Paulinho da Costa, o maior percussionista do mundo, segundo Michael Jackson
Artista brasileiro, que esteve presente na gravação dos maiores sucessos da música mundial a partir dos anos 1970, foi celebrado no primeiro Rolling Stone Talks by Johnnie Walker
Luis Maluf
Antes de Madonna cantar sobre a ilha mítica de San Pedro, com as referências multiculturais de Nova York, no clipe de “La Isla Bonita”, uma figura aparece sentada em frente a um prédio de paletas acinzentadas tocando um tambor duplo, ditando o ritmo de um dos maiores hits da Rainha do Pop. Esse mesmo músico também estava presente nas gravações de “We Are the World”, hino composto por Michael Jackson e Lionel Richie para combater a fome e doenças na África. Além disso, ainda construiu a percussão de Thriller (1982), disco mais vendido de todos os tempos, e deu uma nova vida à “Serpentine Fire”, do Earth, Wind & Fire, ao usar o cowbell africano com criatividade ímpar.
Estamos falando, afinal, de Paulinho da Costa, artista carioca que esteve presente nos maiores sucessos da música mundial a partir dos anos 1970 diretamente dos Estados Unidos — nos mais requisitados estúdios de Los Angeles —, trabalhando como músico de estúdio de diversos artistas, como os já citados Michael Jackson, Madonna e Earth, Wind & Fire, assim como Ella Fitzgerald, Elton John, Eric Clapton e Bob Dylan. A lista é extensa, colaborando com 972* artistas diferentes, em mais de 6 mil* gravações. Os projetos em que atuou ganharam 59* Grammys (com 161* indicações no total), principal premiação da indústria fonográfica. Não apenas na música, mas Paulinho ainda fez 350* trilhas de filmes e séries de TV, como Dirty Dancing: Ritmo Quente (1987), Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (1993) e A Cor Púrpura (1985). Não à toa que o Rei do Pop considerava o brasileiro como o maior percussionista do mundo.
*Segundo dados oficiais do artista e o documentário The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa
De volta ao país natal e tendo sua trajetória recontada no documentário The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, de Oscar Rodrigues Alves (que esteve na conversa com o mestre do som), na Netflix, o artista participou do Rolling Stone Talks by Johnnie Walker, na Aya Earth Partners, em São Paulo, para recordar momentos-chave de sua carreira — desde o começo em uma sessão reveladora com Dizzy Gillespie até sua relação com Michael Jackson, relembrando ainda sobre o dia em que falou um “não” para Stevie Wonder. Fatos estes o fizeram ser considerado um dos mais — se não o mais — importantes percussionistas da história da música. Ele ganhará estrela na Calçada da Fama (será o primeiro brasileiro nato a conquistar este feito), em Hollywood, em maio deste ano.
Paulinho, você saiu do Rio de Janeiro para se tornar um dos profissionais mais requisitados em gravações da história. Como percebeu que a sua linguagem brasileira poderia dialogar com o mercado internacional?
Paulinho da Costa: Olha, o calor que os Estados Unidos, o povo e os músicos americanos me deram quando eu cheguei lá me trouxe uma coragem enorme de participar desse mundo da música e poder chegar aonde chegamos. Sempre tive muito respeito pelo horário e uma responsabilidade muito grande de mostrar a nossa terra, de sempre imprimir aquele sabor nosso nos trabalhos em Los Angeles e nos Estados Unidos. Isso me deixou muito feliz em saber que eu, vindo de Irajá, poderia trazer esse carinho nosso, o tempero da nossa música.
‹‹Ouvindo a melodia, eu sei onde está o coração do cantor e a hora em que eu posso não entrar no caminho dele››
Como você entendeu estas referências do molho brasileiro?
PC: Minha esposa [Arice da Costa], me mostrou um pouquinho deste sabor. Ela me deu um disco do Quincy Jones, Gula Matari (1970), anos atrás quando a gente era jovem aqui no Brasil. E por coincidência nós fomos aos Estados Unidos.
Que energia essa moça tem, hein? Pelo amor de Deus.
PC: Não é incrível? Se eu não tomar cuidado, põe de castigo. Mas eu só tenho a agradecer à minha esposa por ter ajudado a gente a chegar tão longe.
Seu documentário, The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, já é um sucesso…
PC: Oscar é uma pessoa que, como você viu no filme, queria aquilo. E eu fiquei surpreso porque nunca passou pela minha cabeça que pessoas como ele, com o talento que ele tem, da família, de onde veio, tivesse esse interesse — descobri que toda a família dele é muito musical, e ele é um grande percussionista. Além do valor de ser um grande diretor, uma pessoa que conhece a fundo o que é dirigir um filme: o que não pode fazer — como, por exemplo, não deixar a pessoa sentada muito tempo e fazer um longa que passe rápido e não canse. E eu não confiava no projeto. E ele falou: “Não, não, deixa que eu sou seu fã. Vamos nessa! Eu quero”.
