As 5 melhores adaptações de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, segundo Rolling Stone
Rolling Stone Brasil reuniu as melhores adaptações da obra de Emily Brontë sem usar a fidelidade ao material original como critério principal, mas sim observando como cada narrativa funciona dentro de sua própria coerência dramática
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
O Morro dos Ventos Uivantes, obra clássica de Emily Brontë, já teve diversas adaptações para o cinema e para a TV e, em breve, ganhará mais uma, dessa vez dirigida por Emerald Fennell (Saltburn) e estrelada por Margot Robbie (Barbie) e Jacob Elordi (Frankenstein).
Rolling Stone Brasil reuniu as cinco melhores adaptações sem usar a fidelidade ao original como critério principal, mas sim observando como cada narrativa funciona dentro de sua própria coerência dramática, ainda que considere os ecos da obra de Brontë. O que fica claro é que cada versão tem seus prós e contras em relação ao livro; nesse ranking, o mais importante é o que cada uma delas possui de melhor. Confira a seguir, do 5º ao 1º lugar, quais são elas:
5. O Morro dos Ventos Uivantes (2009)
A versão de O Morro dos Ventos Uivantes é a única de nossa lista feita para a TV. Dirigida por Coky Giedroyc e roteirizada por Peter Bowker, a produção aposta no formato de minissérie em dois episódios para desenvolver com mais fôlego a tragédia concebida por Emily Brontë. Essa estrutura permite que a narrativa explore melhor a infância de Heathcliff — vivido por um Tom Hardy convincente —, suas feridas de classe e a construção da relação obsessiva com Catherine Earnshaw (Charlotte Riley), sem a necessidade de condensar tantos acontecimentos quanto as adaptações cinematográficas costumam fazer. Ainda que simplifique algumas camadas do romance, a produção encontra equilíbrio entre o tom gótico e o melodrama romântico, resultando em uma leitura mais acessível, pensada também para o público televisivo.
Grande parte da força dramática da minissérie repousa na química entre Tom Hardy e Charlotte Riley. O Heathcliff de Hardy é físico, intenso e emocionalmente brutal, ressaltando o ressentimento e a violência do personagem sem perder sua dimensão trágica, enquanto Riley constrói uma Cathy dividida entre convenções sociais e paixão destrutiva. A adaptação não é das mais fiéis nem das mais estilisticamente ousadas, mas se sustenta pela solidez das atuações e pela condução dramática de estilo clássico, funcionando bem como uma porta de entrada para a história ou ainda como uma versão que privilegia a potência emocional dos personagens dentro de sua própria coerência narrativa.

4. Arashi ga oka (1988)
A versão japonesa de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Yoshishige Yoshida, é uma das mais livres e também mais singulares — e por isso merece um lugar na lista. Em vez de transpor a história literalmente, o filme a reimagina no Japão feudal, incorporando códigos do teatro Noh e do imaginário espiritual japonês para recriar a tragédia de Heathcliff e Cathy sob outra lente cultural. A ambientação rural, marcada por paisagens enevoadas, ventos constantes e uma atmosfera quase fantasmagórica, dialoga diretamente com o espírito gótico do romance, ainda que por meio de símbolos e silêncios muito próprios da tradição estética japonesa.
Mais do que fidelidade narrativa, Arashi ga oka busca equivalência emocional e simbólica. A relação central é tratada como uma paixão condenada que transcende o mundo material, aproximando-se da ideia de amor amaldiçoado, algo reforçado pelo uso de elementos sobrenaturais e pela encenação estilizada. O resultado é uma obra contemplativa, por vezes hermética, mas visualmente poderosa e até brutal e carnal em vários momentos, que transforma o drama de Brontë em uma experiência sensorial e culturalmente deslocada — menos preocupada em contar a mesma história e mais interessada em capturar sua essência trágica em outra mitologia.

