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O processo de Russell Crowe para viver ‘braço direito’ de Hitler em ‘Nuremberg’

Ator mergulhou na mente de Hermann Göring, encarando desafios físicos, psicológicos e éticos para dar vida a um dos nomes mais complexos do regime nazista

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

O processo de Russell Crowe para viver 'braço direito' de Hitler em 'Nuremberg' (Divulgação/Diamond Films)

Nuremberg chega aos cinemas brasileiros em 26 de março, com distribuição da Diamond Films, trazendo uma elogiada performance de Russell Crowe (Gladiador). No papel do marechal alemão Hermann Göring, conhecido como o braço direito de Adolf Hitler, Crowemostra o porquê ele é uma das últimas estrelas do cinema além de um grande performer”, segundo Matt Zoller Seitz no portal Roger Ebert. Saiba mais sobre o filme e o processo de preparação do ator a seguir:

Qual é a história de Nuremberg?

A trama é centrada no momento após o final da 2ª Guerra Mundial, quando os líderes nazistas remanescentes são capturados e levados a julgamento – o qual dá nome ao filme. Nesse contexto, o psiquiatra norte-americano Douglas Kelley (Rami Malek, Bohemian Rhapsody) é enviado como o responsável por cuidar da saúde mental dos prisioneiros e garantir que permaneçam vivos. O que ele não esperava era a relação complexa que desenvolveu com um deles, o controverso e carismático Göring (Crowe), que levou a dilemas éticos e a reflexões sobre bem e mal.

O processo de Russell Crowe para viver ‘braço direito’ de Hitler em Nuremberg

Russell Crowe se comprometeu com o papel anos antes de o projeto ganhar forma definitiva. O roteiro chegou até ele ainda em 2019, e a resposta foi imediata. “Eu respondi a ele imediatamente”, relembra o ator, que aceitou o papel sem sequer uma reunião. Desde então, manteve-se fiel ao projeto, mesmo durante anos de incertezas, a ponto de anunciar publicamente que faria o filme antes de qualquer contrato assinado — um gesto que evidencia o nível de envolvimento desde o início.

Anos de desenvolvimento e fidelidade ao projeto

O caminho até as filmagens foi longo e cheio de obstáculos, algo que o próprio ator reconhece como parte do processo. “É o tipo de jornada que você costuma fazer, em que às vezes leva um tempo para juntar tudo”, explica. Ainda assim, Crowe nunca cogitou abandonar o projeto: “Parte do compromisso é ouvir o diretor e se manter fiel a essa pessoa. Foi muito fácil continuar, porque ele nunca vacilou”. Essa confiança foi determinante para que o filme finalmente saísse do papel.

As regras que ele precisou quebrar

Para interpretar Göring, Crowe abriu mão de duas regras pessoais bastante curiosas. “Eu adoro ter barba, então sempre quero usar barba nos filmes. E a segunda é que eu não queria mais fazer dramas de tribunal”, revelou. Ainda assim, fez questão de destacar o motivo da exceção: “Eu quebrei essas duas regras para fazer esse filme”. Mesmo reconhecendo a dificuldade desse tipo de produção, ele admite que encontrou aqui algo diferente: “Talvez este seja o drama de tribunal que eu estava esperando”.

O centro emocional: um duelo psicológico

A relação entre Douglas Kelley e Hermann Göring forma o núcleo do filme. Em cenas marcadas por diálogos intensos, a narrativa se constrói em um espaço quase claustrofóbico, algo que o próprio Crowe destaca: “Este é um drama interior na maior parte do tempo. Não há muitas explosões ou armas, envolve muitos aspectos de psicologia e psicanálise”. É nesse terreno que o confronto ganha força, explorando os limites entre fascínio e repulsa.

O fascínio pelo desafio

Crowe admite que o papel o atraiu justamente pelo desconforto que provocava. “Na maior parte das vezes, o que me atrai são as coisas que me assustam”, afirma. Ao mesmo tempo, reconhece o impacto emocional do material: “Eu respondi ao roteiro imediatamente, mas também fiquei emocionalmente exausto com ele. Como você sequer tenta interpretar esse cara?”. Para o ator, essa pergunta foi decisiva — e justamente o que o fez aceitar o desafio.

Pesquisa profunda e construção histórica

Ao longo dos anos, Crowe mergulhou em pesquisas intensas sobre Göring e o período histórico. “Cinco anos atrás, eu não sabia quase nada sobre esse período”, admite. A imersão revelou aspectos surpreendentes, como o passado do personagem como piloto de elite na Primeira Guerra Mundial: “Eu não sabia que Göring era um ás da aviação, nem sobre sua família ou sua formação”. Ele também destaca o feito impressionante de 22 vitórias aéreas e sua ligação com Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho.

A construção de uma figura complexa

Crowe buscou mais do que apenas reproduzir trejeitos do personagem. “Você quer capturar alguma forma de essência da pessoa, em vez de fazer uma imitação”, explica. Mesmo que muitos detalhes históricos não apareçam diretamente na tela, eles foram fundamentais para a composição: “Você tenta trazer ecos dessas outras partes de quem ele foi, mesmo lidando com um período específico da vida”.

Entre humanidade e monstruosidade

Um dos pontos centrais da interpretação foi lidar com a dualidade de Göring. O ator se deparou com um personagem capaz de ser ao mesmo tempo carismático e profundamente perturbador. “A dificuldade é que existem aspectos dele que são bastante charmosos”, afirma. Esse contraste é justamente o que torna o personagem tão inquietante — e o filme, mais complexo.

A lógica distorcida do poder

Ao explorar a mente de Göring, Crowe identificou momentos-chave de ruptura. “Por volta de 1942, a narrativa fugiu do controle dele”, analisa. A partir daí, o personagem passa a justificar ações extremas de maneira fria e racional. O ator destaca uma fala emblemática do filme: “Há uma linha em que ele diz que até o antissemitismo dele tinha um propósito prático. A distância que você precisa ter da sua própria humanidade para dizer algo assim é assustadora”.

Mesmo diante dos julgamentos, Göring acreditava que poderia mudar seu destino. “Era o tamanho do ego dele que o fazia pensar: ‘Eu ainda posso virar isso’”, afirma Crowe. Segundo o ator, o personagem acreditava que poderia manipular a narrativa em nome de outros alemães e controlar a situação — uma ilusão que se torna central para entender sua psicologia.

O impacto emocional da interpretação

Dar vida a um personagem como Göring teve um custo pessoal significativo. “Eu estava vivendo em um lugar onde não estava muito feliz comigo mesmo”, confessa Crowe. Ele destaca que, para fazer o trabalho corretamente, é necessário se envolver profundamente: “Você pode ser o mais objetivo possível, mas precisa dar uma certa quantidade de energia a isso”. O resultado é uma experiência intensa, que ultrapassa o set de filmagem.

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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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