CRÍTICA

‘Extermínio: O Templo dos Ossos’ esquece os zumbis e foca na loucura entre os homens

No novo capítulo da franquia zumbi, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (15), a maior ameaça não são os infectados e, sim, a desumanidade nas relações entre os sobreviventes

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

'Extermínio O Templo dos Ossos' esquece os zumbis e foca na loucura entre os homens (Divulgação/Sony Pictures Brasil)

Um dos grandes méritos do reboot da franquia Extermínio, programada para ganhar uma nova trilogia, é mostrar ao público que o cinema de zumbis — ou de infectados — ainda pode ser relevante. Após anos preso a fórmulas repetidas, o subgênero parecia esgotado, com raras exceções criativas que valem a espiada, como Pontypool (2008) e Plano-Sequência dos Mortos (2017). Ao retomar esse universo com Extermínio: A Evolução, o cineasta Danny Boyle não apenas resgatou o interesse dos fãs dos filmes originais, como também conseguiu atrair uma nova geração de espectadores, curiosos por uma abordagem mais visceral e profundamente conectada ao colapso humano por trás do apocalipse.

Extermínio: O Templo dos Ossos, terceira entrada da franquia, funciona como uma continuação direta de A Evolução, continuando precisamente a cena final daquele filme, quando uma gangue de figuras portando perucas loiras, lideradas por Jimmy Crystal (Jack O’Connell, Pecadores), surge em meio ao caos. Aqui, a franquia praticamente abandona qualquer tentativa de expandir sua mitologia apocalíptica para mergulhar nos desvios morais e psicológicos desse grupo. O resultado se aproxima mais de um spin-off do que de um novo capítulo essencial da saga, interessado menos em responder perguntas e mais em observar a insanidade como forma de nova organização social.

A narrativa acompanha os meandros dessa trupe, agora com Alfie Williams (O Rei do Crime) integrado aos “Jimmys”, enquanto Jack O’Connell tenta sustentar a figura de Jimmy Crystal como uma espécie de líder satânico de seus “dedos”, que jura ser o filho do próprio diabo. A ideia até intriga no início, justamente por parecer deslocada dentro do universo da franquia e até mesmo do subgênero, mas o filme insiste em sublinhar o quão cruel e amorfo é esse bando sem oferecer camadas suficientes para que o espectador crie qualquer vínculo — seja de empatia ou repulsa genuína. O que resta é uma sucessão de gestos extremos que não evoluem dramaticamente.

Do outro lado dessa balança instável está Ralph Fiennes (Conclave), que retorna como o Dr. Kelson, personagem que concentra os momentos mais inspirados do longa. Ele praticamente vira um showman ao som de “The Number of the Beast”, do Iron Maiden, facilmente uma das grandes cenas da história da franquia, unindo espetáculo e performance. Ainda mais interessante é a relação que se estabelece entre Kelson e o zumbi alfa Sansão (Chi Lewis-Parry, Gladiador 2), uma dinâmica carregada de sensibilidade, afeto e respeito. Esse arco, o mais potente do filme, aponta caminhos instigantes para o futuro, embora termine inconcluso.

Na direção, Nia DaCosta parece menos confortável do que em seu trabalho mais recente, Hedda, em que sua câmera se movia com mais ousadia e identidade. Aqui, sente-se a ausência da inventividade visual e rítmica que Danny Boyle imprimia às sequências de ação. DaCosta adota uma abordagem mais funcional, quase contida, seguindo de perto o roteiro de Alex Garland, que opta por se concentrar obsessivamente na gangue de Jimmy, em detrimento de um olhar mais amplo sobre esse mundo em colapso.

No fim, O Templo dos Ossos é um filme mais interessado em observar a brutalidade humana do que em dialogar com o legado de Extermínio — à exceção da cena final. Ao trocar o horror dos infectados pela loucura dos sobreviventes, o longa até propõe algo diferente, mas raramente aprofunda suas próprias ideias, é um filme fechado em si que, visto como parte da franquia, pouco adiciona a ela. Entre arcos mal resolvidos e escolhas narrativas apressadas, sobra a sensação de um capítulo de transição — provocador no conceito, mas frustrante na execução.

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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. Paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1. Pisciano, mas não acredita em astrologia. São-paulino, pai de pet e cinéfilo obcecado por listas e rankings.
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