Ebony: ‘É muito meu dever refletir sobre o meu tempo’
Rapper carioca continua sua jornada de (re)descoberta com referências a Sojourner Truth, artes plásticas e poemas em ‘KM2 (De Luxo)’
Felipe Grutter (@felipegrutter)
A chegada da vida adulta é, muitas vezes, confusa e repleta de dilemas — seja para fazer as pazes com o passado, encontrar um propósito, construir relações significativas e mais. Mas talvez um dos principais questionamentos seja: “Qual é o meu lugar no mundo?”
Desde KM2, eleito um dos melhores discos de estúdio nacionais de 2025 pela Rolling Stone Brasil, a rapper carioca Ebony discute seu amadurecimento a partir de questões e traumas que atravessaram sua infância em Queimados, no Rio de Janeiro. Um ano depois, porém, a artista de 25 anos decidiu revisitar o álbum, trazendo mais humor, leveza e esperança aos temas pesados apresentados em KM2 (De Luxo).
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, a cantora explicou que ainda não estava pronta para iniciar uma nova era na carreira, já que o disco de 2025 pedia uma revisita sob outra perspectiva.
“KM2 foi a minha primeira vez experimentando ser honesta sobre sensações, traumas e tudo. Entrei numa de ‘quero deixar isso mais acessível sentimentalmente, não quero que seja tão difícil de ouvir’. Tentei contrapor com expectativas mais esperançosas sobre os problemas, sem fingir que eles não estão lá”, comentou.
Justamente o que “faltava” para esta fase era aquilo pelo qual ela já era conhecida: abordar temas diversos com mais leveza e humor. “Gosto muito das minhas rimas e linhas, mas eu queria que tivesse algo mais leve, que, em algum momento, eu risse ouvindo, por exemplo. Algo genuinamente humorístico, sabe? É a minha forma de dizer que está tudo bem: ‘Olha, a gente acabou de acessar várias coisas pesadíssimas, mas está tudo bem’.”
Na conversa, Ebony também falou sobre a concepção visual da capa, o show de estreia da turnê do (De Luxo) — que acontece nesta sexta-feira, 10, na Audio, em São Paulo, com ingressos disponíveis aqui —, seus primeiros poemas usados nas músicas, sua paixão por artes plásticas, o fato de ser uma carioca bairrista vivendo na capital paulista, sua participação no Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, no Palácio do Planalto, além de como passou a se enxergar como “empresária e artista séria” e mais.
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No primeiro KM2, você tem uma abordagem mais no concentrada e pessoal, né? Enquanto o KM2 (De Luxo) traz uma perspectiva macro das situações. Como foi trazer essa abordagem?
Eu queria rimar de uma forma mais leve, eu sentia falta disso. Gosto muito das minhas rimas e linhas, mas eu queria que tivesse algo mais leve, que em algum momento eu risse ouvindo, por exemplo. Algo genuinamente humorístico, sabe? A minha forma de dizer que está tudo bem: “Olha, a gente acabou de acessar várias coisas pesadíssimas, mas está tudo bem”.
Como foi a criação da capa do (De Luxo)? Achei ela muito bonita! Ali podemos ver você pintando a capa do primeiro KM2 e tudo mais. Como você quis compor essa narrativa visual?
Isso não foi algo proposital, mas a primeira capa que fiz foi a minha criança interior desenhando — veio deste lugar. Queria algo provocativo, mas não facilmente entendível. A primeira capa você vê e precisa olhar duas vezes. Eu vi uma trend nas redes de psicólogos dissecando a capa e coisas do tipo. Era isso o que eu queria fazer com aquela capa. Mas agora, sobre essa nova percepção, na qual não sou mais uma vítima na narrativa, e sim alguém que fala sobre coisas, eu queria ter a minha imagem na capa, no lugar de “esse não é mais um desenho feito por uma criança traumatizada. Sou uma artista que está falando sobre isso”. Essa retomada é a ideia que tivemos nesse ensaio.

O disco sai alguns dias antes do início da turnê do KM2 (De Luxo), aqui em São Paulo, na Audio. Como você pretende explorar essa nova fase ao vivo? Teremos grandes mudanças visuais e das músicas? Queremos spoilers!
