DINASTIA NORRIS

Chuck Norris: oito filmes essenciais

Da luta inesquecível com Bruce Lee aos filmes de ação musculosos dos anos 1980 — seu guia básico de cinema de Chuck Norris

David Fear

Chuck Norris
Foto: Reprodução/American Cinema Releasing/Everett Collection; Warner Bros. Pictures; Columbia/Everett Collection

Qualquer cinéfilo de uma certa idade — e, provavelmente, de um certo perfil — vai contar sobre a primeira vez que viu Chuck Norris na tela. Talvez tenha sido aquela luta inesquecível com Bruce Lee no clímax de O voo do dragão (1972), que marcou a estreia do campeão de caratê no cinema. Pode ter sido Os Bons Se Vestem de Negro (1978), que levou legiões de crianças de subúrbio a tentar reproduzir o famoso chute voador do filme (embora o próprio Norris talvez tenha terceirizado essa acrobacia). Ou pode ter sido qualquer um dos muitos filmes de ação dos anos 1980, que não só passaram por salas populares e cinemas ao ar livre pelos Estados Unidos, como ajudaram a consolidar Norris como uma estrela internacional.

Muito antes de Norris — que morreu na quinta, aos 86 anos, — ser conhecido como Cordell Walker, o herói durão e literalmente chutador de traseiros da longa série Walker, Texas Ranger (1993), ele já era uma lenda do cinema de artes marciais e um porta-estandarte de um certo tipo de filme “machão”, com centenas de socos, milhões de balas e dezenas de falas. Mesmo quando eram feitos no barato e recheados de trocas ufanistas que fariam uma águia americana revirar os olhos, Norris tinha um jeito de usar sua persona estoica e sua técnica extraordinária de luta para transformar esses filmes em prazeres culposos. Em homenagem ao astro de Octagon – Escola de Assassinos (1980), escolhemos oito filmes essenciais de Norris para celebrar a memória do ator. Descanse em paz, Chuck.

O voo do dragão (1972)

Carlos RayChuckNorris já era veterano da Força Aérea, professor de artes marciais, campeão de caratê na categoria médio e “Lutador do Ano” da Black Belt Magazine, quando fez sua estreia no cinema no filme de Bruce Lee anterior a Enter the Dragon (1973). E não é exagero dizer que o confronto final dos dois no Coliseu, em Roma, continua sendo uma das maiores lutas do cinema de todos os tempos. Assim que Norris, de peito peludo, estala os nós dos dedos e os dois começam a se aquecer, dando uma prévia de seus estilos de combate — pronto, começou.

A sequência de quase 10 minutos é uma descarga pura de adrenalina, mesmo antes de começarem a trocar golpes, e, quando Norris faz um gesto silencioso com o dedo para o oponente depois de uma trocação, é como ver toda a sua persona de herói de ação ainda em forma embrionária. Os dois atores tinham treinado juntos antes de Lee ir para Hong Kong para impulsionar sua carreira no cinema. Mais tarde, ele ligou para o antigo parceiro de treino e, como Norris contou no programa Late Night With Conan O’Brien, disse: “Quero fazer uma cena de luta que todo mundo vai lembrar.” Missão cumprida.

Os Bons Se Vestem de Negro (1978)

Depois que O voo do dragão (1972) o transformou em sensação, Norris conseguiu seu primeiro papel principal no filme de caminhoneiros O Comboio da Carga Pesada (1977). Mas foi o filme seguinte que oficializou a era Chuck Norris: ícone do cinema de artes marciais. Ele interpreta o major John T. Booker, líder de uma unidade de operações especiais praticamente dizimada após ser enviada para uma missão nas selvas do Vietnã.

Booker e quatro companheiros conseguem sair vivos e voltar aos EUA. Anos depois, porém, alguém parece decidido a exterminar os sobreviventes, e Booker precisa descobrir quem é, antes que os assassinos cheguem até ele. “Ele já foi um espião… agora tem que morrer”, e Norris pode não ter executado o famoso chute voador no para-brisa de um carro, mas o filme é uma vitrine perfeita de sua habilidade de luta. E o tornou uma estrela com o nome acima do título.

Octagon – Escola de Assassinos (1980)

Os Bons Se Vestem de Negro (1978) e a continuação igualmente carregada de ação, Força Destruidora (1979), provaram que Norris era um astro que rendia bilheteria. Seu primeiro filme da década de 1980 — um período que seria muito bom para sua carreira — colocou Norris contra o Lee Van Cleef de Três Homens em Conflito (1966) e ninjas. Muitos e muitos ninjas.

Os “assassinos silenciosos” foram recrutados como uma organização terrorista mercenária, e o único homem capaz de detê-los é, naturalmente, Norris. Ele acaba enfrentando uma série de inimigos na arena octogonal do título, incluindo o antigo melhor amigo e irmão adotivo de seu personagem. Norris. Cleef. Ninjas. Precisa de mais o quê, um mapa?

