Em Emilia Pérez, todos os caminhos levam ao mesmo destino
Longa com Karla Sofía Gascón, Zoë Saldaña e Selena Gomez conquistou 13 indicações ao Oscar 2025, mas chega à premiação desgastado por polêmicas
Henrique Nascimento (@hc_nascimento)
Publicado em 03/10/2024, às 18h00 - Atualizado em 01/03/2025, às 01h30
Destaque no Festival de Cannes do ano passado, de onde saiu premiado e com a promessa de um futuro brilhante na temporada de premiações, Emilia Pérez conquistou 13 indicações ao Oscar 2025, mas chega à 97ª edição da maior premiação do cinema desgatado por polêmicas envolvendo, principalmente, a sua protagonista, Karla Sofía Gascón (Rebelde), e o diretor, Jacques Audiard(Ferrugem e Osso).
Não é difícil entender o frenesi em torno do longa. Com ares de dramalhão mexicano, o musical entrelaça as histórias de dois desconhecidos, que vêm de realidades diferentes, mas se encontram em seus anseios de um futuro melhor: Manitas del Monte (Gascón), que deseja abandonar a vida que construiu como líder de um cartel de drogas e pai de família, para se tornar uma mulher, como sempre sonhou; e Rita Moro Castro (Zoë Saldaña, Avatar: O Caminho da Água), uma advogada desprestigiada, seduzida pela oportunidade de mudar a própria vida ao ajudar o traficante.
Mesmo receosa, Rita aceita o trabalho. Selado o acordo, cabe a Manitas renunciar ao que lhe resta de seu passado, incluindo aqueles que ama, ou perder a vida, para a infelicidade ou a morte, que lhe assombram há anos. Para a advogada, fica a responsabilidade de resolver todo o resto, em uma urgência sentida pelo espectador através da narrativa acelerada do primeiro ato do longa.
Não demora muito e logo nasce Emilia Pérez, com um efeito cascateante, que reverbera não apenas em Rita — que realmente consegue mudar de vida —, mas também em outras duas mulheres: Jessi (Selena Gomez, Only Murders in the Building), viúva de Manitas, que passa a viver com Emilia, através de uma mentira, quando a mulher se prova incapaz de viver longe da família; e Epifanía (Adriana Paz, Vis a Vis), que se aproxima de benevolente mulher quando ela, decidida a buscar redenção por seu passado obscuro, inicia uma organização sem fim lucrativos para encontrar pessoas desaparecidas.
Emília Pérez inicia, então, jornadas de autodescobrimento de cada uma dessas mulheres: Emilia luta para descobrir o que quer da vida, agora que conseguiu o que sempre sonhou; Rita procura entender o que é ter tudo e não ter nada ao mesmo tempo; Jessi deseja, na figura de outro homem, interpretado por Edgar Ramírez (Wasp Network: Rede de Espiões), reencontrar a felicidade que tinha antes de perder o grande amor de sua vida; e Epifanía quer saber o que é viver sem medo, e amar e ser amada.
Tudo isso é embalado pela música presente no longa, que está incrustada na narrativa de Emília Pérez. Além de reforçarem os significados e potencializarem o que está sendo dito, as canções também intimidam, impactam, instigam, constrangem, desconcertam e comovem, em diferentes momentos. É um musical, mas que foge das tradicionalidades de clássicos como Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001), Chicago (2002) ou Os Miseráveis (2012), e se assemelha a produções mais recentes, como Annette (2021) e Carmen (2022), em que a música apenas se faz necessária para preencher lacunas.
Emilia Pérez não traz, simplesmente, uma discussão sobre transgeneridade e a busca por uma versão ideal do ser humano; mas também a busca pelo entendimento de que, embora o seu exterior esteja diferente, isso não significa que o seu interior também mudou — e essa é uma questão que precisa ser resolvida.
Por mais que as mudanças físicas de Emilia representem, para ela, uma nova chance para viver, ela percebe — tarde demais — que, para que isso acontecesse, não poderia ter matado Manitas dentro de si. Talvez, se tivesse tentando conhecê-lo, sem o peso de viver em um corpo que não lhe pertencia, o seu destino pudesse ser diferente daquele que, provavelmente, já estava reservado ao seu antigo eu. Infelizmente, não é.
Especial de cinema da Rolling Stone Brasil
O cinema é tema do novo especial impresso da Rolling Stone Brasil. Em uma revista dedicada aos amantes da sétima arte, entrevistamos Francis Ford Coppola, que chega aos 85 anos em meio ao lançamento de seu novo filme, Megalópolis, empreitada ousada e milionária financiada por ele próprio.
Inabalável diante das reações controversas à novidade, que demorou cerca de 40 anos para sair do papel, o cineasta defende a ousadia de ser criativo da indústria do cinema e abre, em bom português, a influência do Brasil em seu novo filme: “Alegria”.
O especial ainda traz conversas com Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello sobre Ainda Estou Aqui, um bate-papo sobre trilhas sonoras com o maestro João Carlos Martins, uma lista exclusiva com os 100 melhores filmes da história (50 nacionais, 50 internacionais), outra lista com as 101 maiores trilhas da história do cinema, um esquenta para o Oscar 2025 e o radar de lançamentos de Globoplay, Globo Filmes, O2 Play e O2 Filmes para os próximos meses.
O especial de cinema da Rolling Stone Brasil já está nas bancas de jornal, mas também pode ser comprado na loja da editora Perfil por R$ 29,90. Confira:
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