ENTREVISTA

‘Quem vence no final é o desejo’: diretores de ‘Ato Noturno’ falam sobre thriller erótico queer

Longa protagonizado pelo estreante Gabriel Faryas e por Cirillo Luna chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 15

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

'Quem vence no final é o desejo' diretores de 'Ato Noturno' falam sobre sexo, poder e risco (Divulgação/Vitrine Filmes)

Ato Noturno, novo longa escrito e dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, responsáveis por Tinta Bruta (2018), estreia nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira, dia 15 de janeiro. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, os diretores falam sobre os caminhos estéticos e políticos do longa que dialoga com o noir e o suspense erótico para construir uma narrativa atravessada por desejo, performance e vigilância. Ao longo da conversa, a dupla comenta o processo de “tropicalização” do gênero, a virada para um cinema mais estilizado, o trabalho colaborativo com os atores Gabriel FaryasCirillo Luna (Reis) e a decisão de tratar o desejo não como punição, mas como força capaz de desestabilizar estruturas de poder. Confira a seguir:

Ao ser questionado sobre referências para construir algo profundamente atravessado pelo Brasil contemporâneo, Filipe Matzembacher revela que a relação com esses gêneros nasce da cinefilia, mas também da necessidade de deslocá-los a partir da própria subjetividade. “É um gênero que a gente ama, que é muito importante para a nossa formação, mas era fundamental pensar essas referências através do olhar da nossa individualidade”, explica. Para ele, o contexto brasileiro dialoga de forma quase natural com esse imaginário. “É uma sociedade que lida com desejo, com violência, com corrupção. Parece uma sociedade feita para se conectar com esse tipo de narrativa.”

‘Quem vence no final é o desejo’: diretores de ‘Ato Noturno’ falam sobre thriller erótico queer (Divulgação/Vulcana Filmes)

Essa aproximação, no entanto, vem acompanhada de uma decisão ética e política clara. Filipe aponta que, nos thrillers eróticos clássicos, o desejo costuma ser punido ao final — algo que os diretores fizeram questão de inverter. “Mesmo o desejo sendo central nesses filmes, muitas vezes ele é castigado. Para a gente, enquanto pessoas LGBTs, era muito importante que o desejo não fosse punido”, afirma. Em Ato Noturno, essa pulsão deixa de ser condenada para se tornar força transformadora. “A gente queria construir uma narrativa que dialogasse com esse cinema, mas em que, no final, quem vencesse fosse o desejo.”

No longa, o corpo, elemento recorrente no cinema da dupla, volta a ocupar o centro da cena. Marcio lembra que desde os primeiros curtas o interesse está em filmar corpos em movimento. “Seja pela dança, pelo sexo, pela violência ou pela performance, isso sempre esteve presente”, diz. Em Ato Noturno, essa pesquisa se intensifica e ganha novas formas. “Ela aparece tanto nas cenas de sexo quanto nas cenas de violência coreografada e na performance teatral”, completa.

Depois de quase dez anos de colaboração da dupla em longas-metragens, Marcio Reolon responde se Ato Noturno é o projeto mais ambicioso da parceria até aqui. “É o nosso maior projeto em termos de estrutura e ele caminha numa direção diferente de tudo o que a gente tinha feito antes”, diz. Se os filmes anteriores se apoiavam em uma abordagem mais naturalista, agora a dupla assume um cinema mais estilizado e performático. “A gente dá um passo grande para uma linguagem mais estetizada”, afirma Marcio, ressaltando que essa escolha também carrega um grau de risco. “Existe uma ousadia em explorar um caminho que a gente ainda não tinha percorrido.”

‘Quem vence no final é o desejo’: diretores de ‘Ato Noturno’ falam sobre thriller erótico queer (Divulgação/Vulcana Filmes)

O olhar — e o ato de observar — ocupa um lugar central nessa nova proposta estética. Filipe destaca que o voyeurismo é inerente ao próprio cinema e que Ato Noturno se apropria disso de forma consciente.

O espectador é convidado a observar, desejar, sentir repulsa, participar da dinâmica dos personagens

Desde o início, o filme estabelece um jogo direto com quem está na sala. “Os personagens quase dão boas-vindas ao espectador e entram nesse jogo de olhar”, diz ele. Em vários momentos, essa relação se torna ambígua. “Nunca fica totalmente claro se quem observa é outro personagem ou o próprio espectador, sentado ali sentindo medo e prazer ao mesmo tempo.”