Fúria Silenciosa (1982)

Norris já começava a migrar de filmes puramente de artes marciais para suspenses policiais com algumas lutas de caratê como bônus (ou talvez como detalhe) em Olho Por Olho (1981). Aquele filme pareceu um ensaio instável para expandir o apelo dele no cinema de gênero. O seguinte, porém, acertou a mão e ajudou a vender Norris como um herói de ação mais completo.

Ele interpreta um xerife de uma cidade pequena no Texas, acostumado a acabar com brigas em bares de motoqueiros. Quando um prisioneiro domina a polícia local e foge, descobre-se que o homem fazia parte de um experimento genético, que o transformou em um “homem indestrutível”. Cabe a Norris chutar esse mutante fora de controle até a submissão. Se alguém perguntar como eram os filmes dos anos 1980, basta mostrar este trailer.

McQuade, o Lobo Solitário (1983)

Parte faroeste, parte drama policial (“Ele é um homem da lei solitário no estado da Estrela Solitária”,) e 100% sensacionalista, este filme para Norris o coloca como J.J. McQuade, um Texas Ranger com um estilo pouco ortodoxo de policiamento. Ele é mesmo um lobo solitário (com, sem brincadeira, um lobo de estimação de verdade) e um tanto pavio-curto — mas funciona.

E, quando a filha é sequestrada por um chefão do tráfico interpretado por ninguém menos que David Carradine, ele vai ter que usar cada pedaço do seu jeito nada “dentro do manual” para resgatá-la. Só o fato de Norris contracenar com a estrela da TV Kung Fu (1972) já seria suficiente para destacar este filme, mas ele é, de fato, um dos mais fortes da filmografia de Norris e o mostra tanto como possível par romântico quanto como herói rebelde à moda antiga.

Se tivéssemos que apresentar para iniciantes por que Norris foi uma verdadeira estrela de filmes B nessa era, McQuade, o Lobo Solitário (1983) seria a escolha. Bônus: o filme acabaria inspirando Walker, Texas Ranger (1993), a pedra fundamental do legado de Norris.

Braddock – O Super Comando (1984)

Sylvester Stallone pode ter consagrado o herói definitivo de resgate de prisioneiros de guerra em Rambo 2: A Missão (1985), mas Norris chegou ao mercado antes com esta história do coronel James Braddock, um ex-prisioneiro de guerra no Vietnã que escapou e retorna 10 anos depois para libertar soldados ainda mantidos em campos.

Para ser justo, um roteiro inicial para a continuação de Rambo: Programado para Matar (1982), escrito por ninguém menos que James Cameron, envolvendo uma missão semelhante já circulava por Hollywood havia algum tempo. Ainda que o filme de Stallone tenha virado um dos sucessos definidores da década, Braddock – O Super Comando (1984) continua sendo um dos maiores e mais conhecidos sucessos de Norris e deu início a uma franquia de verdade para o ex-campeão de artes marciais.

Código do Silêncio (1985)

Esta história de policiais corruptos, assassinatos da máfia e um anti-herói da polícia que precisa dobrar regras para distribuir justiça violenta teria começado como um roteiro potencial para um filme de Dirty Harry (1971). Depois, o cenário mudou de San Francisco para Chicago e, após uma série de atores terem passado pelo projeto, ele acabou nas mãos de Norris.

O resultado é o que muitos consideram ser o melhor filme do ator, ajudado pelo fato de Andrew Davis, futuro diretor de O Fugitivo (1993), estar no comando. Funciona ao mesmo tempo como drama policial direto, thriller criminal e filme de ação “adjacente” às artes marciais, e Norris sabe como interpretar o personagem para máximo efeito. É um ótimo papel para ele. (Nota à parte: não estamos dizendo que Stallone tinha o hábito de seguir a liderança de Norris. Mas veja estes pôsteres e estes outros.)

Comando Delta (1986)

Depois de fazer um dos filmes mais ufanistas de todos os tempos — a cópia de Amanhecer Violento (1984), em “grau Z”, Invasão USA (1985) — Norris se recuperou com um suspense de “homens em missão” que o colocou como coestrela de ninguém menos que Lee Marvin.

O elenco parece um jogo de completar frases de um conjunto estelar do final do século 20 (Shelley Winters, Martin Balsam, Joey Bishop, Robert Forster, George Kennedy, Robert Vaughn e, surpreendentemente, Hanna Schygulla, musa de Fassbinder). Mas não se engane: este é, acima de tudo, um filme de Chuck Norris. Ele é o major Scott McCoy, o segundo no comando da Delta Force abaixo do coronel Nick Alexander, de Marvin, e a missão é resgatar reféns de um avião sequestrado por terroristas.

É como ver um herói de ação à moda antiga passando o bastão para um mais jovem. E, assim como os filmes de Braddock – O Super Comando (1984), este sucesso geraria uma franquia, embora Norris só tenha aparecido na sequência. Depois, o astro faria versões baratas de Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida (o Os Aventureiros do Fogo (1986)), Karatê Kid: A Hora da Verdade (1984) (o Unidos Para Vencer (1992)) e Uma Dupla Quase Perfeita (1989) (o Top Dog (1995)), além de sua longa série de TV. Este suspense arrancado das manchetes é um ótimo fechamento para o fim da sua fase de auge no cinema.

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