O show está todo sendo reescrito, eu estou trabalhando junto com uma equipe especializada nisso, a Estúdio Chips, e é a primeira vez em que lidero uma equipe especializada em shows, de forma geral — em iluminação, em PJs e tudo mais. Da minha parte, estou ensaiando bastante porque quero dançar muito. Sou dançarina, só não costumo dançar muito — algo que eu nunca tinha explorado antes, então estou muito ansiosa para isso, também. Realmente pretendo dominar o palco de uma forma que nunca fiz antes. Planejo ser visceral e teatral; quero fazer as pessoas saírem de lá [falando] “caramba, essa noite foi incrível, meu Deus, olha tudo que entendi e vi hoje”.
Por falar no show, ele terá abertura de NandaTsunami e Ciça. Por que você escolheu elas? O que você mais gosta no som delas?
Eu acho que elas são as revelações entre o ano passado e esse ano. A Nanda ano passado e sinto que a Sissa vai ter muito para entregar este ano. Tento propor no meu estilo de trabalho algo que já é muito comum entre os homens: criar essa via de nos vermos, de fato, como empresárias, empreendedoras e artistas sérias. Se elas foram revelações, significa alguma coisa, que tem pessoas que admiram e querem vê-las — eu sou uma dessas pessoas, inclusive. Gostei muito dos trabalhos de Nanda e Sissa quando os vi. Não me coloco nesse lugar de “ah, eu vou dar exposição para elas” — não é sobre isso. É sobre enxergar elas como empresárias e artistas sérias, e querer trazer esse tipo de parceria comercial, porque se você perceber no final do dia, querendo ou não, é sobre o dinheiro. Sinto que os homens já dominaram essa narrativa. A gente vê que tem festival de 25 caras, porque todos se conhecem e são amigos: “Só faço se o outro fizer, e para me contratar tem um pacote que já leva mais de dois”. Então vou fazer igual!
Voltando agora pro KM2 (De Luxo), ele conta com um poema de sua autoria, intitulado “Sangue Ruim”, logo de cara. Como foi escrever essa obra? Você também disse que sempre teve vergonha de mostrar seus textos. Por que mostrar agora?
É muito meu dever refletir sobre o meu tempo, um dever de casa que tomei da Nina Simone para mim. Esses poemas sempre existiram, a parte mais difícil para mim foi gravar, porque por mais que eu seja rapper, fale coisas absurdas, já tenha feito teatro e tal, é um texto meu — e isso me pega ainda. Mas senti que estava muito alinhado com a mensagem que o mundo precisa nesse momento. Genuinamente senti que as pessoas precisam ouvir de uma mulher negra como a gente se percebe, que vai ficar tudo bem, e o que são essas taxas, o que está acontecendo com o mundo. Eu tinha que usar esse poema para alguma coisa na minha arte, e a versão (De Luxo) deu esse espaço.
Quais outros tipos de arte te inspiram? Além da música e de poemas.
Artes plásticas, com certeza. Eu tive a honra de trabalhar com uma artista, Hester Landim que é incrível, uma menina preta aqui de São Paulo. Eu ainda não tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente — a gente se viu mais por reuniões, como essa aqui. Ela fez o álbum, entendeu exatamente o que eu queria passar, as proporções e como trazer isso para um quadro que… não é expressionista, mas toda a imagética da capa é sobre artes plásticas, minha arte favorita talvez até antes da música. Esse é o ponto. Pinto quadros e lembro que as primeiras interações que tive pintando eram literalmente versões da capa do KM2 Bruto, quando eu era criancinha e estava rabiscando giz de cera. Acessei muito essa memória para fazer a capa. Hester me ajudou a trazer para uma arte mais literal, com certeza milhões de vezes melhor do que eu seria capaz de fazer, porque ela é excelente.
Você pinta com frequência?
Ultimamente, não tenho tido tempo, porque a música tomou esse tempo de mim.
Tenho pintado muito — vou dar esse spoiler inédito, pelo amor de Deus — design de roupas, porque procuro um tipo de roupa que só existe na minha cabeça. Sempre que tento explicar para as pessoas, ninguém nunca entende. Aí eu estou tentando desenhar isso e fazer para mim.