‘Quem vence no final é o desejo’: diretores de ‘Ato Noturno’ falam sobre thriller erótico queer (Divulgação/Vulcana Filmes)

Essa lógica performática se estende ao trabalho com os atores. De acordo Filipe, o filme foi pensado como um grande palco, em que cidade, espaços, iluminação e trilha participam da encenação. “Tudo reflete essa ideia de palco e coxia, e isso obviamente chega à atuação”, afirma. Apesar de um roteiro bastante estruturado, o processo foi marcado pela colaboração. Marcio reforça que essa abertura vem da formação teatral da dupla. “A gente gosta de processos mais horizontais, de pensar junto com os atores como esses personagens vão existir”, explica. Não por acaso, Gabriel Faryas definiu seu papel como um trabalho “a seis mãos” ao vencer o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio.

Os diretores foram questionados se a escolha de um político como um dos protagonistas era uma provocação direta. Marcio explica que a intenção era aproximar duas profissões atravessadas pela performance pública. “Tanto o ator quanto o político precisam performar o tempo inteiro, vender uma imagem e conquistar aprovação social”, afirma. Para ele, o interesse não está em apontar figuras reais, mas em explorar esse espelhamento. “O diálogo entre essas duas profissões era muito mais interessante do que qualquer referência direta a casos específicos.”

Ambientado em Porto Alegre, os cineastas são indagados se a história poderia se passar em outras cidades brasileiras. Marcio afirma que a história é universal, mas que a capital gaúcha oferece uma textura específica. “É uma cidade que a gente conhece profundamente, onde dá para perceber o crescimento do conservadorismo, a força da especulação imobiliária, do empresariado — que são, de certa forma, os grandes vilões do filme.” Para ele, Porto Alegre funciona quase como uma femme fatale. “Ela seduz, mas também representa perigo.”

‘Quem vence no final é o desejo’: diretores de ‘Ato Noturno’ falam sobre thriller erótico queer (Divulgação/Vulcana Filmes)

Filipe e Marcio também são convidados a comentar sobre as cenas de sexo em espaços públicos que parecem cumprir um papel simbólico dentro da narrativa. Marcio rejeita a ideia de provocação gratuita ou de exposição de um submundo. “O sexo nesses espaços aparece mais como afirmação de um desejo suprimido”, explica. “São personagens que escondem algo muito íntimo, mas que têm uma vontade enorme de viver essa intimidade de forma pública.

Essa abordagem se conecta a outra escolha narrativa importante: Ato Noturno parece menos interessado no ato sexual em si e mais no que acontece antes e depois dele. Perguntamos à dupla se isso estava claro desde o início ou foi se transformando durante as filmagens. “O que nos interessava era o entorno, o risco, a possibilidade de ser pego”, afirma Marcio. Diferente do realismo cru de Tinta Bruta, aqui o sexo é mais estilizado. “Esse filme tem outro tom, então as cenas de sexo precisavam dialogar com isso.”

Ao refletir se o risco que atravessa Ato Noturno nasce muito mais das escolhas dos próprios personagens do que de uma ameaça externa, Marcio é direto: “Seria ingênuo achar que eles podem ser cúmplices do sistema”, afirma. Para ele, os personagens tentam suprimir seus desejos para pertencer a estruturas de poder que jamais os aceitarão plenamente. “Eles vão ser usados e descartados na primeira oportunidade.

‘Quem vence no final é o desejo’: diretores de ‘Ato Noturno’ falam sobre thriller erótico queer (Divulgação/Vulcana Filmes)

Ao longo do filme, o desejo se revela não apenas como força íntima, mas também social e política. Tanto Marcio quanto Filipe concordam que não há interesse em filmá-lo de forma neutra. “Se é possível filmar o desejo sem essas camadas, eu não sei”, diz Filipe. “Mas a gente não se interessa em fazer isso.” Marcio complementa ao destacar a dimensão coletiva do prazer. “O desejo pode desestabilizar o sistema, e por isso ele é tão suprimido. Ele é uma ferramenta central no cinema que a gente faz.

O longa teve sua estreia no Festival de Berlim, posteriormente circulou por festivais internacionais, e, já no Brasil, conquistou quatro prêmios no Festival do Rio. Agora, Ato Noturno chega agora ao circuito comercial brasileiro e, para Filipe, esse é o momento mais aguardado pela equipe. “É quando o filme finalmente encontra um público mais amplo”, diz. A expectativa é que o espectador viva uma experiência que una prazer e reflexão.

É um filme que mistura desejo, tesão e suspense, mas que também convida a pensar sobre a sociedade em que a gente vive.” A participação na Vitrine Petrobras, com ingressos a preços populares, reforça esse desejo de acesso. “Isso facilita muito que o filme chegue a mais pessoas”, conclui.

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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. Paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1. Pisciano, mas não acredita em astrologia. São-paulino, pai de pet e cinéfilo obcecado por listas e rankings.
TAGS: Ato Noturno, Cirillo Luna, Filipe Matzembacher, Gabriel Faryas, Marcio Reolon