‘Twin Peaks’ estreava há 36 anos e mudava para sempre a história das séries na TV
Criada por David Lynch e Mark Frost, Twin Peaks tinha como mistério central “quem matou Laura Palmer?”, mas foi além
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Em 8 de abril de 1990, a televisão norte-americana exibia, pela ABC, o episódio piloto de Twin Peaks. O que poderia ser apenas mais um drama policial logo se revelaria uma ruptura profunda com tudo o que a TV havia produzido até então. Trinta e seis anos depois, fica cada vez mais claro: não se trata apenas de uma série influente, mas de um divisor de águas que redefiniu o que entendemos por narrativa televisiva.
Criada por David Lynch e Mark Frost, Twin Peaks teve inicialmente duas temporadas, exibidas entre 1990 e 1991. Em 1992, ganhou o longa Twin Peaks: Fire Walk with Me, que revisitava os últimos dias de Laura Palmer, vivida por Sheryl Lee. Décadas depois, retornaria de forma inesperada com uma terceira temporada de 18 episódios, lançada em 2017 pelo canal Showtime — uma continuação tardia que reforçou ainda mais seu status de obra única.
Mas o impacto de Twin Peaks não está apenas em seus programas, e sim na forma como quebrou paradigmas. Em uma época dominada por fórmulas mais tradicionais — em sitcoms como Cheers ou dramas de época como Bonanza —, a série apresentou algo completamente diferente: uma história complexa, repleta de personagens excêntricos, mistérios sem respostas fáceis e uma mistura ousada de gêneros que transitava entre suspense, drama, humor, terror psicológico e surrealismo. Era difícil até dizer exatamente o que Twin Peaks era — e talvez esse fosse justamente o ponto.
Mais do que isso, a série mudou a forma como o público se relacionava com histórias serializadas. O mistério central — “quem matou Laura Palmer?” — funcionava como porta de entrada, mas rapidamente se tornava apenas uma peça dentro de um universo muito maior. A cidade, seus habitantes, suas traições e segredos ganhavam protagonismo. Era uma narrativa que exigia atenção, paciência e envolvimento emocional, algo pouco comum na televisão aberta da época. E foi justamente essa exigência que fascinou uma legião de espectadores.
A influência é incontornável. Sem Twin Peaks, dificilmente existiriam séries como Arquivo X; sem Arquivo X, talvez Lost nunca tivesse sido concebida da forma que conhecemos. E sem esse efeito dominó, a chamada “era de ouro da TV” provavelmente seria bem diferente. Críticos da época já apontavam que a série inaugurava um novo padrão de qualidade estética, com linguagem cinematográfica — algo que hoje é regra nos dramas televisivos, mas que, em 1990, era revolucionário.
Curiosamente, o próprio mistério que impulsionou a série também contribuiu para sua crise. A revelação do assassino de Laura Palmer aconteceu por pressão da emissora, preocupada com a queda de audiência — contrariando a vontade de Lynch, que preferia manter o enigma indefinido, enquanto Frost defendia que o público merecia respostas. A solução veio no meio da segunda temporada, mas o efeito foi o oposto do esperado: a audiência continuou a cair, levando a série a um hiato e quase ao cancelamento. Os episódios finais foram exibidos meses depois, encerrando aquela fase de forma abrupta. Ainda assim, o legado já estava garantido.
Nos dias atuais, revisitar Twin Peaks é perceber que ela não apenas influenciou outras séries — ela mudou a própria lógica da televisão. Transformou o espectador em cúmplice ativo, elevou o padrão estético e abriu espaço para narrativas mais autorais, estranhas e desafiadoras. Em um meio historicamente guiado por fórmulas, previsibilidade e narrativas exploradas à exaustão, Twin Peaks provou que o risco também pode ser um fenômeno. E, desde então, nada mais foi exatamente igual.
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