Ryan Gosling e pedra alienígena vão te fazer rir e chorar em ‘Devoradores de Estrelas’
Baseado no romance homônimo de Andy Weir, autor de Perdido em Marte, longa dirigido por Phil Lord e Christopher Miller chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (19)
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
A ficção científica sempre encontrou na ideia de encontros improváveis uma forma potente de falar sobre empatia, diferença e comunicação — e Devoradores de Estrelas, ficção científica dirigida por Phil Lord e Christopher Miller, criadores e produtores da franquia Homem-Aranha no Aranhaverso, aposta nessa tradição ao colocar Ryan Gosling (Barbie) contracenando com uma pedra alienígena, a quem ele apelida carinhosamente de Rocky.
Na história, o professor de ciências Ryland Grace (Gosling) acorda em uma espaçonave a anos-luz de casa, sem nenhuma lembrança de quem é ou como chegou ali. À medida que sua memória retorna, ele começa a descobrir sua missão: resolver o enigma de uma substância misteriosa que está fazendo o Sol morrer. Ele precisará recorrer ao seu conhecimento científico e a ideias nada convencionais para salvar tudo na Terra da extinção… mas uma amizade inesperada pode significar que ele não terá que fazer isso sozinho.
A relação entre Ryland e Rocky lembra a amizade entre Elliott e E.T. em E.T. – O Extraterrestre (1982), de Steven Spielberg, onde a conexão nasce da vulnerabilidade e da necessidade de proteger o outro. Em ambos os casos, o elo se constrói mais pelo afeto do que pela compreensão total. Vale citar ainda um quê de A Chegada, na conexão entre Louise Banks (Amy Adams, Animais Noturnos) e os heptápodes que se dá quase exclusivamente pela linguagem.
Apesar do filme de Denis Villeneuve (trilogia Duna) tratar desse processo de forma mais cerebral, ele é igualmente baseado na tentativa de entender o desconhecido, tal qual Devoradores de Estrelas, que dialoga diretamente com essa ideia, ainda que escolha um caminho mais leve e bem-humorado: aqui, aprender a se comunicar não é só uma questão científica, mas também afetiva e engraçada — e é justamente isso que transforma a parceria improvável no coração do filme.

Ao colocar dois seres completamente diferentes, isolados no espaço e pressionados pela missão de salvar seus respectivos planetas, o roteiro encontra um terreno fértil para humor, emoção e descoberta. A comunicação entre eles não é imediata, nem simples, e o processo de entendimento mútuo se transforma em motor dramático — e cômico. Há graça nas tentativas de Rocky entender as particularidades da linguagem terrena, assim como em Ryland decifrar os códigos alienígenas, e, aos poucos, um afeto genuíno cresce entre eles. São dois “perdidos” que, juntos, começam a fazer sentido — e que, cedo ou tarde, vão te fazer rir e até chorar.
Gosling sustenta boa parte do filme com seu carisma já conhecido de outros trabalhos de sua filmografia, equilibrando leveza no humor e vulnerabilidade quando o drama se faz necessário. O roteiro de Drew Goddard segue uma linha acessível e didática, próxima de seu roteiro para Perdido em Marte, sem buscar o drama de Interestelar ou A Chegada. Isso faz com que o filme seja fácil de acompanhar, ainda que previsível em vários momentos, como se optasse sempre pelo caminho mais seguro — e tudo bem.
Os flashbacks entram em cena para contextualizar a missão e explicar a presença desse herói, mais próximo de um nerd improvisando soluções do que de um astronauta tradicional, naquela espaçonave. É também nessas passagens que Sandra Hüller (Anatomia de Uma Queda) marca presença, provando mais uma vez sua força em cena mesmo com pouco tempo — incluindo um momento de karaokê inesperadamente memorável.
A direção de Phil Lord e Christopher Miller investe em um imaginário espacial convincente e visualmente envolvente, potencializado pelo IMAX, que valoriza a escala da jornada e o isolamento do protagonista. Ainda assim, o excesso de duração — com cerca de duas horas e meia — pesa, especialmente na reta final, quando o filme parece se estender além do necessário — parece que há alguns finais.
No fim, Devoradores de Estrelas é um filme familiar, acessível e carismático, que encontra sua identidade na convivência entre seus protagonistas. Pode não reinventar a ficção científica, nem alcançar grande profundidade dramática, mas acerta ao apostar no vínculo entre dois seres improváveis. É nessa amizade construída à base de tentativa, erro e aprendizado mútuo que o filme realmente brilha — e faz com que a jornada, ainda que previsível, valha a pena.
LEIA TAMBÉM: Sozinho, Peter Parker precisa renascer no trailer de ‘Homem-Aranha 4’