BAFTA irá revisar protocolos após ofensa racista feita por ativista durante cerimônia
Premiação britânica assume “total responsabilidade” por situação envolvendo o ativista John Davidson, pede desculpas a convidados e anuncia revisão completa dos protocolos
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
A organização do BAFTA anunciou que passará por uma revisão interna após a repercussão da ofensa racista verbalizada durante a cerimônia deste ano, enquanto Michael B. Jordan e Delroy Lindo, dupla que atua em Pecadores, estavam no palco apresentando o prêmio de melhores efeitos visuais.
O responsável pelo grito foi o ativista escocês John Davidson, convidado da premiação por ter inspirado o filme I Swear, que retrata sua vida com Síndrome de Tourette. A condição neurológica é caracterizada por tiques motores e vocais involuntários, que podem incluir sons inesperados e, em alguns casos, a emissão de palavras inapropriadas sem controle consciente.
Bafta assume responsabilidade
Em carta enviada aos membros, o BAFTA afirmou levar “muito a sério” o dever de cuidado com convidados e o compromisso com a inclusão. “Tomamos medidas para conscientizar os presentes sobre os tiques, anunciando ao público antes do início da cerimônia e durante todo o evento que John estava presente e que eles poderiam ouvir linguagem pesada, ruídos ou movimentos involuntários”, informou a organização.
Ainda assim, a premiação reconheceu falhas e confirmou que está conduzindo “uma revisão completa” dos procedimentos adotados. “Estamos em contato com os estúdios envolvidos e as conversas estão em andamento. Queremos assegurar a todos os nossos membros que uma revisão completa está sendo realizada”, diz o comunicado.
A instituição também declarou assumir “total responsabilidade” por colocar os convidados “em uma situação difícil” e pediu desculpas públicas a Jordan, Lindo e aos demais presentes. “Aprenderemos com isso e manteremos a inclusão no centro de tudo o que fazemos.”
O que aconteceu na cerimônia?
A presença de Davidson na premiação estava diretamente ligada a I Swear, longa inspirado em sua trajetória e indicado a seis categorias. Ele atuou como produtor executivo do projeto ao longo de três anos. O filme levou dois prêmios: Melhor Ator para Robert Aramayo e Melhor Elenco.
Davidson afirma que esperava que a organização e a BBC editassem eventuais palavrões da transmissão. Segundo ele, havia inclusive um microfone próximo ao seu assento — algo que, em retrospecto, considera questionável.
Durante a cerimônia, seus tiques começaram com sons e movimentos, mas se intensificaram à medida que o nervosismo aumentava. Ele diz que só percebeu que poderia estar sendo ouvido no palco quando notou a reação de Lindo e Jordan. Pouco depois, decidiu deixar o auditório e assistiu ao restante da premiação de uma sala reservada.
Após a repercussão, sua equipe informou que ele entrou em contato com os representantes do filme Pecadores para se desculpar diretamente com Jordan, Lindo e a designer de produção Hannah Beachler.
BBC é criticada por não cortar transmissão
A BBC foi alvo de críticas por não editar o trecho antes da exibição, apesar de a transmissão ter ido ao ar com atraso de duas horas em relação ao evento ao vivo. Inicialmente, o momento também permaneceu na versão disponibilizada no iPlayer, serviço de streaming da emissora.
Posteriormente, a BBC retirou a gravação do ar e pediu desculpas. Em nota, afirmou que a linguagem ofensiva ocorreu devido a “tiques verbais involuntários associados à síndrome de Tourette” e confirmou que o trecho será removido da versão definitiva.
Reações
Delroy Lindo declarou à Vanity Fair que esperava ter sido avisado previamente sobre a possibilidade de episódios durante a cerimônia, mas ressaltou que ele e Jordan “fizeram o que tinham que fazer” no palco.
A designer de produção Hannah Beachler afirmou nas redes sociais que também foi alvo de um dos gritos e classificou a situação como “quase impossível”, embora tenha criticado o que considerou um pedido de desculpas superficial no encerramento do evento. Já o ator Jamie Foxx questionou o episódio publicamente nas redes sociais, chamando-o de “inaceitável”.
Avanços e desinformação
Apesar de anos dedicados à conscientização sobre a Tourette, Davidson avalia que ainda há muita incompreensão. Comentários nas redes sugerindo que pessoas com a condição “pensam o que dizem” ou que “são racistas no fundo” foram, segundo ele, particularmente dolorosos.
Por fim, o ativista pede cuidado na escolha das palavras ao tratar do tema. Ele prefere que a Tourette seja descrita como “condição”, e não “deficiência”, e sugere formulações como “eu vivo com a condição” em vez de termos que enfatizem incapacidade. “O que aconteceu no BAFTA foi, honestamente, uma versão amplificada do meu dia a dia”, concluiu.
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