ENTREVISTA

RM sobre o significado da vida e mais: “Eu tento expressar coisas universais”

Em nossa entrevista de capa, o líder do BTS se aprofunda em entender a identidade de sua banda, a música que ama e em “lutar contra demônios”

BRIAN HIATT

RM, do BTS
RM, do BTS (Foto: Pak Bae)

Desde o começo, o BTS nunca foi exatamente como outros grupos de idols na Coreia do Sul, e seu líder foi um grande motivo para isso. RM, nascido Kim Namjoon, era um adolescente estudioso cuja única rebeldia era “ir para a rua e fazer rap” quando assinou com a BigHit Music, que eventualmente construiu o BTS ao seu redor. Suas raízes no underground e seus instintos voltados ao alternativo se realizam de forma mais plena em seus álbuns solo, Indigo e Right Place, Wrong Person, mas ele também puxa a música do grupo para direções mais ousadas — sua faixa favorita do Arirang é “FYA”, em parte porque contou com JPEGMafia como coautor, com produtores incluindo Diplo e Flume. Em entrevista à Rolling Stone, RM não se contém, em parte porque está pensando na posteridade. “Acho que esta revista e esta entrevista com você são apenas mais um registro”, diz ele, sentado na sede da Hybe em Seul, Coreia do Sul, em meados de fevereiro, “então posso voltar a isso quando tiver, tipo, 50 anos.” (Para ler a matéria de capa em grupo sobre o BTS, clique aqui.)

Você é uma contradição ambulante, porque seus gostos são alternativos e, ainda assim, você é o líder da maior banda do mundo, fazendo ótimo pop para as massas.
Acho que essa contradição é a minha crise, mas, ao mesmo tempo… esses dois lados estão em mim. Eu ouço música pop. Eu amo… eu sempre acompanho as paradas. Às vezes, quando não quero usar muito o cérebro, simplesmente procuro o Top 50 Global e escuto. Mas, às vezes, sinto: “Cara, isso não é suficiente. Eu preciso ir mais fundo.”

É muito interessante ouvir seus álbuns solo — parece o tipo de música que você teria feito se nunca tivesse existido um BTS. É interessante para mim que você consiga chegar a esse lugar mentalmente como artista.
Quando todo mundo está dizendo “sim”, eu realmente quero dizer “não”. Quando eu estava fazendo BTS, eu amava, mas também odiava algumas coisas, claro. E eu simplesmente não conseguia negar todos esses sentimentos. Mas acho que eu sabia o que mostrar para as pessoas e o que apenas esconder e transformar em um álbum. Quando voltei como solo, pensei: “Cara, eu tenho que fazer isso. Tenho que dizer isso, porque se são sete [membros], eu tenho que cumprir meu papel.” Às vezes preciso ser gentil porque muitas crianças estão nos assistindo, mas eu comecei a fazer música nas ruas, fazendo rap. E simplesmente não consigo resistir a isso. Às vezes sinto que só quero fazer essa m*rda… Então, quando se trata de projetos solo… posso me expressar talvez sem pensar em questões econômicas.

Posso fazer uma música com Little Simz, Moses Sumney. São artistas incríveis… Realmente tentei quebrar as barreiras. Raspei todo o cabelo. Tentei não usar maquiagem. E todos aqueles sons e artistas alternativos. Foi um desafio muito bom e aprendi muito, o que me ajudou bastante quando voltei para as sessões em LA no ano passado para este álbum.

Em 2022, você disse a Pharrell Williams que ainda amava música, mas que talvez amasse mais as artes visuais. Você voltou atrás nisso? Como foi essa jornada para você?
Acho que a música está sempre lá. É a raiz, e às vezes você simplesmente não consegue resistir quando uma música que você ama começa a tocar e você não consegue evitar dançar ou balançar a cabeça. E acho que a arte visual, às vezes, exige mais bagagem, treinamento e coisas mais intelectuais. No serviço militar, ouvi muitos álbuns. Acho que estou mais apaixonado por música agora, talvez… O álbum do Dijon foi ótimo. No Spotify Wrapped, eu conferi — acho que ouvi o álbum do Dijon por mais de 500 minutos.

