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“O Morro dos Ventos Uivantes” quebra expectativas ao mudar história e apostar em menos erotismo

Seja visual ou na construção dos seus personagens, a diretora Emerald Fennell tem total controle e segurança de sua narrativa

Giulia Cardoso (@agiuliacardoso)

“O Morro dos Ventos Uivantes” quebra expectativas ao mudar história e apostar em menos erotismo
“O Morro dos Ventos Uivantes” quebra expectativas ao mudar história e apostar em menos erotismo - Crédito: Divulgação

A nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell (Doce Vingança) e estrelada por Margot Robbie (Barbie) ao lado de Jacob Elordi (Euphoria), veio acompanhada de aspas no título e materiais promocionais muito provocativos. Decisões como essas buscam se distanciar do clássico de Emily Brontë e trazer uma assinatura autoral, contemporânea e visualmente agressiva.

Já começo entregando a coisa mais óbvia: o filme, em tela, tem essa identidade visual fortíssima. Diversos frames parecem gritar o alto valor investido no longa. As cores do cenário e figurino fazem parte da narrativa e o gótico da obra original ainda respira, especialmente na ambientação da casa de Cathy (Robbie), mas, agora, o longa opta por dividir espaço com uma energia vibrante.

“O Morro dos Ventos Uivantes” se vendeu como um romance épico pop, embalado pela trilha sonora de Charli xcx e muita tensão sexual. Nesse aspecto, ele cumpre o que promete: a química em cena funciona e o clima de tesão remete a obras recentes como Rivais, sem cair no explícito e raso. 

O trabalho de Fennell se destaca de uma maneira diferente. Por vezes, reduzimos o papel da direção em movimentação de câmera das cenas e conversas com os atores, mas, aqui, ela nos lembra que esse cargo exige coordenação geral em todas as etapas. Graças às habilidades da cineasta, é possível dizer que o filme tem ideias “fora da caixa”. Não só por trabalhar o vermelho, por exemplo, mas nos mínimos detalhes de montagem, som, lettering do título e o tom escolhido em cada momento. 

Por falar em Charli, a trilha sonora crava o martelo da contemporaneidade e do tema central: a obsessão entre os protagonistas. Trazendo arranjos clássicos, que combinam com a experiência romântica do filme, a artista consegue trazer um pop que foge da música 100% instrumental. Além disso, a crescente de suas canções ditam a tensão que história precisa.

Margot Robbie entrega uma Cathy carregada de carisma, mas que não esconde a malícia e o egoísmo, inerentes à personagem. Já Elordi atua bem, mas é profundamente afetado pelo texto. O filme amarga com diálogos cafonas e “manjados”, vícios de linguagem que parecem impregnados na medula de dramas desse gênero. Em passagens mais exageradas, a sensação é de estarmos assistindo a uma peça experimental encenada por um “doidinho do centro da República”, sendo visceral, mas que beira o canastrão. 

O maior deslize da trama reside no desenvolvimento do arco do bebê — não entraremos em detalhes para não dar spoiler. Embora tentem vender esse ponto como uma reviravolta de impacto que mudaria o curso da história, a execução é fraca e acrescenta pouco ao resultado. 

Em resumo, “O Morro dos Ventos Uivantes” traz uma quebra de expectativa para quem entrou na sala de cinema pronto para falar mal e não gostar. Contudo, é inegável que o filme é um romance de época e esse tipo de narrativa é naturalmente mais sensível e clichê. 

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Jornalista em formação pela Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, Giulia Cardoso começou em 2020 como voluntária em portais de cinema. Já foi estagiária na Perifacon e agora trabalha no núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
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