Como o Gorillaz promoveu uma revolução pop pós-moderna há 25 anos
Projeto começou como uma satirização da plasticidade da música pop e acabou se tornando um clássico sui generis que mudou a indústria
Pedro Hollanda (@phollanda21)
A história do Gorillaz começou com uma cena bem comum para o fim dos anos 1990. Dois amigos estavam assistindo MTV em casa. A diferença crucial dessa história é que a dupla em questão consistia em Damon Albarn e Jamie Hewlett.
O primeiro era vocalista do Blur, rosto do britpop e um dos maiores rockstars ingleses daquela década. O segundo, criador da personagem Tank Girl e um dos quadrinistas mais revolucionários do período. Os dois tomaram pé na bunda e viviam juntos, meio a contragosto.
O que os uniu? A vontade de mudar tudo no pop. A virada do milênio foi um período cheio de grupos pop fabricados por empresários, seja nos Estados Unidos ou Reino Unido. Programas de calouro viraram tendência na terra da então rainha, abarrotados de cantores sem personalidade fazendo lip sync.
Bandas de desenho animado não eram um conceito novo. Existiam desde os anos 1960, com The Archies e Josie e as Gatinhas emplacando no imaginário popular. A própria década de 1990 viu Bart Simpson virando hit nas paradas americanas com “Do the Bartman”. Entretanto, todas essas empreitadas se mostravam tentativas um tanto cínicas de ganhar dinheiro em cima de modinhas.
O Gorillaz era ao mesmo tempo uma tiração de sarro e a melhor versão possível da banda de desenho animado. Quatro personagens marcantes, com origens surrealistas, personalidades próprias e sensibilidades que refletiam as facetas musicais do grupo:
- Murdoc era o baixista satânico fã de dub e heavy metal;
- Russell, o baterista criado a partir de hip-hop e literalmente assombrado pelos fantasmas de seus amigos mortos;
- Noodle, a guitarrista japonesa de 10 anos capaz de riffs gigantescos e momentos de psicodelia quase infantil;
- 2-D, por fim, representava o vocalista monótono sem nada nos olhos porque sequer os tinha.
Em entrevista de 2001 ao Popmatters, Albarn contou que sempre quis fazer música refletindo duas de suas maiores influências: The Specials e Massive Attack. O primeiro grupo citado foi pioneiro do ska new wave no Reino Unido cuja guinada para composições mais sombrias, tal qual a música “Ghost Town”, pode ser notada na obra do Gorillaz. Enquanto isso, o segundo nome vai além de simples som.
O Massive Attack era mais um coletivo que uma banda de fato. Estava cercado de colaboradores para cada álbum. Iimpossível de ser categorizado em termos de gênero por transitarem entre hip-hop, rock e eletrônica. Ainda assim, a imprensa aplicou o rótulo trip-hop no grupo, o que o reduzia.
Como o Gorillaz mudou tudo
A beleza conceitual do Gorillaz era que podiam fazer qualquer coisa. Não existia bagagem de gênero para os afetar. Nem mesmo o fato do projeto ser capitaneado por um dos músicos mais famosos do Reino Unido importava, porque ele só emprestava a voz para 2-D. E, acima de tudo, podia fazer uso do maior fracasso da carreira do Blur. A banda era vista como one-hit wonder nos Estados Unidos pois, por lá, emplacou apenas “Song 2”, do álbum Blur (1997). Em território americano, ninguém sabia quem Damon Albarn era.
O resultado foi uma das obras mais revolucionárias do século 21. Gorillaz (2001) combina as influências do Massive Attack e The Specials – basicamente dub, jazz, trilhas sonoras dos anos 1960, hip-hop – com o rock pós-moderno feito por artistas como Stereolab e Cibo Matto, que misturava psicodelia, bossa nova e easy listening com elementos experimentais. Ou seja: uma recontextualização de tudo feito na música pop durante a segunda metade do século.
A experiência de ver o videoclipe de “Clint Eastwood” na TV – no qual a banda era perseguida por gorilas zumbis que faziam a coreografia de “Thriller”, clássico de Michael Jackson, enquanto o rapper Del The Funky Homosapien rimava do além túmulo – fez tudo vindo antes parecer bobo em comparação. A banda era familiar o suficiente para atrair o público, mas ainda soava como o futuro da música.
Um impacto ainda maior que os clipes da banda talvez seja a presença das canções de Gorillaz em videogames. Um remix de outro single do álbum, “19-2000”, apareceu durante a montagem de abertura do jogo FIFA 2002, na época considerado um salto na qualidade gráfica da série. O grupo era a trilha do futuro.
De repente, a combinação de rock e pop com hip-hop não pareceu estranha para o público e, principalmente, para a indústria musical. Participações de rappers em singles de cantores pop eram, até ali, vistos de uma forma enviesada pelas gravadoras, que tinham medo das músicas serem relegadas a rádios categorizadas como “urbanas”. O sucesso do Gorillaz talvez não seja o único fator influente nessa mudança, mas nada contribui mais para a mudança de algo nesse mundo que sucesso desenfreado. Seis milhões de cópias vendidas de um álbum tende a abrir a cabeça de muita gente.
Sequência e legado
Quatro anos depois, o Gorillaz retornou com Demon Days (2005), um disco que aumentou o leque de colaboradores e cimentou a posição do conjunto na história da cultura pop graças a hits como “Feel Good Inc.”, “Dirty Harry” e “Dare”. A banda continua lançando material, com The Mountain (2026) marcando um retorno à boa forma.
O artifício dos personagens animados sendo os responsáveis pela música do Gorillaz ficou para trás há muito tempo. Desde a turnê de Demon Days, a “banda por trás da banda” já tocava à vista do público, “arruinando” a ilusão. Entretanto, quando o grupo se apresentou no Saturday Night Live recentemente e tocou “Clint Eastwood”, o que ficou evidente foi o poder duradouro da música.
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