Você deixou claro que os singles que o BTS lançou em 2020 e 2021 te deixaram confuso sobre qual era a identidade do grupo.
Acho que ainda não sei. Acho que um músico deve falar com sua música… Acho que ainda estou muito confuso porque pensei que, no serviço militar, talvez quando tudo acabasse e todos voltássemos… então talvez houvesse algum tipo de consenso muito preciso e claro com o qual todos pudéssemos nos identificar, mas isso não foi exatamente verdade. Essas 14 faixas podem ser um tipo de — ainda está nebuloso, mas pode ser uma resposta para as pessoas que se perguntam: “O que é o BTS em 2026?” Neste álbum, tento expressar mais coisas universais — como amor, dor, nostalgia. Acho que ainda estou nisso, expandindo experiências pessoais em emoções e sentimentos universais.

Você já pensou em escrever um livro?
Já pensei, sim. Mas, quanto mais você lê livros, mais eu acho que não consigo, porque há muitos textos e escritores incríveis no mundo. Eu me sinto tímido demais quando tento escrever algo. Então escrevo diários. Às vezes escrevo ensaios bobos. Talvez anos depois, se eu mudar de ideia, talvez eu possa juntar tudo e revisar. Mas acho que escrever um livro me parece mais assustador do que fazer um álbum.

Que tipo de coisas você faz para sair da sua cabeça?
Acho que caminhar é ótimo, porque quando você anda e vê as paisagens, seu corpo físico realmente está se movendo. Então você simplesmente deixa isso acontecer. Isso me ajuda a me acalmar, e talvez eu consiga deixar o estresse e todos aqueles pensamentos irem embora e olhar para o céu. Mas Instagram, YouTube, Netflix — eles acabam tomando meu tempo.

O serviço militar não foi fácil para você. Você ainda está se recuperando psicologicamente? Como isso está indo?
Acho que saí bastante disso, se chamarmos de uma caverna… Já se passaram oito meses e acho que estou bem agora, mas às vezes, quando tento dormir e isso aparece, [eu digo a mim mesmo]: “Ah, cara, esquece. Acabou. Não estou mais no exército”. Mas essa experiência de chegar ao fundo do poço, psicologicamente, na verdade, me ajudou. Agora estou dormindo na minha cama. Estou bem. Acho que essa é a grande autoterapia.

Essa experiência mudou o que você quer da vida como pessoa?
Eu sempre quero viver o presente. O agora. É só que há tantas coisas em 2026 que estão distraindo você e eu de viver o agora. Pensamos, quando olhamos os Reels e todos esses Shorts, que estamos vivendo o presente, mas eles só continuam me distraindo. Então eu realmente sinto falta das épocas em que eu apenas caminhava na chuva e pensava em tudo.

Acho que aqueles foram os momentos em que eu realmente vivi o presente. Realmente não quero pensar no passado e no futuro porque eles são apenas fantasia, mas é muito difícil simplesmente focar onde você está agora… Sempre tento, às vezes, simplesmente deixar o telefone de lado e talvez ler livros. Eu me esforço para não pensar no passado [ou no] futuro, porque o futuro nunca chega.

Você esteve naquele lugar psicológico sombrio e saiu dele. Não foi para sempre. O que você diria a um fã que se sente assim agora?
Eu saí disso — da crise que tive no ano passado por causa de todos aqueles ambientes em que estive. Saí disso fisicamente, mas, mentalmente, apenas admito essa tristeza essencial. Não sei como isso se chama, mas ela está sempre lá em alguma parte do meu coração. Acho que ainda estou no meio do processo de descobrir quem eu sou. Talvez eu seja sensível demais, [mais] do que os outros… Ou penso demais.

Às vezes não consigo dormir. Mas quero morrer? Não. Tento amar a vida. Fazer caminhadas, bons amigos, bebidas, música, [esta] entrevista. Ainda luto contra demônios, e acho que talvez isso possa ser para sempre, e “para sempre” é tempo demais, como eu disse. Só quero dizer uma coisa: simplesmente, em resumo, acho que a vida é divertida… não porque estou no BTS ou sou uma estrela sob os holofotes. Acho que simplesmente — a vida é divertida e viver é melhor.

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CRÉDITOS DE PRODUÇÃO E FIGURINO
Styling por YEJIN KIM. Cabelo por HANSOM, HWAYEON e HYUNWOO LEE. Maquiagem por DAREUM KIM e SHINAE.
Design de cenário por YEABYUL JEON. Produzido por NUHANA. Produtor executivo SOOH HWANG. Produtores SEBIN PARK e KALY NGO. Produtora de linha: CHERRY LEE. Técnica digital HUIJIN KIM. Assistência fotográfica SOOJUNG OH, MINHYUK LEE, MINJUN KIM, JIHYUN OH, JUWAN KANG e JUNHYUNG YANG. Equipe de design de cenário SOHYUN WON, YUNSEON CHOI, JUNHYUK SIM.
ROUPAS
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