ENTENDA

Pecadores: Como uma minissérie provou que atriz foi a melhor escolha de Ryan Coogler

Ryan Coogler acertou em cheio ao trazer Wunmi Mosaku para seu novo filme; entenda como a série da HBO antecipou o auge da atriz

Giulia Cardoso (@agiuliacardoso)

Pecadores: Como uma minissérie provou que atriz foi a melhor escolha de Ryan Coogler
Pecadores: Como uma minissérie provou que atriz foi a melhor escolha de Ryan Coogler - Crédito: Reprodução

Ryan Coogler sempre foi celebrado por sua visão criativa em projetos como Pecadores, mas sua maior virtude pode ser o olho clínico para selecionar elencos que elevam o peso dramático de suas histórias. Embora a parceria recorrente com Michael B. Jordan seja o chamariz óbvio, o impacto emocional de suas obras recentes não seria o mesmo sem Wunmi Mosaku.

Hoje uma indicada ao Oscar, a atriz provou que sua escalação para o novo terror de Coogler não foi apenas um acerto momentâneo, mas sim o reconhecimento de um talento que já havia sido lapidado na elite da TV americana com a minissérie da HBO, A Cidade é Nossa.

Baseada na obra de David Simon, a mente por trás de A Escuta, a produção mergulha no escândalo real de corrupção da polícia de Baltimore, e é aqui que o trabalho de Mosaku ganha uma dimensão profunda. A força da série reside justamente no equilíbrio entre atuações opostas: enquanto Jon Bernthal entrega um Wayne Jenkins explosivo e propositalmente barulhento — refletindo um policial que se sente acima de qualquer consequência —, Mosaku traz o contraponto necessário através da advogada Nicole Steele.

A performance da atriz funciona como uma âncora de realismo porque ela compreende que, para sua personagem, a nuance é uma forma de sobrevivência. Steele entende que, como uma mulher negra tentando investigar uma instituição enraizada no preconceito e na proteção mútua, ela não possui o privilégio do exagero ou do desabafo emocional; qualquer passo em falso seria usado para deslegitimar sua investigação, o que obriga Mosaku a construir uma presença contida, estratégica e visceramente resiliente.

Diferente de seus colegas investigadores brancos, que podem focar exclusivamente nas evidências sem temer grandes represálias, a personagem de Mosaku carrega o peso das consequências políticas e de carreira a cada nova descoberta. Ela interpreta o dilema de tentar consertar um sistema que não tem interesse em se monitorar, enfrentando uma resistência institucional que trata qualquer crítica como um ataque pessoal.

Esse arco se torna ainda mais doloroso quando a série se recusa a entregar um final feliz e higienizado, mostrando que a dedicação de Steele é interrompida por mudanças políticas externas e cortes orçamentários sistêmicos. É essa capacidade de humanizar a exaustão emocional de quem luta contra estruturas gigantescas que validou Mosaku como a escolha perfeita para Coogler.

Em Pecadores, ela leva consigo essa mesma densidade, provando que, se o filme é um sucesso de público, é porque foi construído sobre a base sólida de uma das atrizes mais precisas e subestimadas da atualidade.

FONTE: COLLIDER

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Jornalista em formação pela Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, Giulia Cardoso começou em 2020 como voluntária em portais de cinema. Já foi estagiária na Perifacon e agora trabalha no núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
TAGS: A Cidade é Nossa, a escuta, hbo, Jon Bernthal, Michael B. Jordan, Pecadores, Ryan Coogler, wunmi mosaku