Eu lembro que uma época você postou que você tinha criado uma marca de roupa, mas não foi para frente, né? Você quer retomar isso?
Sempre esteve na minha cabeça ter uma marca de roupas, mas hoje em dia eu acho que não é mais por aí. Desenhei os últimos stylings do meu show. Foram três, o que não é um monte, mas eles foram meus. O do Afropunk foi meu também. Toda essa turnê do início de KM2 tem tudo desenho meu. Croquis, né? E eu dessa ideia de “se eu quiser vestir algo, eu posso fazer isso”, o que me atrai muito mais do que “eu quero ter uma loja de roupas”.
E você falou de estar morando em São Paulo. Como é ser essa carioca em São Paulo?
Eu não sou hater de São Paulo, cara. Eu sou muito bairrista, definitivamente preciso ir para o Rio de Janeiro recarregar minhas energias. Ponto! Não importa onde no mundo eu esteja, vou ter que ir para o Rio de Janeiro recarregar minhas energias. Dito isso, eu gosto muito de morar em São Paulo. Vocês são noturnos pra caramba. Não é sobre praias, mas é sobre clubes, ver pessoas e fashion. Eu gosto disso. No Rio faz muito calor, então estamos sempre com pouca roupa e em outro mood, entendeu? Não estamos tão preocupados com isso. Definitivamente, o frio daqui me fez aprender a me vestir melhor, porque meu Deus. No início eu passei muito sufoco, mas me sinto domando São Paulo. A primeira vez que vim, me senti muito engolida, cara! Lembro que tinha 19 anos, foi um pouco antes da [pandemia de] Covid começar e eu me mudei pra cá. Tanto que eu fiquei um tempo na casa da Urias, que me deu, literalmente, base. Eu não conhecia muitas pessoas, não sabia nada sobre lugares, minha arte não era tão reconhecida. Tive aquela experiência de ser só mais uma neguinha em SP. Foi uma vivência muito humbling, que te deixa muito humilde [risos] emocionalmente. Agora, voltar com meu ciclo social muito bem definido, com pessoas que admiro e que podem contar comigo. Com esse senso de família, num lugar e numa casa mais confortáveis, tem sido um morango. Vai tomando.

Outra novidade é um interlúdio sobre a ativista Sojourner Truth. Como você conheceu ela? Como foi estudá-la?
Sempre pesquisei muito sobre mulheres negras ao longo da história. Então, eu me deparei muito rapidamente com a Audre Lorde, uma das minhas escritoras favoritas, com Maya Angelou, uma das minhas escritoras e poetisas favoritas, que recita os poemas de uma forma angelical. Sojourner Truth fazia isso há muito mais tempo do que todas elas. Ela foi uma mulher negra que, ao longo da história, parou e pensou: “Gente, mas e aí?” Mulheres negras têm feito isso ao longo da história. A pergunta que ela fez naquela época, assim como o poema “Sangue Ruim”, refletem e unem pelo tempo o problema que a gente está lidando de novo: os homens terem escolhido voltar mentalmente para 1800. Realmente não sei o que está acontecendo. Ser uma mulher negra no meio do sexismo, atravessada pela misoginia, pelo racismo e tendo tantas dores para chamar de sua, que muitas vezes ficamos até meio “gente, o que me afeta mais? Isso está acontecendo por eu ser mulher ou preta?” Sojourner Truth fazia esse mesmo questionamento há muito tempo. E isso é lindo e faz eu me sentir vista, que a gente não é louca. Converso com uma geração de meninas que talvez não conheçam a Sojourner. A partir do momento no qual faço uma pessoa pegar o nome dela e jogar no Google, todo mundo ganhou. Independente de quem seja a pessoa ou da idade dela. Por isso escolhi esse texto e essa citação à Sojourner, que parece ser meio aleatória, mas no meu coração faz todo sentido.
A reta final do KM2 (De Luxo) contrasta bastante com o começo, né? Ali pro fim você reconhece sua trajetória f*da na música e se celebra também, além de passar uma mensagem positiva pros seus fãs. Como foi chegar nesse lugar? Você acha que a Milena trancista, que foi reconhecida como Ebony por uma cliente, estaria orgulhosa dessa artista?