Oscar R. Alves: E lá se foram seis anos.
PC: Seis anos nessa brincadeira, entendeu? Porque muitos outros queriam fazer o filme comigo e eu dizia: “Solta o cachorro nesse cara”. Eu pensava que isso nunca poderia ser feito, mas tenho que agradecê-lo, porque nos convenceu e fizemos esse trabalho.
Oscar, como você foi picado e mergulhou de cabeça nesse projeto?
OR: Bom, sou fã do Paulinho desde que eu tinha, na verdade, nove para dez anos. Quando entrei numa loja de disco, comprei um álbum do Earth, Wind & Fire, olhei o encarte do disco e lá estava “Paulinho da Costa, percussion”. Eu falei: “Português que esse cara não é, né?” Já saquei ele. Toquei a vida inteira como percussionista, talvez eu seja um diretor de filme.
PC: O filme é OK, mas como percussionista é bom [risos].
OR: E daí eu fiz o filme dos Titãs [Titãs – A Vida até Parece uma Festa], em 2009. Quando acabou o projeto, já comecei a pensar no próximo. Sempre tive muita vontade de filmar o Paulinho, apesar de todo mundo me dizer que era um filme impossível de ser feito por conta dos direitos autorais de todos os hits que ele tocou, mas não acreditei que seria impossível e arrumei um parceiro incrível, que é o Alan Terpins. Passei uma lábia na Arice — a coisa mais importante de tudo isso.
PC: Eu tudo bem, mas Arice aceitar…
OR: Em 2013 fizemos uma coisinha lá no show do Quincy que você foi, e daí em 2015 começamos efetivamente a filmar. Há 11 anos.
‹‹É importante apoiar a nossa gente. É nossa obrigação. E esse trabalho que fazemos aqui com vocês vai ajudar muito os nossos músicos, povo que precisa disso››

Há 11 anos você vem colhendo, estudando e redesenhando para chegar nesse resultado. Parabéns pela sua persistência! Vamos seguir aqui: quero falar de sua participação em Off the Wall, famosíssimo disco de Michael Jackson, que ajudou a definir o som do pop moderno. O que a percussão brasileira acrescentou naquele groove histórico?
PC: Olha, a percussão brasileira acrescentou muito ali. Sempre adorei o trabalho do Michael. Convivi com ele, uma pessoa maravilhosa para minha família e dentro da música. Adoro e confiei muito no trabalho dele, e ele confiava muito no que eu poderia fazer pelo trabalho dele. Fiquei contente de ser aceito por uma pessoa tão exigente, porque ele exigia muito dos ritmos e da maneira que ele dançava. Ele se tornou um grande amigo nosso, como a maioria dos artistas com os quais colaborei.
Quincy Jones também te colocou no núcleo criativo dele. Um Papa da produção mundial.
OR: Antes de Off the Wall, você já trabalhava com os Jacksons 5. Antes do Quincy trabalhar com Michael, Paulinho já tinha feito três álbuns com os Jacksons.
PC: Que são álbuns maravilhosos. E vocês não sabiam que tinha a nossa raiz ali por baixo. Conheci o Michael vindo do Havaí, para onde nós íamos todos os anos desde que cheguei em Los Angeles. Por sorte minha, no outro dia já estamos indo fazer um show enorme — e essas são histórias que não deram para colocar no filme, que é muita coisa — com Sérgio Mendes, e eu fiz um solo. Parou tudo. A igreja começou a aplaudir de pé e não parava. Tive que tocar outra vez. Já no segundo dia estávamos indo para o Japão, e na volta paramos no Havaí. Entrei no avião, estou sentado e uma pessoa vem conversar comigo. Era o Michael Jackson. Ele falou: “Você pode tocar no nosso próximo disco?” E foi assim que começou a nossa relação. Quincy veio depois.
E o Stevie Wonder? Conte a história de quando você disse “não” a ele.
