ENTREVISTA RS

Tiago Iorc revisita passado em edição colaborativa de ‘Troco Likes’: ‘Celebrando um grande marco’

Após uma década, o cantor e compositor convida grandes nomes da música brasileira para celebrar nova fase

Gabriela Nangino (@gabinangino)

Tiago Iorc
Tiago Iorc (Foto: Rafael Trindade)

Na última sexta, 27, Tiago Iorc retornou às paradas musicais com a nova versão de Troco Likes, álbum que o lançou ao estrelato em 2015. Mais do que uma simples regravação, o projeto propõe olhar para as canções com outros olhos: Iorc convidou 10 artistas brasileiros de diferentes estilos e gerações para se juntar a ele nesse processo. O disco recebeu vozes que vão desde o pop sensual de Marina Sena, até o MPB de Ney Matogrosso e o sertanejo de Lauana Prado.

“O natural pra qualquer um é querer olhar pra frente, fazer coisas novas”, afirma Iorc, e isso foi algo que o moveu por muito tempo. Agora, aos 40 anos, é a primeira vez que ele faz o movimento contrário.

Estou num momento propício para isso, porque, talvez pela idade, eu estou entendendo a importância da nossa história, tanto individual quanto como coletivo. Eu tenho olhado com mais carinho para os passos que me fizeram chegar até aqui, para esses Tiagos que existiam antes do Tiago de hoje poder existir.

“Longa caminhada”

Há dez anos, Iorc conquistava seu primeiro Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa com a versão ao vivo de Troco Likes. Segundo o artista, este momento mudou sua perspectiva da vida e da fama: apesar do cansaço decorrente da “megaexposição”, ele encontrou “muita beleza” nas portas que se abriram.

Esse álbum me colocou em contato com muita coisa de uma magnitude que antes eu não tinha vivido; uma exposição maior, palcos maiores, públicos maiores… Eu conheci gente que eu não tinha tido a oportunidade, como Milton Nascimento, todo esse universo musical do Brasil se abriu ali pra mim naquele momento.

Trabalhando na regravação, ele se enxergou como um músico muito mais experiente, e ao mesmo tempo muito mais tranquilo do que antes. “Aquele Tiago de 2015, que estava ávido por acontecer, por se fazer valer através da música, aquela vontade, gana, energia, foi muito importante, foi isso que me possibilitou estar aqui hoje”.

Além dos nomes já citados, o álbum também inclui feats com Iza, Jota.pê, o grupo de pagode Menos É Mais, o trio carioca Os Garotin, Vitor Kley, Melly e Mundo Bita. Para Iorc, foi um privilégio poder valorizar esse pedaço de sua história ao lado de “amigos tão maravilhosos e tão múltiplos”.

Parcerias 

Segundo Tiago, “a canção foi a grande regente” de cada colaboração da nova edição de Troco Likes. Em vez de escolher os artistas com quem gostaria de trabalhar, o músico pensou em quais vozes somariam à temática e à identidade das faixas originais. 

“Para que a gente pudesse chegar numa versão que contemplasse a canção, mas que trouxesse uma nova influência”, explica. A surpresa foi muito positiva: “Eu considero essas, talvez, a melhor versão de cada uma dessas canções até hoje”. 

Tiago descreve o processo como intuitivo e objetivo. Ele exemplifica com a colaboração com Marina Sena — aclamada em 2025 por Coisas Naturais, o melhor disco nacional do ano, segundo a Rolling Stone Brasil — em “De Todas As Coisas”. “É como se a Marina sempre estivesse ali e a gente só não tivesse ouvido ela antes”, diz. “É uma canção que se encaixa no universo da Marina, e ela eleva essa canção para um diálogo, uma sensualidade que não existia quando eu cantava sozinho”.

Tiago Iorc e Marina Sena
Tiago Iorc e Marina Sena (Foto: Pedro Figueiredo (@_pedrohaf))

Em outros casos, Tiago pensou na possibilidade de fundir diferentes gêneros, como a nova versão de “Cataflor” com a cantora sertaneja Lauana Prado. “Essa canção permitia ao sertanejo se debruçar e trazer a sua sonoridade, os seus instrumentos, a sua idiossincrasia”, diz.

Iorc ressalta, em especial, a colaboração com Ney Matogrosso em “Liberdade e Solidão”. “Não é uma música fácil de cantar, ela traz um pouco uma densidade, e o Ney é um mestre de densidade, de imensidão, então me deixou muito emocionado”.