3. Escravos do Amor — no original Abismos de Pasión (1954)
Um típico melodrama mexicano. Essa versão dirigida por Luis Buñuel (O Anjo Exterminador) e lançada em 1954, é uma das mais autorais e menos ortodoxas de O Morro dos Ventos Uivantes. Produzido no México, o filme transporta a tragédia concebida por Emily Brontë para o ambiente de uma fazenda, substituindo os ermos ingleses por uma paisagem igualmente isolada e emocionalmente opressiva. Buñuel condensa a narrativa e elimina grande parte da estrutura geracional do romance, concentrando-se no eixo obsessivo que envolve os equivalentes de Heathcliff, Cathy e Edgar. Essa escolha reduz a amplitude da história, mas intensifica seu caráter febril, priorizando a pulsão destrutiva dos personagens.
Fiel ao seu estilo, o cineasta injeta doses de erotismo reprimido, simbolismo religioso e um clima onírico que aproxima a trama de um pesadelo romântico. As atuações de Jorge Mistral e Irasema Dilián acompanham esse tom exacerbado, entregando personagens movidos por desejo, ressentimento e autodestruição. Por muito tempo visto como uma curiosidade dentro da filmografia de Buñuel, o longa foi posteriormente reavaliado como uma releitura ousada, que troca fidelidade literária por força estética, transformando a paixão trágica do original em uma experiência visceral e profundamente cinematográfica.

2. O Morro dos Ventos Uivantes (2011)
A versão de O Morro dos Ventos Uivantes dirigida por Andrea Arnold (American Honey), lançada em 2011, é frequentemente lembrada como uma das adaptações mais sensoriais do romance de Emily Brontë. Longe do romantismo gótico clássico que marcou leituras anteriores, Arnold opta por uma abordagem crua e imersiva, filmada com câmera na mão, luz natural e forte ênfase na materialidade da paisagem. Essa força estética se traduz também no reconhecimento técnico: o filme venceu o prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Veneza. Os ermos de Yorkshire deixam de ser apenas pano de fundo e passam a funcionar como extensão emocional dos personagens, em uma encenação que privilegia texturas, silêncios e a violência cotidiana do ambiente rural.
A narrativa concentra-se sobretudo na infância e adolescência dos dois, deixando os desdobramentos posteriores em segundo plano, decisão que reforça o caráter formativo e traumático dessa relação. Outro ponto de ruptura está na escalação de James Howson como Heathcliff na fase adulta, retomando a descrição racializada do personagem presente no livro, algo raramente explorado em adaptações anteriores. Essa escolha reforça a dimensão de exclusão social e brutalidade que molda sua trajetória, deslocando a narrativa do campo do romance trágico para um estudo mais áspero sobre marginalização, desejo e ressentimento. Com diálogos mínimos e atmosfera quase sufocante, o filme divide opiniões: para alguns, é uma releitura hipnótica e fiel ao espírito sombrio da obra; para outros, excessivamente austera. De todo modo, figura em nossa lista no 2º lugar, como uma das interpretações mais autorais já feitas do clássico.

1. O Morro dos Ventos Uivantes (1939)
A versão de O Morro dos Ventos Uivantes lançada em 1939, dirigida por William Wyler (Ben-Hur), é possivelmente a adaptação mais icônica e aquela que ajudou a consolidar o romance de Emily Brontë no imaginário do público. O filme inaugurou uma tendência que seria repetida por outras leituras: contar apenas a primeira metade da história, encerrando-se com a morte de Cathy e abrindo mão de toda a segunda parte centrada na vingança de Heathcliff. Essa decisão rendeu críticas de quem considerava a narrativa “afinada” demais pela exclusão do desdobramento geracional, mas também contribuiu para transformar a obra em um grande romance trágico de amor impossível, mais direto e emocionalmente acessível ao público da época.
Estrelado por Laurence Olivier e Merle Oberon, o longa — que recebeu 8 indicações ao Oscar — se sustenta pela força de seus protagonistas e pelo apuro técnico típico da Era de Ouro de Hollywood. A fotografia em preto e branco — vencedora do Oscar —, aliada à trilha e à encenação elegante de Wyler, constrói uma atmosfera fantasmagórica estilizada que se tornaria referência para adaptações posteriores. Embora tenha perdido o prêmio principal no Oscar para …E o Vento Levou, esta leitura permanece como uma das mais celebradas do período, frequentemente apontada como a melhor versão hollywoodiana do clássico de Brontë — menos interessada na crueldade psicológica do romance e mais em eternizar Heathcliff e Cathy como amantes míticos do cinema. Não à toa, merece o 1º lugar de nossa lista.

LEIA TAMBÉM: 13 filmes para assistir antes de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, segundo Emerald Fennell