ARTIGO

Love Story: A Casa de Todas as Casas

Livro sobre a Love Story resgata a história da icônica boate paulistana e revela como liberdade, excessos e diversidade transformaram a casa em um fenômeno cultural irrepetível

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

Love Story A Casa de Todas as Casas (Foto: Fernando Sigma)

Poucos lugares conseguiram condensar, em uma pista de dança, tantas camadas da vida urbana quanto a boate Love Story. Tema do livro Love Story – A Casa de Todas as Casas, escrito por Katia Simões e Roberto Prioste, a lendária casa noturna paulistana ressurge como objeto de investigação jornalística e memória afetiva, em uma obra que mistura depoimentos, pesquisa histórica e narrativa quase cinematográfica.

A ideia do livro partiu de fora: foi o empresário Luiz Paulo Foguetti, frequentador assíduo e apaixonado pelo lugar, quem procurou os jornalistas Katia e Roberto para contar essa história. O que começou como uma sugestão rapidamente se revelou um projeto maior. “Desde o começo, achamos que tínhamos uma bela história nas mãos”, lembra Katia. A confirmação veio com as primeiras conversas com João de Freitas, o “tio João”, figura central da narrativa e espécie de alma da casa.

A partir daí, os autores mergulharam em um processo típico de grande reportagem: cerca de 30 entrevistados, 40 sessões de conversa e mais de 25 horas de depoimentos. Cruzar memórias, checar informações e reconstruir um período exigiu método — e também sensibilidade. “É um trabalho de apuração rigorosa, mas com atenção aos relatos humanos, aos detalhes que dão vida à narrativa”, explica Roberto.

Definido como uma “biografia não autorizada”, o livro assume desde o início seus riscos e limites. Nem todas as histórias puderam ser plenamente verificadas, e alguns personagens preferiram o silêncio. Ainda assim, os autores optaram por manter certos relatos, conscientes de que a memória da noite também é feita de lacunas e versões. “Se limpássemos tudo, estaríamos mascarando o cenário”, afirma Roberto.

Esse cenário, aliás, é um dos grandes trunfos do livro. Dividida entre “Boca do Lixo” e “Boca do Luxo”, a narrativa acompanha não só a trajetória da boate, mas também a transformação do centro de São Paulo. Da repressão policial às zonas de meretrício nos anos 1960 à sofisticação (e posterior decadência) das casas noturnas, a Love Story surge como um microcosmo da cidade. “Era um recorte de um retrato maior”, diz Katia.

Mais do que um ponto de encontro, a casa se destacou por uma convivência rara: artistas, executivos, prostitutas, policiais e boêmios dividiam o mesmo espaço. Sem dress code social ou hierarquias explícitas, a Love Story operava sob uma espécie de “ética da noite”, um pacto tácito de anonimato e respeito. “Todos se misturavam e se respeitavam”, resume Roberto.

Love Story A Casa de Todas as Casas (Divulgação)

Essa diversidade, no entanto, nunca é romantizada. O livro registra também excessos, episódios violentos e histórias que beiram o inacreditável. O equilíbrio entre fascínio e distanciamento jornalístico foi uma escolha consciente. “Nem moralismo, nem glamourização”, define Katia.

A linguagem acompanha essa proposta. Gírias e expressões da época são preservadas, mesmo quando soam datadas ou problemáticas hoje. A decisão busca manter a autenticidade de um tempo em que a liberdade se expressava também pela fala — ainda que com contradições.

Se há um fio condutor, ele passa inevitavelmente por tio João. Sua trajetória, que mistura carisma, intuição e improvisação, ajuda a explicar o sucesso da casa. Foi ele quem entendeu, antes de muitos, o potencial de transformar a Love Story em um “after” da cidade, atraindo trabalhadores da noite e criando um ambiente onde todos eram bem-vindos. “Ir ao Love era quase um estado de espírito”, resume Roberto.

Ao final da pesquisa, um dos mitos mais persistentes é relativizado: a ideia de que a casa era apenas um prostíbulo. Sem quartos ou programas formalizados, o que existia ali era outra lógica — mais próxima da sedução, do jogo social, da conquista. Um espaço ambíguo, difícil de enquadrar.

Talvez por isso mesmo, irrepetível. Para os autores, um lugar como a Love Story dificilmente existiria hoje. A vigilância constante, a exposição das redes sociais e as mudanças nos hábitos de convivência transformaram radicalmente a noite. “Vivemos um eterno Big Brother”, diz Katia.

O livro, então, funciona como registro de algo que desapareceu — não apenas uma boate, mas uma forma de viver a cidade. Entre neon, música alta e histórias que oscilam entre o trágico e o cômico, a Love Story permanece como memória coletiva. Um tempo em que a noite era território de encontro, risco e liberdade.

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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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