PC: Vou contar o negócio para você. Conheci Stevie Wonder e, só depois, tive mais intimidade com ele, mas eu realmente não participei do Songs in the Key of Life (1976). Já conhecia o projeto, gostaria de ter participado, mas como eu não estava em Los Angeles no momento, não fiz parte desse trabalho maravilhoso, mas é uma história sensacional. Depois tive a oportunidade de ir a um ensaio dele, convidado por um grande amigo e pianista que está no nosso documentário, que se chama Greg Phillinganes. Nos conhecemos trabalhando com Quincy. O Greg falou: “Olha, Paulinho, o Stevie está ensaiando, eu gostaria que você viesse. Vou lá e a direção do Stevie achou que queria fazer parte da banda. le me dá um abraço e diz: “Paulinho, você já está trabalhando com a gente, you got the gig!” Falei no ouvido dele: “Eu não tô podendo ficar nessa gig! Já estou em outra”. Ele não gostou que falei não para ele. Você dar um não para Stevie Wonder é perigoso. Ele ficou meio aborrecido, mas passou um tempo e nos tornamos grandes amigos. Trabalhamos em outros projetos. Quando vou a certos concertos dele, que ele sabe que estou presente, ele fala meu nome alto. É uma pessoa maravilhosa.
Ao longo das décadas, você esteve em gravações que venderam milhões de cópias. Como você enxerga o papel do músico de estúdio na construção da história da música pop?
PC: O nosso papel na história é ir lá e fazer o melhor possível. Colocar o seu coração nas músicas, pensar positivo e estar contente de que você contribuiu para que essas canções chegassem num grande sucesso. Eu não poderia nunca imaginar que iria ser parte de algo que se tornaria tão grandioso.
OR: Queria dar meu testemunho aqui dos produtores que eu entrevistei ao longo desse filme. Normalmente, o percussionista é o último a gravar para pôr uma cerejinha no bolo. O Paulinho, em vez de pôr a cerejinha, fazia o bolo voltar para o forno. No caso de “Serpentine Fire”, do Earth, Wind & Fire, você colocou um cowbell, que o Verdine White disse que fez a música.
PC: Vou falar um pouquinho disso aí — espero que eu não esteja tomando muito tempo. Earth, Wind & Fire é um grupo que eu sempre ouvi muito, tenho bastante respeito pela história deles. De onde eles são, Chicago, naquela época não tinha chance para [gente de] cor negra. Então o Maurice White conseguiu abrir essa porta e fazer discos que não tinham limite de gastos — isso era impossível naquele momento. Vou ao estúdio e ele diz: “Paulinho, eu gostaria que você ouvisse”. Estavam todos eles sentados, me olhando. Eu, carioca, entrando naquele meio, com respeito danado por eles, e eles aplaudiram. “Então você ouve isso aqui e vê o que acha”. Eu falei: “Olha, eu já sei o que eu vou tocar nessa música para vocês”. Naquela época eu tocava muita colher, mas tinha uma colher especial vermelhinha, mais larga, que tem um som sensacional. Eu peguei essa colherzinha, toquei a música. Já gravamos e veio a “Serpentine Fire”, que depois me chamaram: “Paulinho, falta alguma coisa nessa música?” Peguei um cowbell africano, que tem diferentes notas — o raio, o agudo, o grave —, e usei a barriga para fazer a diferença de som, sem saber que esse ritmo virou o que fez a canção, a espinha dorsal dela. Aí depois disso virou uma bola de neve, eu tinha que fazer tudo com eles.
OR: No final da década de 1970, os processos eram muito mais tranquilos e longos do que hoje em dia, né? Um disco era gravado em dois, três meses. O pessoal do Earth, Wind & Fire diz que eles gravavam quase tudo no começo da sessão, principalmente os músicos de base, e o Paulinho gravaria em dois meses. Depois disso, eles iam todos de volta pro estúdio para ver o que esse cara ia fazer e no que ia transformar a música.
PC: Incrível. Eu acho que nós fizemos história, porque eu fui um momento especial da vida deles. É um momento especial para a nossa vida também. Então pedi para eles participarem do documentário. Todos eles aceitaram, menos o Maurice White, que é uma pessoa que estaria no nosso documentário pela história. E seria uma maravilha se estivesse.
Paulinho, os anos 1980 foram anos marcados pela bateria eletrônica, e você entrava no estúdio com cuíca, pandeiro… Como é que era esse contraste, essa luta pela raiz?
PC: Na minha visão, nos Estados Unidos naquela época, tinham muitos outros percussionistas latinos no mercado, outros mais clássicos. Só que, na minha visão, eu pensava: “Se eu for entrar nesse mercado, tenho que trazer a nossa raiz: um pandeiro, uma cuíquinha”. Eu vou fazer um negócio com o sentimento deles, mas com a nossa raiz. Aquele detalhe da música do Michael; não é fazer um solo de cuíca, é botar uma pimentinha. Aí não incomoda.
OR: Isso é muito legal no filme também. A gente pegou algumas faixas importantes que o Paulinho participou e filmou ele tocando os mesmos instrumentos. Pouca gente sabe o que é percussão, ou tem uma noção parcial. Na hora que você vê o Paulinho tocando “All Night Long (All Night)”, um shakerzinho só…
PC: É um detalhe e essa é a história [risos].
