OPINIÃO

Onde estão os indicados estrangeiros ao Actor Awards 2026, o antigo SAG?

A ausência de atuações de filmes em língua não inglesa nas indicações escancara o isolamento do Actor Awards em uma temporada que tem dado destaque ao cinema internacional

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

Onde estão os indicados internacionais ao Actor Awards 2026, o antigo SAG (Divulgação/Vitrine Filmes/MUBI)

Nesta quarta-feira (7), o Actor Awards anunciou os indicados à sua 32ª edição, e algo chamou atenção imediatamente: a ausência de atores de filmes internacionais. Entre os esnobados mais comentados estão o brasileiro Wagner Moura, por O Agente Secreto, e integrantes do elenco do candidato norueguês ao Oscar, Valor Sentimental, como Renate Reinsve, Inga Ibsdotter Lilleaas e o veterano Stellan Skarsgård. A exclusão desses nomes — amplamente elogiados e indicados a outras premiações ao longo da temporada — não passou despercebida e levantou questionamentos sobre os critérios e os limites da premiação.

O Actor Awards, promovido pela SAG-AFTRA (Screen Actors Guild – American Federation of Television and Radio Artists, Sindicato dos Atores – Federação Americana de Artistas de Rádio e Televisão), parece nadar contra a maré em um momento em que o cinema internacional ocupa cada vez mais espaço no debate cultural e na corrida por prêmios. A sensação é de um prêmio que insiste em olhar para dentro, mesmo quando o mundo insiste em bater à porta.

Vale lembrar que não faz tanto tempo assim que outra grande premiação enfrentou uma crise semelhante. Em 2022, o Globo de Ouro teve sua transmissão suspensa pela NBC após uma série de polêmicas envolvendo seus votantes: denúncias de falta de ética, aceitação de presentes por parte de indicados e, principalmente, a constatação de que não havia votantes negros entre seus membros. A emissora só aceitou retomar a transmissão mediante mudanças profundas. A HFPA (Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood) acabou dissolvida, e, em 2023, a Golden Globe Foundation assumiu a condução da premiação, promovendo uma reformulação estrutural. O número de votantes, que antes girava em torno de 87, hoje ultrapassa 300 jornalistas de diversas partes do mundo, incluindo o Brasil — e não mais restritos aos Estados Unidos, como ocorria anteriormente.

No Actor Awards, uma premiação com uma base massivamente norte-americana, é quase natural — ainda que pouco defensável — que os indicados reflitam sua composição. O processo de votação ajuda a entender isso: as indicações são definidas por dois comitês de nomeação, um para cinema e outro para televisão, cada um formado por 2.500 membros da SAG-AFTRA, selecionados aleatoriamente entre profissionais ativos e adimplentes que não tenham participado do processo nos últimos oito anos. Após o anúncio dos indicados, a votação final é aberta a todos os membros ativos do sindicato. Trata-se, portanto, de um sistema robusto, mas profundamente enraizado em uma lógica corporativa e nacional.

O problema é que, em uma temporada em que filmes internacionais vêm ganhando enorme visibilidade, essa postura pode custar caro. Se o padrão de exclusão se repetir nos próximos anos, o Actor Awards corre o risco de perder relevância e prestígio, exatamente como ocorreu com o Globo de Ouro antes de sua reformulação forçada. Naquele caso, bastaram dois anos consecutivos de escândalos e pressão pública para que mudanças drásticas se tornassem inevitáveis.

A esnobada do Actor Awards, inclusive, foi destacada pela Variety, que apontou Wagner Moura entre as maiores omissões da premiação. Segundo a publicação, “todas as produções e atuações em língua estrangeira foram completamente excluídas da corrida de 2026, talvez o esnobe mais chocante da história”.

Esse apagamento não é exatamente uma novidade quando se olha para o histórico do prêmio. O SAG nunca foi particularmente generoso com atuações internacionais. O número de indicados estrangeiros sempre foi baixo e, quando se observa o recorte das vitórias, ele diminui ainda mais. O padrão se repete ano após ano, deixando claro que se trata de uma premiação que corre o risco de ficar parada no tempo — ou simplesmente ser engolida por ele. Em um mundo no qual o público consome cada vez mais cinema de diferentes países, línguas e culturas, ignorar essas produções não é apenas uma escolha conservadora, mas uma postura de atraso.

E os sinais de que algo maior está acontecendo não param por aí. Na terça-feira (6), os roteiros de O Agente Secreto, Foi Apenas Um Acidente, Valor Sentimental e A Única Saída foram desqualificados do WGA Awards, a premiação do Sindicato dos Roteiristas da América. O motivo não tem relação com qualidade ou relevância artística, mas com uma regra estrutural: o sindicato só aceita roteiros escritos por profissionais com algum tipo de vínculo formal com a entidade. Na prática, isso exclui automaticamente grande parte do cinema internacional, reforçando um sistema fechado, autorreferente e pouco permeável a vozes externas.

Poucos dias depois de o Critics Choice Awards, uma das premiações mais prestigiadas da crítica norte-americana, entregar o prêmio de Melhor Filme Internacional para O Agente Secreto no tapete vermelho, fora da transmissão ao vivo, o acúmulo desses episódios se torna difícil de ignorar. O que está em jogo não é um caso isolado, mas um sintoma de algo mais profundo, que atravessa sindicatos, premiações e estruturas de poder da indústria.

Diante desse cenário, talvez seja hora da indústria — e também do público — reavaliar a importância que continua atribuindo a premiações que operam como clubes fechados, protegidos por regras corporativas, interesses sindicais e uma visão de mundo cada vez mais estreita. Quando instituições como o Actor Awards e o WGA insistem em ignorar produções internacionais não por falta de qualidade, mas por barreiras estruturais e burocráticas, o problema deixa de ser pontual e passa a ser ideológico.

Em um momento em que o cinema global circula, dialoga e se fortalece para além das fronteiras, seguir premiando apenas quem fala a mesma língua — literal e simbolicamente — não é tradição, é preconceito enraizado. Parafraseando o sul-coreano Bong Joon-ho ao vencer o Oscar por Parasita, em 2020, basta superar a barreira de três centímetros da legenda para descobrir um mundo inteiro de histórias. O risco, para quem se recusa a fazê-lo, é simples: não é o cinema internacional que ficará para trás — são essas premiações.

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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. Paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1. Pisciano, mas não acredita em astrologia. São-paulino, pai de pet e cinéfilo obcecado por listas e rankings.
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