Michelle Yeoh se recusa a debater política ao receber Urso de Ouro
Durante o Festival de Cinema de Berlim, a atriz vencedora do Oscar disse que ‘não está em posição’ de falar sobre a situação atual dos EUA e reforçou a relevância do cinema: ‘Espero que seja isso que estamos aqui para fazer’
Gabriela Nangino (@gabinangino)
Nesta quinta-feira, 12, a atriz atriz malaia de ascendência chinesa Michelle Yeoh — aclamada por seus papéis em Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022), Wicked (2024) e Podres de Ricos (2018) — foi premiada no Festival de Cinema de Berlim com o Urso de Ouro Honorário, troféu que homenageia figuras importantes pelo conjunto de sua carreira e contribuição artística excepcional ao cinema mundial.
Ao aceitar o prêmio, Yeoh emocionou a plateia. “Uma parte de mim ainda é aquela menina que simplesmente queria deixar seus pais orgulhosos”, disse. “Meu pai não está mais aqui para ver este momento. Mas eu o levo comigo, sua disciplina, sua firmeza, sua crença de que se algo vale a pena ser feito, vale a pena ser bem feito. E se ele pudesse me ver aqui esta noite, segurando este Urso de Ouro, eu sei que ele sorriria.”
Durante coletiva de imprensa no Festival, Yeoh foi questionada se, como atriz internacional, ela teria algum comentário a fazer sobre a situação atual dos EUA, tendo em vista a violência do ICE e as políticas de imigração promovidas por Trump. Entretanto, a atriz preferiu não se posicionar.
“Não acho que esteja em posição de falar sobre a situação política nos EUA, e também não posso presumir que a compreendo completamente. Portanto, é melhor não falar sobre algo que desconheço”, afirmou.
Michelle Yeoh nas telonas
Yeoh fez história no Oscar 2023 ao se tornar a primeira mulher asiática a vencer na categoria de Melhor Atriz, por sua atuação como Evelyn Wang em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. A atriz malaia reside hoje na Suíça, e acrescentou que queria “concentrar-se no que é importante para nós, que é o cinema”.
“Ouvimos coisas como: ‘Ah, o cinema não vai sobreviver porque há muitas outras coisas acontecendo, o tempo de atenção está cada vez menor’. Mas eu realmente não acredito nisso”, disse. “Porque acredito que quando vamos ao cinema, esse é o nosso momento. Sabe, desligamos nossos celulares e escolhemos assistir a algo que queremos. E esse é o momento em que podemos abrir o coração, libertar a mente e ter um tempo só para nós. O cinema é um lugar onde todos nos reunimos para rir, chorar e celebrar, mas é sempre importante manter essa tradição viva. E espero que seja isso que estamos aqui para fazer.”
Yeoh também comentou sobre o desafio da representatividade asiática em Hollywood, e relembrou os dilemas que enfrentou durante a produção de seus últimos longas. Sobre Podres de Ricos, lançado em 2018, ela disse: “Na época em que ele apresentou o filme, todo mundo dizia: ‘Meu Deus, ele errou em todos os clichês — elenco totalmente asiático, comédia romântica — vai ser um fracasso.’ Mas, felizmente, acho que tocou num ponto sensível”.
A atriz relata que percebeu algumas mudanças que lhe permitiram fazer Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, vencedor do Oscar quatro anos depois. “Foi corajoso fazer isso, porque, mais uma vez, marcamos todas as caixas erradas”, disse sobre o filme.
Mas prevalecemos, e acho que é isso. Acho que hoje estou aqui com um Urso de Ouro não por causa de apenas um filme, mas pela perseverança, pela resiliência, pela teimosia em dizer: ‘Eu não vou simplesmente desistir. Vou ficar até que as mudanças certas sejam feitas’.
Em outro momento da conferência, Yeoh comentou sobre os cineastas com quem ainda deseja trabalhar. Ela deu destaque ao mexicano Guillermo del Toro, e também disse que gostaria de estar em mais produções europeias.
“Acho que é uma questão de encontrar o equilíbrio e torcer para que os diretores europeus me notem e digam: ‘Talvez devêssemos tê-la em nosso filme'”, comentou. “Então, por favor, divulguem a ideia! Eu adoraria voltar aqui e trabalhar com os verdadeiros gênios do cinema europeu.”
Yeoh recebeu o prêmio ao lado do diretor de Anora, Sean Baker, com quem colaborou no curta-metragem Sandiwara, que estreia hoje, 13, no Festival de Cinema de Berlim. Segundo Baker, Yeoh é “uma presença única na tela, daquelas que não apenas aparecem nos filmes, mas que redefinem a atmosfera do ambiente”.
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