Muitos artistas falam sobre a sua capacidade de criar texturas rítmicas únicas. Seu processo começa pela escuta da melodia ou pelo diálogo com o baixista e baterista? Começa com você entrando na alma do negócio e você vai sentindo?
PC: Você já pegou tudo, mas te falo um detalhezinho. A primeira coisa que faço é ouvir a melodia. Ouvindo, sei onde está o coração do cantor e a hora em que posso não entrar no caminho dele. Claro, tem momentos que ele respira e jogo um negócio ali. Se está falando algo que representa eu dar um som, um tamborzinho, porque o sentimento tá lá dentro. Mas tá aberto, tem um espaço.
‹‹Michael Jackson falou: ‘Você pode tocar no nosso próximo disco?’ E foi assim que começou a nossa relação››

É o que você fala: não tocar pode ser uma poderosa forma de tocar. Achar aquele silêncio naquele momento.
PC: Alguns silêncios são importantes. Eles vão pensar: “Poxa, ele poderia fazer um barulho aqui, mas deixou”. Acho o respeito essencial. É claro que tem que ouvir o baixista e o baterista. Não entrar no caminho deles e procurar uma maneira que faça um timbrezinho da base. É isso o que eu sinto, não é que todos tem que fazer da maneira que eu faço.
Você se sente como um embaixador cultural brasileiro?
PC: Cara, eu sinto que sou um embaixador brasileiro, porque todo o artista que vai aos Estados Unidos me convida. Se eu for citar nomes, vamos ficar aqui horas e horas. Por exemplo, João Bosco é uma pessoa que adoro muito; ele vai tocar e faço questão de estar lá, então o apoio. Por quê? É uma obrigação minha apoiar os nossos artistas, mas também os que chegam nos Estados Unidos, que são famosos, pelos quais tenho um grande respeito. Acho muito importante a gente apoiar o nosso povo. É nossa obrigação. E esse trabalho que fazemos aqui com vocês vai ajudar muito os nossos músicos, povo que precisa disso.
Qual foi a sessão de estúdio que representou um divisor de águas na sua carreira internacional? Alguma coisa que você lembra com uma saudade gostosa daquele momento.
PC: Por incrível que pareça, esse momento foi quando eu gravei com Dizzy Gillespie, um músico famoso, que está lá em cima olhando e protegendo a gente. Ele me convidou para tocar no disco dele, Bahiana (1976), um álbum bem aberto, bem jazz, no qual você precisava tocar direito. O produtor dele, um cara muito importante na nossa vida e no jazz, abriu a porta para Ella Fitzgerald. Nas palavras dele, para me convidar para o projeto: “Olha, a gravação amanhã, não é das 9h da manhã ao meio-dia. É 10h”. Aí falei: “Pô, esse cara tá sério”. Quando ele chegou lá no estúdio, eu e Dizzy já tínhamos tocado duas músicas e ele entrou dançando. Bem no começo da minha carreira solo. Tem outros grandes momentos, mas foi esse que abriu as portas.
Que conselho você daria a jovens músicos brasileiros que sonham em construir uma carreira internacional?
PC: O que posso dar do meu coração é que eles tenham responsabilidade, cheguem na hora e procurem acreditar no valor que eles têm. Não se preocupe em impressionar ninguém. Acredite.
Rolling Stone Brasil – Edição impressa com Paulinho da Costa
“O Paulinho da Costa é a esquina do jazz e da música pop”, conta Oscar Rodrigues Alves (oragram), diretor do documentário “The Groove Under The Groove: Os Sons de Paulinho da Costa”, disponível apenas na Netflix.
Em encontro ao vivo com nosso publisher, Luis Maluf, na Aya Earth Partners, o percussionista foi o homenageado no primeiro Rolling Stone Talks by Johnnie Walker; em maio, o artista terá seu nome gravado na Calçada da Fama, em Hollywood.
A conversa está nesta edição da Rolling Stone Brasil, já nas bancas (físicas e digitais). Link para banca digital aqui.
Entrevista: Luis Maluf
Foto: Pedro Dimitrow
Direção de arte: Felipe Fiuza
Styling: Rafael Lazzini
Beleza: Natália de Almeida
Produção: Marley Galvão
Assistentes de Fotografia: Ademir Fernandes e Gustavo Develey
Tratamento de imagem: Helena Lopes
Agenciamento Dimitrow: Viviane Arnaldi
Coordenação Dimitrow: Adriana Rocha
Agradecimento: Aya Earth Partners
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