Emergência Radioativa: 5 mudanças que a série da Netflix fez em relação à história real do acidente
Minissérie é fiel à cronologia dos eventos de 1987, em Goiânia, mas condensou personagens, alterou locações e deixou de fora detalhes que revoltaram sobreviventes
Kadu Soares (@soareskaa)
Lançada pela Netflix, Emergência Radioativa recria um dos acidentes radioativos mais graves da história do Brasil: a contaminação por Césio-137 em Goiânia, em 1987, que matou quatro pessoas oficialmente (embora a Associação das Vítimas do Césio-137 estime que mais de 60 mortes, nos anos seguintes, estejam relacionadas ao acidente) e obrigou quase 100 mil pessoas a passar por exames. A série é considerada, por especialistas no assunto e pelo próprio elenco, um esforço genuíno de resgate histórico de um episódio que muitos brasileiros desconhecem ou esqueceram.
Ao mesmo tempo, como toda produção ficcional baseada em fatos reais, Emergência Radioativa fez escolhas narrativas que se distanciam da realidade, algumas por necessidade dramática, outras que geraram indignação entre os próprios sobreviventes. Abaixo, detalhamos as principais diferenças entre o que a série mostra e o que, de fato, aconteceu.
Os nomes dos personagens foram alterados
Nenhum dos personagens centrais da série carrega o nome real das pessoas que a inspiraram. Leide das Neves, a menina de 6 anos que se tornou símbolo da tragédia ao morrer contaminada, aparece na trama como Celeste. Sua mãe, Lourdes das Neves, virou Catarina. O pai, Ivo, foi batizado de João, e o filho adolescente, Lucimar, aparece como Claudinei. Devair e Maria Gabriela Ferreira, dono do ferro-velho que recebeu o equipamento radioativo e sua esposa, tornaram-se Evenildo e Antônia. A mudança foi uma decisão da produção para trabalhar com ficção, mas desagradou parte das vítimas.
A trajetória de Catarina difere da vida real de Lourdes
Na série, a personagem Catarina, inspirada em Lourdes das Neves, aparece com pouco contato com o Césio-137 e é liberada relativamente rápido do isolamento. Na realidade, Lourdes ficou três meses isolada, primeiro no estádio e depois no prédio da Febem, acompanhada por médicos. Ela conta que passava boa parte do tempo sedada com medicamentos, algo que a série não retrata.
Vários especialistas reais foram fundidos em um único personagem
Para dar mais peso dramático à narrativa e agilizar o roteiro, a produção optou por condensar diferentes figuras reais em personagens únicos. O caso mais evidente é o de Márcio, interpretado por Johnny Massaro: na vida real, não existe uma única pessoa correspondente a esse personagem, ele é uma composição fictícia de vários especialistas e profissionais que atuaram no combate à contaminação. A mesma lógica foi aplicada a outros papéis, reduzindo significativamente o número de pessoas envolvidas no enfrentamento da crise em relação ao que aconteceu, de fato.
A série foi gravada em São Paulo, não em Goiânia
Apesar de a tragédia ter acontecido inteiramente em Goiânia, as gravações de Emergência Radioativa foram realizadas na Grande São Paulo, especificamente nas cidades de Osasco e Santo André. A decisão irritou profundamente muitas vítimas e sobreviventes, que se sentiram desrespeitados, especialmente porque equipes da Netflix chegaram a visitar locais reais ligados ao acidente na capital goiana, mas nunca estabeleceram contato com a Associação das Vítimas do Césio-137 para ouvir seus relatos diretamente.
Os sobreviventes não foram consultados pela produção
Talvez a crítica mais dura feita pelos afetados pela tragédia seja a ausência de contato direto com os sobreviventes durante a produção da série. Lourdes das Neves, que assistiu aos cinco episódios aos 74 anos, e Marcelo Santos Neves, presidente da associação que representa as vítimas, confirmaram que nenhum deles foi procurado pela Netflix para narrar suas experiências. A empresa afirma ter contratado especialistas para garantir a fidelidade histórica, mas os próprios afetados discordam da abordagem. Ainda assim, Marcelo vê a repercussão do lançamento como positiva: a série coincidiu com um reajuste da pensão paga mensalmente aos 1.530 afetados — que passou de R$ 954 para um salário mínimo.
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