Estou começando a aceitar que sim! Talvez seja porque a minha moleira fechou, meu córtex pré-frontal ficou pronto — está ficando, pelo menos. Mas piadas à parte, a sensação de clareza, de ciclo se concluindo, desde quando eu era menina que estava abandonando o ensino médio e confusa sobre o que seria da vida até agora, onde meu sonho tem se materializado em coisas físicas, em calma, em paz. Depois de tudo que aconteceu é bizarro. Sinto-me a minha própria versão (De Luxo).
Tem sido muito bonito acompanhar essa sua era de KM2. Além do sucesso do disco, você tem destacado cada vez mais o rap feito por mulheres, tem dado muita moral pras minas que tão começando, você e a Slipmami tiveram uma resolução, além daquele seu discurso forte no WME Awards… enfim, como está sendo essa sua jornada?
Tem sido uma jornada de muita cura. Desde que virei adulta, comecei a perceber como é fácil e como é quase ensinado para querer ser, em algum lugar, única. A sociedade coloca meninas negras numa condição tão desumana, e a consequência disso é achar que se outra pessoa estiver prosperando, a gente não vai prosperar. Desde que tenho uns 17, 18 anos, eu tendo a ter como lema a frase “o sucesso de outra pessoa não é o meu fracasso”. Isso ajudou a curar muito a minha relação com mulheres e a admirar as que estavam próximas de mim — e não só quando elas eram a Beyoncé —, e ver, de fato, quanto esforço está sendo invisibilizado. Não somos ensinadas a ver o esforço que a gente faz. Tanto os homens não são ensinados a ver os esforços das mulheres, quanto nós mesmas temos um padrão tão alto que é como se fosse impossível virar e falar: “Caramba, essa menina aqui é excelente, você acredita nisso?” Quando sinto que tem alguma coisa que a sociedade tocou e eu não concordo, tento ir contra o máximo possível. Eu já tive falas que não foram muito bem colocadas em relação a outras mulheres do rap, e esse momento foi muito marcante, tipo assim “calma, sit down, bitch, be humble!” De ir pesquisar, ir atrás, entender tudo o que estava acontecendo e me sentir ignorante e jovem, porque eu era ignorante e jovem naquele momento, e junto com esse discurso conseguir me humanizar enquanto mulher, e me humanizar enquanto jovem. É um aprendizado que todas nós temos juntas. Então, que estejamos juntas, sabe?
E no começo deste ano, você foi convidada para representar o hip-hop no Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Lula. Para você, qual a importância de estar num evento deste porte representando tanta gente?
Cara, acho que começo a curar a forma que… Porque é muito sobre imagem, né? O mundo, o Brasil principalmente, tem uma dívida com garotas jovens pretas nesse sentido. Eles atribuem as piores coisas do mundo a mim. Não intencionalmente, mas depois disso eu me senti curando um pouco essa imagem. As pessoas estavam surpresas até com o quanto eu falo bem. Acaba vendo que, não só enquanto uma garota jovem, preta e de favela, mas enquanto rapper. São muitas camadas ali pra gente curar, que o Brasil ainda tem muitas dores em relação a entender a nossa intelectualidade. Enquanto eu puder estar aqui sendo intelectual e ajudando a curar todas essas feridas, vou estar lá no Planalto, entendeu? Me chamem que eu vou. Assim como sempre estive também, fazendo parte de movimentos políticos. Sempre fui uma pessoa muito politizada — não a ponto de me tornar alguém puramente política, que são pessoas que respeito muito. Preciso da balança. A gente faz uma piadinha aqui, uma política ali, mas é algo que sempre esteve em mim.
Ebony, já te entrevistei tantas vezes, e em contextos diferentes… tem alguma pergunta que você acha que eu deveria ter feito e você queira falar sobre?
Cara, não. Eu só espero muito que as pessoas gostem. Eu sinto que sempre tem um momento na vida de todo artista que a gente para de brincar. A gente fala: “Agora eu vou oficialmente dar tudo de mim”. E eu sinto que é agora. É esse deluxe. Minha moleira fechou, gente. O córtex pré-frontal está pronto.
E viva as moleiras fechadas!
Viva a moleira fechando!
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