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O filme mais polêmico do ano chegou — e se chama ‘Yes’

O cineasta israelense Nadav Lapid usa um estilo incandescente para lançar um olhar frio e direto sobre sua terra natal

David Fear

Cena do filme 'Yes'
Cena do filme 'Yes' (Foto: Divulgação)

Começa não com um estrondo, mas com uma bacanal que faria Calígula corar. Pessoas vestidas com elegância dançam de forma provocante ao som de “Be My Lover”, do La Bouche, incluindo vários soldados uniformizados e um rabino. Uma mulher com um vestido brilhante e mínimo beija desconhecidos antes de subir em uma mesa para dançar. Um homem simula sexo oral com uma baguete. Logo, as pessoas começam a mergulhar sua cabeça em tigelas de ponche. Bêbado, ele cambaleia para trás e cai em uma piscina. Uma multidão se reúne. A mulher tira a roupa e pula na água, puxando-o para fora; revivido, ele inicia uma espécie de duelo musical com oficiais militares. Ele grita o refrão “la-da-da-dee, da-da-da-daah” do hit dançante, enquanto os oficiais berram “Love Me Tender”, à maneira de um canto patriótico. “Deixe-os ganhar”, aconselha ela, com sabedoria. Eventualmente, a festa termina. O casal passará o restante da madrugada em um ménage à trois com uma idosa da alta sociedade.

Desde o início, Yes — o mais recente “disparo” do roteirista e diretor Nadav Lapid — quer te dar um tapa para te acordar. Não há tempo para delicadezas em um período de conflito, tragédia e vulgaridades infinitas. Possivelmente o cineasta mais importante surgido em Israel em várias gerações e uma figura central no cinema mundial, Lapid se especializa em estudos de personagem e em constantes questionamentos sobre como estruturas de poder (sociais, nacionais, globais) moldam vidas. Ele já disse que essa história de uma classe criativa presa em um sistema corrupto, que recompensa a falta de moral, poderia se passar em qualquer grande metrópole: Londres, Paris, Nova York, Los Angeles. O plano, acrescentou o diretor, era filmar nos Estados Unidos e escalar Joaquin Phoenix como protagonista. Ele estava brincando. Talvez.

O fato de Lapid ambientar e filmar a história em sua cidade natal, Tel Aviv — em um país com o qual mantém uma relação volátil — acrescenta camadas a essa sátira envenenada. Tanto setores da direita quanto da esquerda em Israel criticaram o filme. Ainda assim, o equivalente local ao Oscar lhe rendeu várias indicações. Distribuidores internacionais elogiaram o cineasta, mas trataram o longa como se fosse radioativo. Yes é facilmente o filme mais controverso a chegar aos cinemas neste ano até agora. E também, apesar do estilo excessivo e da narrativa transbordante de Lapid, um dos mais sóbrios e necessários.

O casal visto entre os ricos e poderosos se chama Y. (Ariel Bronz) e Yasmine (Efrat Dor). Ele é pianista e compositor; ela, dançarina. Eles amam o filho pequeno, Noah. Amam sua vida boêmia de classe média alta. E se amam intensamente. O ménage à trois lhes abre portas para um círculo ainda mais elitista, alimentando o desejo de ascensão social. Isso os leva, por exemplo, ao iate de um oligarca russo (interpretado por Aleksy Serebryakov), que faz uma proposta a Y.: escrever “um novo hino para uma nova Israel… um hino para a geração da vitória”. Se aceitar, ele garantirá o futuro de sua família. O preço: sua alma.

Na primeira metade de Yes, Lapid mantém tudo no máximo — há momentos em que parece que a própria câmera está em convulsão. O caos reina: cenas que lembram números musicais distorcidos, festas povoadas por figuras grotescas à la Federico Fellini, ou até o relacionamento do casal culminando com ambos atravessando uma porta com a cabeça. Bronz, conhecido como performer e poeta avant-garde, revela-se um excelente comediante físico. O mesmo vale para Dor, ex-bailarina que equilibra sensualidade, humor físico e expressão corporal. É o tipo de filme que insere, sem cerimônia, imagens grotescas e surreais — como a cabeça de um guru de relações públicas se transformando em uma tela de vídeo.

Mas o que aparece nesse “monitor” é metade da sombra que sustenta todas as provocações do filme. Ao se gabar de carregar em sua mente uma cena horrível ligada a uma data que entrou para a história, esse publicitário se torna um canal para imagens tão perturbadoras que não as vemos — apenas Y. vê. Seu grito, enquanto o filme corta para um plano distante, já basta. O espectro de 7 de outubro de 2023 paira sobre o filme, assim como suas consequências, que deixaram milhares de mortos. Quando Y. vai até a fronteira — primeiro em busca de inspiração, depois para reencontrar Lea (Naama Preis), uma antiga paixão —, o ritmo desacelera. Lea trabalha traduzindo relatos de testemunhas da tragédia, e o filme permite que ela narre esses depoimentos de forma direta e impactante. Personagens também falam explicitamente sobre o que acontece em Gaza, enquanto fumaça surge no horizonte. Massacres geram massacres.

Há indícios ao longo do caminho — de uma referência ao quadro The Pillars of Society (1926), de George Grosz, à quebra da quarta parede (quando um personagem se volta ao público e pergunta: “Cada um de vocês tem um segredo que poderia custar sua vida… Nós temos uma guerra. E vocês?”) — que revelam o posicionamento de Lapid sobre o presente. Quando finalmente ouvimos o resultado do trabalho de Y., inspirado em uma canção de propaganda real, fica claro que não estávamos vendo uma comédia. Yes é, na verdade, um filme de horror — em que nenhuma distração consegue abafar o ruído da morte. E, embora Lapid sempre tenha inserido críticas políticas em sua obra, de O Policial (2011) a Synonymes (2019), aqui tudo parece mais direto, mais furioso. Nenhum excesso esconde a indignação.

“Existem apenas duas palavras no mundo”, diz Y. ao filho, enquanto pedala pelas ruas e praias de Tel Aviv. “Sim e não. Qual você escolhe?” O próprio filme opera nessa lógica binária. Você pode ignorar o que é feito em seu nome? Sim ou não. Se o poder estivesse ao seu alcance, você o agarraria a qualquer custo? Sim ou não. Vale a pena se submeter a esse grito existencial diante de uma sociedade tomada por luto e nacionalismo? Essa última pergunta, ao menos, é mais fácil. A resposta está no título.

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