'NÃO É ACEITÁVEL'

Ashley Judd critica representação feminina em ‘Fogo contra Fogo’

A atriz afirma que o filme de 1995, mesmo que com uma abordagem “problemática”, é uma “representação da sociedade”

Giovana Laurelli (@gii_laurelli)

Ashley Judd (Foto: Arturo Holmes/Getty Images)
Ashley Judd (Foto: Arturo Holmes/Getty Images)

Em entrevista à revista americana Vulture, Ashley Judd refletiu sobre seu papel em Fogo contra Fogo e a representação das personagens femininas no filme. Atualmente na jornada de reassistir todos os seus trabalhos com o marido, a atriz percebeu uma abordagem machista à sua personagem no clássico policial de 1995.

“A representação das mulheres neste filme não é aceitável”, afirmou Judd sobre o thriller de Michael Mann. “Eu analiso todos os meus filmes dessa maneira.” Aos 57 anos, a atriz explicou que revê seus papéis sob uma nova perspectiva, analisando especialmente a representação das mulheres e às maneiras como elas refletem a misoginia internalizada. 

A crítica da atriz se estende a outros trabalhos de sua carreira. Quando fãs dizem que Beijos que Matam, seu thriller de 1997, é o filme favorito deles, a atriz responde com uma provocação. “Eu digo: ‘Vamos conversar sobre isso’, porque violência sexual masculina e tortura masculina de mulheres não é entretenimento, e é sobre isso que aquele filme trata”, explicou. “Chamar isso de ‘resiliência’ em vez de abordar a desigualdade estrutural que causou o dano em primeiro lugar, todos nós estamos implicados nisso.”

Judd também defende que, na época, o machismo internalizado era um grande fator para a representação negativa de mulheres na indústria. Sobre Beijos que Matam, a atriz relembrou: “Sherry Lansing foi a primeira mulher a chefiar um estúdio desde Mary Pickford, e defendeu um final mais violento para aquele filme. Tudo isso está internalizado. Todos nós fazemos parte disso. Não estou dizendo que não faço, porque concordei com essas coisas, e hoje não concordaria. É uma parte importante do comentário feito 30 anos depois.”

A atriz também mencionou A Verdadeira História de Marilyn Monroe (1996), telefilme no qual há uma cena em uma piscina do Roosevelt Hotel onde ela tira o maiô e seu parceiro de cena, Josh Charles, não faz o mesmo. “Uau, eu não faria isso hoje, e eu questionaria todo mundo sobre isso. Ele deveria ter tirado o maiô dele também, ou ambos deveríamos ter mantido os maiôs. Não é aceitável”, afirmou Judd.

Apesar das críticas contundentes, Judd deixou claro que não está arrependida de ter participado de Fogo contra Fogo. “Eu adorei fazer parte do filme. E ainda estou feliz por ter feito parte deste filme, e acho que é icônico”, afirmou a atriz.

“É um reflexo da realidade, e a realidade é problemática”, acrescentou Judd. “Dizer que o filme é problemático não é colocar a responsabilidade e o foco onde ele está, que é na realidade da qual é um reflexo. Observação e crítica é o que estou oferecendo.”

No filme, Judd interpretou Charlene Shiherlis, personagem casada com Chris Shiherlis, personagem de Val Kilmer. Um criminoso de carreira, a atriz descreveu o relacionamento dos personagens fadado ao fracasso como “Romeu e Julieta, só que ao contrário, não é?”.

A atriz recordou uma cena crucial próxima ao final do filme, onde Charlene e Chris se despedem sem palavras, enquanto ela faz a escolha de última hora de não o entregar à polícia. “Estou dando liberdade a ele. Eu me distanciei de nós para esta cena”, compartilhou sobre trabalhar com Kilmer, que faleceu em abril de 2025. “Uma vez que Val e eu terminamos as outras cenas, não nos conectamos novamente, o que pode ter, de alguma forma, contribuído para a sensação de finalidade deste momento, e a saudade.”

Além de Judd e Kilmer, Fogo contra Fogo era estrelado por Robert De Niro, Al Pacino, Jon Voight, Tom Sizemore e Natalie Portman. Desde o sucesso de 1995, Judd participou de filmes como Frida (2002), Divergente (2014) e Risco Duplo (1999). A atriz também ganhou destaque como ativista, denunciando Harvey Weinstein e trabalhando com organizações como a YouthAid Foundation, o Centro Internacional de Pesquisa sobre Mulheres e as Nações Unidas.

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Jornalista em formação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Giovana é apaixonada por música, filmes e a intersecção entre cultura e política. Já foi bailarina e canta em bandas de soul, rock e pop desde a pré-adolescência. É editora de Cultura e Entretenimento no Jornal Contraponto, veículo laboratorial impresso da PUC-SP. Na Rolling Stone, escreve sobre música, cinema e cultura pop.
TAGS: Ashley Judd, Fogo contra Fogo, Val Kilmer