa de R&B — que coincidência — que nunca saiu oficialmente mas marcou o começo de algo.

Então se distanciaram. Alee focou em outras coisas da vida, Klisman seguiu o caminho dele. Até que em 2021 se reencontraram e a amizade virou parceria de verdade, até se tornarem vizinhos.

“Todo mundo já teve uma Clara, uma Eduarda”

“Para: Todas Que Fingi Amar não é disco de love songs”, explica a dupla. Não tem promessa de amor eterno, não tem “vou mudar por você”, não tem final feliz. São 14 faixas sobre a versão que ninguém posta no Instagram: DRs, mensagens não respondidas, sexo sem sentimento, promessas quebradas, voltar pro mesmo erro sabendo que é erro.

“Normalmente quando é love song tem toda aquela romantização. Foi uma música sobre um término ou ‘ai tô apaixonado’. É sempre romantizando aquele bagulho. E a gente priorizou fazer uma parada mais real, mais crua”, explica Klisman.

Cada música tem nome de mulher: Clara, Diana, Dandara, Eduarda, Roberta. A ideia é universalidade: “A gente quis fazer uma parada que todo mundo já teve na vida. Uma Clara, uma Eduarda que não deram certo, você amou aquela pessoa e não foi pra frente”, explica Alee.

E aí mora o recado do álbum, que vai além das histórias de amor: amadurecimento. “Não entra num relacionamento antes de tá bem consigo mesmo. Pra você não afetar outras pessoas”. Pausa. “Cuide dos seus traumas antes. Acho que a gente traz esse trauma pro relacionamento e acaba ferindo outras pessoas por nada”.

E o público abraçou. Nos shows, já sabem todas as letras. “Eu tô vendo rapaziada cantando todas as faixas. Então pra mim é o que importa”, conta KL. O feedback, segundo os dois, tem sido sobre a musicalidade e os versos crus. “Foi maneiro nos shows. A rapaziada tá curtindo a questão da musicalidade, dos versos”.

O show no caso foi o encerramento da CAOS Tour na Audio em São Paulo há duas semanas. A despedida da trilogia que mudou a carreira de Alee: Dias Antes do Caos, CAOS e CAOS DLX — com mais de 150 milhões de plays, Disco de Ouro, shows pelo Brasil e Europa.

“Eu acho que o show do Cena tinha sido o meu melhor show até agora. Mas esse da Audio foi ainda melhor”, contam. “Tipo assim, da primeira até a última música, o show foi perfeito, o público foi perfeito. Foi bem mágico pra mim”. E o público não cansou. Pelo contrário. “Irmão, parece que a galera tava com a bateria infinita. Eu na música 12 já tava sem voz, a galera tava parecendo DJ pulando. Foi muito especial”.

“Fome de 30 leões”

E o que vem depois? KL está finalizando O Menino de Rua, álbum que deve chegar em abril ou maio. “É um projeto mais sério ainda”.

Alee começou Pagão, depois apagou tudo, recomeçou do zero. Foi estudar paganismo de verdade, mergulhou fundo no conceito. “Ser um pagão é uma parada muito mais séria do que só botar o nome e falar de relacionamento”. E ainda tem mixtape no meio do caminho, mas que a dupla preferiu não dar muitos detalhes.

Mas acima de tudo, tem fome. “Eu estou com a fome de 30 leão [sic]. E se não tiver na selva, eu vou caçar”, dispara Alee. KL emenda: “Buscar no zoológico. Acabou o leão, pega os leão do zoológico aí que nós vai abafar tudo”.

+++LEIA MAIS: Alee e Klisman tropicalizam trap soul em ‘Para: Todas Que Fingi Amar’

+++LEIA MAIS: MC Cabelinho fala sobre álbum com TZ da Coronel: ‘Visão parecida e muita história pra contar’

Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
TAGS: Alee, Klisman