RESENHA

The Lumineers e sua catártica festa folk

Duo estadunidense fez única apresentação em São Paulo com a turnê The Automatic World Tour e transformaram o Suhai Music Hall em um rito coletivo

Felipe Fiuza (@fiuzzzaaa)

The Lumineers e sua catártica festa folk (Foto/Crédito: Stephan Solon)

Às vezes me pergunto se um show é algo em que só assistimos ou de fato habitamos. O The Lumineers caminha exatamente entre isso há mais de uma década, e na apresentação do último sábado (25), a banda equilibrou o estar e o habitar e ainda o transformou em mais um de seus instrumentos.

Wesley Schultz e Jeremiah Fraites, fundadores do grupo, conhecem muito bem seu público e quase cirurgicamente conduzem toda a apresentação com segurança características, inclusive em um momento (para o frenesi geral) no qual Wesley desce do palco e caminha entre as pessoas causando uma sincronia de celulares levantados para filmar de perto o músico.

O folk não é um estilo muito apreciado por aqui, o que refletiu em uma casa parcialmente cheia, com muito espaço para não se sentir sufocado, ao mesmo tempo perto o suficiente do palco para poder enxergar a banda sem esforço, mas ainda assim uma boa parcela dos presentes cantaram e ovacionaram muito a apresentação de abertura que ficou a cargo de Rafael Witt, que foi convidado pelo próprio The Lumineers a participar dos três shows em solo brasileiro após uma comoção do cantor pelas redes sociais. Rafael foi acompanhado pelo percussionista Kabé Pinheiro e o sanfoneiro Vito, que fizeram uma versão inusitada de “Lose Yourself”, do Eminem, no ponto alto do show.

Voltando a banda principal da noite, o público realmente é parte do The Lumineers; “Flowers In Your Hair”, “Angela” e “Ho Hey” provaram isso logo na primeira parte da apresentação, com a plateia tomando pra si as canções e quase tornando o grupo coadjuvante do próprio espetáculo.

A noite contou ainda com hits que passearam por toda a discografia da banda, como “Big Parade”, “A.M. Radio”, “Gale Song” e “Donna”, dos álbuns The Lumineers (2012), Brightside (2022), Cleopatra (2016) e III (2019), respectivamente, além de seis músicas do disco mais recente, Automatic (2025): “Asshole”, “Ativan”, “Automatic”, “Same Old Song”, “So Long” e “You’re All I Got”, e claro, os sucessos “Stubborn Love” e “Cleopatra”.

Um dos elementos mais interessantes do show é a dança constante dos músicos. Instrumentos mudando de mãos, posições sendo reorganizadas, a sensação é a de que todos ali poderiam tocar tudo, como se a banda se recusasse a se fixar em papéis rígidos e criando uma ideia de coletividade, enquanto constroem essa linha entre o grupo e o público, em uma fórmula que desenvolvem desde as primeiras apresentações, com um clímax que chega sempre na hora certa e os silêncios milimetricamente posicionados.

The Lumineers é uma banda, acima de tudo, consistente e inteligente, que viu nessa fórmula das apresentações se tornarem um encontro, a chance de sempre levarem o melhor espetáculo para os fãs, mesmo que raramente surpreenda. A banda segue cumprindo o que promete, sem se arriscar e inevitavemente sem errar, o que pode ser bom ou tornar a experência de vê-los ao vivo cada vez mais previsível.

Setlist do show de São Paulo:

  1. Same Old Song
  2. Flowers in Your Hair
  3. Angela
  4. You’re All I Got
  5. A.M. RADIO
  6. Asshole
  7. Gale Song
  8. Donna
  9. Ho Hey
  10. Dead Sea
  11. Brightside
  12. Sleep on the Floor
  13. Gloria
  14. Where We Are
  15. Ativan
  16. Charlie Boy
  17. Leader of the Landslide
  18. Slow It Down
  19. Automatic
  20. Ophelia
  21. Big Parade
  22. My Eyes
  23. So Long
  24. Cleopatra
  25. Stubborn Love

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Designer Gráfico, Diretor de Arte e ilustrador. Louco por música e arte, está na Rolling Stone Brasil desde 2021.
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