ESTREIA

‘Hamnet’, de Chloé Zhao, é um testemunho do poder indelével do amor através da arte

Com Jessie Buckley e Paul Mescal, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet estreia nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira, dia 15 de janeiro

Henrique Nascimento (@hc_nascimento)

Hamnet, de Chloé Zhao, é um testemunho do poder indelével do amor através da arte (Foto: Divulgação/Universal Pictures)

As pessoas costumam dizer que a morte é a única certeza na vida e, frequentemente, esquecem que o amor é tão inevitável quanto. Nós nascemos amando. Não é algo que se aprende a fazer; a gente só ama. Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet — que passou pelo Festival do Rio 2025, em sessão única e concorrida, e agora finalmente chega aos cinemas a partir desta quinta-feira, dia 15 de janeiro —, Chloé Zhao fala sobre a morte, sim, mas principalmente sobre o amor.

Baseada na teoria de que a morte de seu único filho homem, Hamnet, aos 11 anos de idade, inspirou a escrita de Hamlet, Maggie O’Farrell, responsável pelo livro que deu origem à obra e corroteirista da novidade, constrói, junto a Zhao, uma história com ares de conto de fadas, permeada pelo amor, especialmente o de Agnes (Jessie Buckley, Estou Pensando em Acabar com Tudo), uma mulher que enfrentou as piores tragédias e, mesmo assim, não deixou o sentimento amargar em seu coração.

Maldita por aqueles que não a conhecem, mas acreditam que ela seja a filha de uma bruxa, Agnes, na verdade, é abraçada pela magia mais antiga e poderosa que existe: aquela que carrega pela mãe, falecida quando ainda era apenas uma menina; a que levou a se entregar a William Shakespeare (Paul Mescal, Todos Nós Desconhecidos) e iniciar uma família; a que arrancou a filha do colo da Morte e lhe deu a oportunidade de continuar entre os vivos; e a que, eventualmente, curou as feridas abertas pela antiga inimiga, quando ela levou o seu pequeno Hamnet (Jacobi Jupe, Peter Pan e Wendy).

É praticamente impossível descrever a emoção provocada por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, algo que poucos cineastas seriam capazes de realizar. Zhao, que conquistou o mundo com o oscarizado Nomadland (2021) e foi capaz de injetar uma necessária humanidade no engessado Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) com o excelente Eternos (2022), é um desses poucos.

Delicado em seus mínimos detalhes como na cena em que Shakespeare se despede de Hamnet com uma brincadeira boba, sem saber que nunca mais veria o filho com vida , o longa constrói a sua catarse com parcimônia. É impressionante como Buckley, com a sua atuação favorita à estatueta de Melhor Atriz no Oscar 2026, consegue atravessar tantos sentimentos em um mesmo rompante. O grito que sai de sua boca, ao dar à luz Hamnet e sua irmã, Judith, por exemplo, começa na dor, mas passa pelo medo, o desespero, o desalento e, então, a aceitação, em questão de segundos — e o espectador é capaz de sentir cada uma dessas emoções conforme elas surgem em seu rosto.

No entanto, não é em uma explosão de ânimos que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet chega ao seu ápice. Na verdade, é em completo silêncio. No momento decisivo do longa, Zhao atesta o poder da arte e, no seu tempo, com delicadeza e carinho, evoca um sentimento poderoso de identificação.

Em parceria com Buckley, a cineasta nos coloca na pele de Agnes, aos pés do palco onde acontece a primeira encenação de Hamlet, para testemunhar como, além de entreter, a arte também é capaz de curar dores, ampliar e democratizar amores, e transformar o finito em infinito. Acredite: não há como ser o mesmo depois de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet.

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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, em São Paulo, Henrique Nascimento começou como estagiário na Veja São Paulo e passou por veículos como SBT, Exitoína, Yahoo! Brasil e UOL antes de se tornar coordenador do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
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