A fabulosa simplicidade crua do Bad Religion em show em São Paulo
Em tempos de megaespetáculos visuais em palcos gigantescos, o punk rock ácido e afiado de Greg Graffin e cia. prova que, às vezes, menos é mais
Felipe Fiuza (@fiuzzzaaa)
Há uma beleza inegável em ser bombardeado por imagens em telões de LED, fogos de artifício e arquiteturas impossíveis nas apresentações de hoje. Ainda assim, me pergunto se tais subterfúgios não nos distraem do verdadeiro motivo de irmos a um show da banda de que gostamos. Não me entenda mal: sou apaixonado pelo Iron Maiden e seus mini-mundos construídos no palco, com o bonecão do Eddie passeando por ali. O que me pega é que alguns artistas abusam desses efeitos, tornando-os mais muletas do que extensões do que querem comunicar. O que definitivamente não é o caso do Bad Religion.
A banda, liderada pelo vocalista Greg Graffin, formado em Antropologia e Geologia, com PhD em Zoologia e professor na UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles), subiu ao palco do Espaço Unimed, na capital paulista, na última terça, 28 e, com o perdão do trocadilho, deu uma aula de punk rock.
Quem conhece o Bad Religion sabe que, para eles, o essencial é a mensagem e, quanto menos distrações, melhor. Por isso, no palco, ao lado de Graffin, estão apenas Brian Baker (guitarra), Jay Bentley (baixo), Mike Dimkich (guitarra) e Jamie Miller (bateria). O único elemento não essencial é um telão de LED com o logo da banda e, às vezes, o nome das músicas.
De fato, se você os encontrar na padaria, diria que são professores, administradores ou contadores e não integrantes de uma das maiores bandas de punk da história. Entre salas de aula e palcos pelo mundo, o Bad Religion nunca perdeu sua essência crítica e ácida e segue com o mesmo tempero sonoro que é sua marca registrada: punk rock cru, letras políticas e cadências que flutuam em um caos organizado, com solos cirurgicamente inseridos em um petardo musical inconfundível.
O show em São Paulo começou com “Recipe for Hate”, seguida por “Them and Us”, “Los Angeles Is Burning” e “Do What You Want”, com quase nenhum respiro entre elas. Como era de se esperar, a apresentação passeou por quase todos os álbuns da banda, com destaques para “21st Century (Digital Boy)”, “No Control”, “Struck a Nerve” e “Infected”. Apesar dos pedidos da plateia, os californianos não tocaram “Generator”, mas compensaram com “A Walk”, “You”, “Sorrow” e, como de costume, “American Jesus” para encerrar.
No fim das contas, o que Bad Religion entrega não é apenas um show, mas um lembrete. Em meio a uma indústria cada vez mais pautada pelo impacto visual e pela grandiosidade, a banda prova que a força de uma apresentação ainda pode residir no básico bem executado: som, mensagem e presença. Sem firulas, excessos, ou distrações. Apenas cinco músicos, um repertório sólido e a urgência de quem ainda tem algo a dizer. E talvez seja justamente essa recusa em se apoiar no supérfluo que torne tudo tão potente: quando sobra só o essencial, não há para onde fugir, nem para a banda, nem para o público.
Setlist do show do Bad Religion São Paulo
1. Recipe for Hate
2. Them and Us
3. Los Angeles Is Burning
4. Do What You Want
5. 21st Century (Digital Boy)
6. The Streets of America
7. Fuck You
8. I Want to Conquer the World
9. Come Join Us
10. End of History
11. True North
12. Atomic Garden
13. We’re Only Gonna Die
14. No Control
15. Struck a Nerve
16. Suffer
17. Punk Rock Song
18. Infected
19. A Walk
20. You
21. Anesthesia
Bis:
22. Fuck Armageddon… This Is Hell
23. Sorrow
24. American Jesus