O fã que gravou mais de 10 mil shows agora os disponibiliza gratuitamente na internet
Aadam Jacobs começou com um gravador de bolso em um show do Nirvana, em 1989, e passou quatro décadas documentando a cena indie e punk de Chicago; o acervo inclui R.E.M., The Cure, Pixies e Björk
Kadu Soares (@soareskaa)
Em 8 de julho de 1989, um jovem de 22 anos chamado Aadam Jacobs entrou em uma pequena casa de shows em Chicago com um gravador Sony no bolso. No palco, um quarteto de Seattle se apresentava pela primeira vez na cidade. “Olá, somos o Nirvana. Somos de Seattle”, disse Kurt Cobain antes de a banda explodir em “School”. Jacobs gravou tudo, mais de dois anos antes de Nevermind (1991) mudar o rock para sempre. Esse foi apenas um dos mais de 10 mil shows que ele registraria ao longo de quatro décadas. Agora, todo esse material está disponível gratuitamente no Internet Archive.
A Aadam Jacobs Collection é um acervo extraordinário para fãs de rock alternativo, punk e indie das décadas de 1980 a 2000. As gravações incluem apresentações do início de carreira de R.E.M., The Cure, The Pixies, The Replacements, Depeche Mode, Stereolab, Sonic Youth, Björk e Tracy Chapman. Há também uma apresentação inédita do Phish, de 1990, que nunca havia circulado antes. Além disso, existe uma gravação de Boogie Down Productions, de 1988, que registra os primórdios do hip hop, e centenas de artistas menores que dificilmente apareceriam em qualquer outro arquivo histórico.
Jacobs começou a gravar shows em 1984, aos 17 anos, com um Dictaphone, dispositivo de gravação de áudio, emprestado da avó. Com o tempo, foi trocando os equipamentos: fita cassete, DAT, gravadores digitais, e se tornou uma figura conhecida nos clubes de Chicago, onde muitos donos de casas de show passaram a deixá-lo entrar de graça. Após um documentário sobre a coleção, em 2023, um voluntário do Internet Archive o convenceu a digitalizar os registros antes que as fitas se deteriorassem. Desde o fim de 2024, o voluntário Brian Emerick viaja mensalmente até a casa de Jacobs para buscar caixas com 50 a 100 fitas cada. Elas são transferidas em tempo real para arquivos digitais por uma rede de colaboradores nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha. Até agora, cerca de 5.500 fitas foram digitalizadas, e o processo deve levar mais alguns anos.
A qualidade surpreende até os próprios voluntários. Neil deMause, um dos engenheiros de som do projeto baseado em Brooklyn, disse, em entrevista à Associeted Press, que a fidelidade de muitas gravações é impressionante, considerando que Jacobs usava microfones baratos e equipamentos primitivos. “Especialmente a partir dos primeiros anos, ele estava tão calibrado que algumas dessas gravações em fitinhas cassete do início dos anos 90 soam incríveis”, afirmou. Um dos achados mais celebrados foi uma gravação de James Brown, de 1984. The Replacements ficaram tão satisfeitos com a fita de um show de 1986 que a incorporaram a um lançamento oficial, em 2023.
Jacobs, hoje com 59 anos, parou de frequentar shows há alguns anos por problemas de saúde. Mas o legado que construiu acabou preservando uma fatia irreplicável da história do rock. “Minha paixão é documentar algo que não seria documentado de outra forma”, disse ele ao Chicago Reader, em 2004.
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