ADAPTAÇÃO POLÊMICA

Emerald Fennell defende mudanças na sua versão de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’

Diretora afirma que condensar o romance gótico em um longa exigiu cortes, fusões de personagens e alterações no final

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

Emerald Fennell defende mudanças na sua versão de 'O Morro dos Ventos Uivantes' (Divulgação/Warner bros.)

A cineasta e roteirista Emerald Fennell (Saltburn) comentou as liberdades criativas tomadas em sua adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, clássico de Emily Brontë. Ciente de que o filme apresenta diferenças significativas em relação ao romance original, Fennell afirmou que as mudanças foram necessárias para transformar uma narrativa complexa em uma obra cinematográfica coesa.

Segundo a diretora, sua relação com o livro começou ainda na adolescência, mas o processo de adaptação partiu mais de suas memórias e sensações do que de uma transposição literal. “Quis fazer algo que fosse minha resposta e interpretação do livro e do sentimento dele”, explicou. Ao revisitar a história, percebeu que lembrava de elementos reais misturados a impressões pessoais, o que influenciou o roteiro.

A adaptação, estrelada por Margot Robbie (Barbie) como Catherine e Jacob Elordi (Frankenstein) como Heathcliff, concentra-se principalmente na primeira metade do romance — fase que explora a relação intensa e destrutiva entre os dois protagonistas. Para Fennell, esse recorte faz sentido porque é justamente o núcleo emocional que mais marcou releituras culturais da obra, de canções a ilustrações contemporâneas.

O texto a seguir contém spoilers da nova adaptação do livro

Cortes e fusões de personagens

Ao optar por um longa — e não uma minissérie —, a diretora diz que precisou “tomar decisões difíceis” sobre o que manter. Personagens importantes foram removidos ou condensados, como o Sr. Lockwood, vizinho que funciona como narrador indireto no livro, e Hindley, irmão de Catherine.

Parte dessas funções dramáticas foi incorporada ao pai da família, Earnshaw, cujo papel ganha muito mais destaque no filme. Interpretado por Martin Clunes, o personagem surge como figura complexa, marcada pelo alcoolismo — simultaneamente afetuoso e abusivo — e com impacto direto na formação emocional de Cathy e Heathcliff, criados como “quase irmãos”.

A escolha também reforça o caráter transgressor da relação central. “Há muito no livro — e no filme — que é complicado, sombrio e difícil. É por isso que ainda se discute se é ou não uma história de amor”, afirmou Fennell. Para ela, sem dúvida é, embora nada saudável.

Mudanças no desfecho

As alterações não se limitam à estrutura e aos personagens. O final também foi significativamente modificado. Na versão da diretora, Catherine perde o filho que teria com Edgar e não recebe a visita de Heathcliff antes de morrer — encontro que ocorre no romance.

Em vez disso, ela fala com ele em estado febril, numa espécie de delírio, sem que ele esteja realmente presente. A decisão, segundo Fennell, é tanto estrutural quanto temática: reforça a ideia de que o casal está sempre desencontrado.

A cineasta explica que condensou diferentes encontros e discursos do livro, além de antecipar momentos de afeto para dar mais tempo dramático à relação antes da tragédia.

Um amor cíclico

Outra mudança marcante é a ausência do famoso elemento sobrenatural do romance. O filme termina com a morte de Catherine e não mostra seu retorno como fantasma chamando por Heathcliff.

Para Fennell, o encerramento escolhido preserva melhor o sentimento central da obra. “Começa onde termina e termina onde começa. O amor é cíclico — mesmo quando há um fim trágico, não é realmente um fim”, explicou.

A diretora afirma que buscou traduzir a profundidade emocional da história mais do que sua literalidade narrativa. “É sobre a intensidade do sentimento humano, algo que existe de forma profunda — não apenas física. Esse parecia o final certo para mim.”

Qual é a história de O Morro dos Ventos Uivantes?

O Morro dos Ventos Uivantes se passa na região de Yorkshire e acompanha o envolvimento de duas famílias, os Earnshaw e os Linton, a partir da perspectiva do Sr. Lockwood, inquilino da propriedade Thrushcross Grange. Ao ouvir a narrativa de Nelly Dean, governanta da família Earnshaw, ele descobre a conturbada história de amor entre Heathcliff, um órfão adotado, e Catherine Earnshaw.

A obra de Emily Brontë já teve diversas versões para o cinema e a televisão. A maioria das adaptações escalou atores brancos para interpretar Heathcliff — personagem que muitos estudiosos da obra interpretam como racializado ou pardo — incluindo Tom Hardy (Venom), Ralph Fiennes (Conclave), Timothy Dalton (007 – Marcado para a Morte) e Laurence Olivier (Hamlet). Apenas o filme de 2011, dirigido por Andrea Arnold, teve um ator negro no papel: James Howson. Assista ao trailer:

Rolling Stone x Bad Bunny

PRÉ-VENDA! O artista mais ouvido no Spotify e vencedor do álbum internacional do ano segundo a Rolling Stone Brasil, Bad Bunny estreia nos palcos nacionais com a sua “Debí Tirar Más Fotos World Tour”.

Criamos um dossiê sobre a carreira de Benito Antonio Martinez Ocasio, artista que aponta suas bandeiras para a unificação da América em música, atitude e vibe. Nesta edição especial impressa, a lista das 50 melhores canções do porto-riquenho, entrevista exclusiva histórica, análises do Halftime Show do Super Bowl e das apresentações em São Paulo.

“A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, nos ensino Benito.

Exemplar em pré-venda. Garanta o seu!

Fonte: EW

LEIA TAMBÉM: As 5 melhores adaptações de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, segundo Rolling Stone

Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
TAGS: Emerald Fennel, Jacob Elordi, Margot Robbie, o morro dos ventos uivantes