CONTROVÉRSIA

Agência de atores de IA planeja ‘universo digital’ para criar ‘novos talentos’ em 2026

O estúdio polêmico, que está por trás da atriz de IA Tilly Norwood, preocupa sindicato de atores dos EUA

Gabriela Nangino (@gabinangino)

'Atriz virtual' criada por inteligência artificial (Foto: Reprodução/Instagram)

A agência por trás da primeira atriz totalmente gerada por inteligência artificial, Tilly Norwood, está expandindo seus negócios. Nesta segunda, 2 de março, o controverso estúdio de IA Xicoia anunciou que tem planos de criar um “universo digital dinâmico e em constante evolução, onde Tilly e uma nova geração de personagens de IA viverão, colaborarão e construirão suas carreiras”.

Quando Tilly foi apresentada ao público, o estúdio declarou sua intenção ousada de transformar a personagem digital em uma “estrela”. “Queremos que Tilly seja a próxima Scarlett Johansson ou Natalie Portman”, afirmou Eline Van der Velden, fundadora da Xicoia. O anúncio causou reações negativas de várias figuras de Hollywood, assim como do sindicato SAG-AFTRA (Screen Actors Guild – American Federation of Television and Radio Artists).

Agora, o estúdio Xicoia revelou que está contratando Mark Whelan, da Amazon Prime Video, como chefe de estratégia e operações do projeto. Segundo a Variety, eles planejam criar o chamado “Tillyverse” até o final de 2026. A empresa também visa “construir propriedade intelectual em grande escala e redefinir a forma como o talento é criado, desenvolvido e vivenciado na era da IA”.

Tilly Norwood não é apenas uma personagem de IA — ela é uma personalidade, uma marca e uma futura superestrela global com uma narrativa envolvente”, disse Van Der Velden. “Mark nos ajudará a criar e moldar cada camada do seu mundo, desde seu humor, vida cotidiana e escolhas de carreira até a forma como ela interage com os fãs em diversas plataformas. Tudo promete ser ousado, divertido, um pouco caótico — e impossível de ignorar.”

Whelan adicionou: “Tilly já tem o impulso, o público e a faísca cultural. Agora estamos escrevendo sua história e construindo seu universo. É uma enorme responsabilidade — mas incrivelmente empolgante. Acho que o mundo vai se divertir muito assistindo ao que acontece a seguir.”

A resistência dos artistas

Após o surgimento da IA Tilly, Emily Blunt (O Diabo Veste Prada) foi uma das atrizes que conversou com a Variety sobre o assunto. “Isso é uma IA? Meu Deus, estamos perdidos. Isso é realmente assustador. Vamos lá, agências, não façam isso. Por favor, parem. Por favor, parem de nos privar da conexão humana”, opinou.

Natasha Lyonne (Orange Is The New Black), que está atualmente trabalhando com tecnologias de IA licenciadas em conjunto com atores reais, também criticou a iniciativa. “Qualquer agência de talentos que se envolva nisso deveria ser boicotada por todos os sindicatos. Profundamente equivocada e totalmente perturbadora.”

O SAG-AFTRA reforçou a gravidade da situação, especialmente após a greve de Hollywood ocorrida em 2023.

Tilly não é uma atriz, é uma personagem gerada por um programa de computador treinado com o trabalho de inúmeros artistas profissionais — sem permissão ou compensação”, afirmou o sindicato. “Isso não resolve nenhum ‘problema’ – cria o problema de usar performances roubadas para deixar atores desempregados, colocando em risco o sustento dos artistas e desvalorizando o talento artístico humano”.

Em resposta, Van Der Velden afirmou que os atores de IA não são “substitutos para um ser humano, mas uma obra criativa – uma obra de arte”. Confira a declaração completa da empresária aqui.

O anúncio de expansão da Xicoia ocorreu um dia após o Actor Awards, organizado pelo SAG-AFTRA. Durante a premiação, o atual presidente Sean Astin (O Senhor dos Anéis) afirmou que o sindicato está de volta às negociações com a AMPTP, associação que representa as produtoras de televisão e cinema nos EUA. Segundo o ator, proteger os atores frente ao surgimento de ferramentas de IA é uma das prioridades do sindicato neste momento (via Época).

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Jornalista em formação pela Universidade de São Paulo, Gabriela é mineira e apaixonada por arte e cultura. Ela também já foi dançarina e seu principal hobbie é conhecer todos os cinemas de rua de SP. Foi estagiária no Jornal da USP e, na Rolling Stone Brasil, fala sobre música, filmes e séries.
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