Tiago Iorc e Ney Matogrosso
Tiago Iorc e Ney Matogrosso (Foto: Pedro Figueiredo (@_pedrohaf))

Equilibrar a própria identidade artística com a abertura necessária para deixar o outro imprimir sua marca na faixa pode ser um desafio. Além disso, Tiago tentou evitar grandes “saltos” entre as canções, tendo em vista os gêneros diversos dos artistas que participaram.

O cantor ressalta que sua composição original foi um alicerce durante todo o processo criativo, e o objetivo principal foi “construir um diálogo equilibrado”. A criação do disco envolveu uma série de escolhas junto aos produtores musicais, a fim de envelopar as diferentes vozes dentro de um “projeto coerente de início ao fim”. 

“O meu jeito de compor já traz muito dessa minha assinatura, desse jeito de me expressar; isso já trazia o meu universo, assim como alguns elementos básicos, como o violão”, explica Tiago. “Com a chegada desses artistas, a minha vontade era de preservar a canção acima de tudo, para não fugir do imaginário já consolidado mas, ao mesmo tempo, se emprestando desse universo do diálogo”.

Mensagem e visual

Troco Likes (2015) nasceu em um momento em que a internet e as redes sociais ainda estavam “engatinhando”. “Na época era mais difícil acessar a internet, era apenas em momentos específicos do dia, não estava na palma da mão”, reflete Tiago. “Foi o início de um marco de interação social que permeia hoje 24 horas da nossa vida”.

Apesar da evolução constante das ferramentas e plataformas, assim como a chegada transformadora da Inteligência Artificial, o cantor acredita que uma coisa permanece igual: “A gente ainda está aprendendo”. 

Estamos o tempo inteiro tentando interagir com a vastidão que a internet nos permite. A gente pode se conectar com culturas, com crenças, com diferenças e precisamos entender como a gente se relaciona com esse mundo. As ondas de ódio, a dificuldade de entendimento do outro, surgem porque de fato é muito para assimilar. A gente mal se entende no indivíduo e ainda quer compreender toda essa divergência e complexidade.

Cada parceria musical terá sua própria capa de single, feita a lápis de cor pelo artista Nestor Canavarro, retratando os artistas com um largo sorriso marcado por pregadores — uma reedição da capa de 2015.

Segundo Tiago, essa imagem é uma referência ao período do surgimento das redes, que levantou discussões sobre a credibilidade das vidas idealizadas que acompanhávamos através das telas. “O Instagram era uma possibilidade de criar a sua fachada, e as pessoas tentaram ser perfeitas, mostrar vidas maravilhosas, editadas, sem furos, e ninguém sustenta isso na sua totalidade”, reflete.

Quando surgiu essa vontade de regravar o álbum com 10 participações, deu esse estalo: e se a gente fizesse a capa de cada um desses artistas com o mesmo ilustrador? Foi muito especial ver essa expansão desse universo, uma continuidade daquele trabalho que começou há 10 anos.

As músicas continuam relevantes na era atual, cada vez mais acelerada pela digitalização. “Não tem fim essa busca por esse entendimento do que a gente é, do que as redes são, do que essa interação humana é, essa nossa necessidade de encontrar valor através do outro, de se entender através do outro, e as canções permeiam tudo isso”, diz o cantor.

Iorc também pretende sair em turnê: “Será o momento de levar essa memória afetiva, relembrar essas canções com o público”. 

Sua ideia é reunir uma grande banda, para celebrar não apenas o lançamento do álbum, mas os últimos 10 anos de carreira. “As faixas me reconquistaram”, conta, “e o que me ajudou a ver valor e me emocionar de novo com essas canções foi justamente os amigos que chegaram pra comemorar comigo e me estimular em outros lugares”.

As vendas de ingressos serão divulgadas em breve. 

+++ LEIA MAIS: Conheça Fcukers, duo de eletrônica que abrirá shows de Harry Styles no Brasil

Jornalista em formação pela Universidade de São Paulo, Gabriela é mineira e apaixonada por arte e cultura. Ela também já foi dançarina e seu principal hobbie é conhecer todos os cinemas de rua de SP. Foi estagiária no Jornal da USP e, na Rolling Stone Brasil, fala sobre música, filmes e séries.
TAGS: marina sena, ney matogrosso, tiago iorc, Troco Likes