Nick Murphy faz as pazes com Chet Faker: ‘Foi um experimento, eu o aceitei’
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o australiano fala sobre as mudanças na carreira e a decisão de retomar o seu alterego musical
Henrique Nascimento (@hc_nascimento)
Em setembro de 2016, dois anos após o lançamento de seu primeiro e aclamado álbum, Built on Glass (2014), Chet Faker surpreendeu os fãs ao anunciar que estava abandonando o seu nome artístico — inspirado na lenda do jazz norte-americano Chet Baker — e passaria a atuar como Nick Murphy, seu nome de batismo.
Em teoria, era o mesmo artista. Na prática, no entanto, a sua música ganhou novos contornos, e o seu indie pop melancólico foi embalado por um synth-pop herdado dos anos 1980, registrado em seu segundo álbum, Run Fast Sleep Naked, de 2019, o primeiro sob o novo nome.
A ideia era fugir das amarras que havia criado para si mesmo: com o sucesso de Built on Glass, Murphy passou a se sentir limitado artisticamente: “Era a minha forma de ter controle de algo”, afirma em entrevista à Rolling Stone Brasil.
“Acho que, no começo, todos pensavam: ‘Você precisa nos dar o que queremos’. Havia uma certa noção de possessividade das pessoas. Acho que isso vem do consumismo, sabe? Nós achamos que nós somos donos dos artistas porque estamos acostumados a ter tudo. Ter dinheiro significa possuir. E eu claramente não gostava disso. Não é assim que a arte funciona, então eu tirei isso [das pessoas]”, completa.
Deixar Chet Faker de lado também proporcionou algo que Murphy não vivenciava há um tempo: a sensação de ineditismo. Porém, o artista admite que o experimento não saiu como esperado:
“A única vez que você realmente tem uma apreciação verdadeira e imparcial é quando você lança música pela primeira vez. Então, esse é um tipo de limitação de um projeto. E eu acho que, de certa forma, eu esperava que, se eu lançasse músicas sob outro nome, eu poderia ter isso”, explica. “Mas isso não funcionou de forma alguma. As pessoas ainda comparavam. O que, acho, eu sabia [que ia acontecer]. Mas foi como um experimento, sabe? Eu entendi isso e o aceitei.”
A mudança durou quatro anos e, em outubro de 2020, Murphy anunciou que o seu alterego estava de volta. Agora, quase cinco anos, o artista afirma que fez as pazes com Chet Faker e, principalmente, com a profissão que escolheu seguir e todas as suas consequências: “Acho que trazer [Chet Faker] de volta mudou [as coisas]. Talvez as pessoas tenham percebido: ‘Ah, OK, nós não possuimos isso.’ Você pode escolher ouvir ou não”, esclarece.
“É um bom problema para se ter. Um problema em que a maioria de suas maiores músicas são de um álbum de dez anos atrás, sabe? Às vezes, você está lutando contra isso. Se eu lançar um novo álbum, as pessoas vão enlouquecer. Como já existem músicas, as pessoas vão comparar. E eles não comparam objetivamente; comparam com a primeira vez que ouviram [as minhas músicas] e o quanto gostaram”, acrescenta.
Agora que Chet Faker está de volta de vez — até segunda ordem, é claro — e com um novo álbum, A Love For Strangers, lançado em fevereiro deste ano, Nick Murphy garante que as questões do passado já não existem mais:
“Acredito que tenha mudado muito desde que o início e eu não acho que alguém espera que eu, necessariamente, faça a mesma merda o tempo todo. Talvez algumas pessoas não tenham realmente prestado atenção e ainda pensem em mim apenas como [o artista] de ‘Gold’, ‘Drop the Game’ e ‘No Diggity’, mas essas pessoas nunca vão saber o que está rolando de qualquer forma”, pondera.
“Eu sinto alguma limitação, mas não como eu costumava sentir. Acredito que sumindo [com Chet Faker], explorando, me permitiu voltar e ter uma relação melhor [com o alterego]. E eu também que mudou a relação das outras pessoas”, completa. “Eu me sinto realmente empolgado em fazer música e provavelmente mais inspirado do que jamais estive desde o começo.”
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