A maneira inusitada que J. Cole vem divulgando seu novo álbum, ‘The Fall-Off’
Rapper está dirigindo Honda Civic pelos EUA pegando fãs aleatórios para ouvir disco completo no carro
Kadu Soares (@soareskaa)
Você imaginaria uma das maiores estrelas do rap mundial dirigindo um Honda Civic velho, parando em cidades aleatórias para pegar fãs desconhecidos e dar volta no quarteirão ouvindo álbum novo juntos? Pois é exatamente isso que J. Cole está fazendo. Logo após lançar The Fall-Off (2026) em 6 de fevereiro — sétimo e possivelmente último álbum de estúdio da carreira —, o rapper anunciou a “Trunk Sale Tour ’26”, turnê de venda no porta-malas onde dirige pelo país com caixas de CDs no bagageiro, responde tweets de fãs e aparece tipo Uber surpresa para sessões de audição móveis. Não é ação publicitária elaborada ou arte conceitual performática, mas simplesmente Cole e o empresário Ibrahim “Ib” Hamad rodando os Estados Unidos recriando a adolescência do rapper, quando vendia mixtapes em estacionamentos de Fayetteville, Carolina do Norte, abordando estranhos com “ei, você gosta de hip hop?” — exceto que agora os estranhos já conhecem J. Cole e estão desesperados para entrar no banco de trás daquele Civic.
Tudo começou com um tweet que parecia brincadeira, mas era completamente sério. “Ontem tive deveres de pai que vieram antes de celebrações de lançamento de álbum. Hoje peguei meu velho Civic (com motor novo), ônibus de turnê e algumas vans. No porta-malas do meu carro estão caixas de CDs de The Fall-Off. Quando adolescente, tinha cópias do álbum que Nervous me deu para vender. Costumava ir a postos de gasolina tentando vender álbum para estranhos: ‘ei, você gosta de hip-hop?’ era o começo do discurso de vendas”, escreveu Cole. “Quando estava trabalhando neste álbum, tive o desejo de sentir aquele sentimento novamente, e é isso que vou fazer. Não sei para onde vamos dirigir, mas me peguem lá fora! Compre CD de mim ou apenas mostre amor”.
Mannnnn. Thank yall for the love. For real!!!
Yesterday I had daddy duties that came before album release celebrations. Today I got my old civic (with the brand new engine) a tour bus and some sprinters. In the trunk of my car is boxes of The Fall-Off CD’s. As a teenager I had… pic.twitter.com/DGbzs0DVfK
— J. Cole (@JColeNC) February 7, 2026
As primeiras paradas foram territórios conhecidos — Carolina do Norte e Atlanta —, mas na quarta, 11, o rapper apareceu em Silver Spring, Maryland, convidando fãs sortudos para ouvir os Discos 29 e 39 de The Fall-Off enquanto rodavam sem destino. Milhares responderam, incluindo pessoas que Hamad brincou que moravam “longe demais”, mas ainda seriam pegas. Fãs que conseguiram carona documentaram tudo: fotos do interior modesto do Civic, vídeos de Cole cantando junto com as próprias músicas, tweets emocionados sobre a experiência.
@thefalloff26♬ Bombs in the Ville/Hit the Gas – J. Cole
Sobre The Fall-Off
O conceito é simples, mas devastador: duas viagens que Cole fez para Fayetteville, North Carolina, sua cidade natal. Uma aos 29 anos, recém-saído de Nova York, com a fome ainda afiada. Outra aos 39, casado, pai de dois filhos, carregando a bagagem emocional de uma década inteira no topo. E cada uma delas se transformou em um disco (Disco 29 e Disco 39), que funciona como fotografias de um homem que voltou para casa, mas não é mais a mesma pessoa, e que descobriu da pior forma possível: você não consegue mais viver no lugar que te criou quando a fama te transformou em outra coisa.
O tema central atravessa o álbum inteiro: Cole sempre quis ser famoso, mas hoje quer voltar a sentir o que sentia no começo da carreira. A conexão com Fayetteville — carinhosamente apelidada de “the Ville” — se distanciou no meio do caminho. Não por falta de amor, mas porque o sucesso cria esse espaço. Ele volta, mas as pessoas que ficaram não vivem mais a mesma realidade. Os amigos estão presos, mortos, ou olham pra ele como celebridade em vez de Jermaine. Ele frequenta os mesmos lugares, mas agora precisa calcular cada movimento por medo de violência ou de virar manchete. E nada disso é culpa da cidade. É culpa do que ele se tornou. Essa tensão — querer pertencer, mas não conseguir mais — é o motor que faz The Fall-Off funcionar como narrativa completa. E Cole aceitou, e é isso que torna o álbum maduro.
The Fall-Off é um clássico instantâneo, quase perfeito. Com 2014 Forest Hills Drive (2014) e o conceitual 4 Your Eyez Only (2016), forma a tríade definitiva da carreira de J. Cole. É ambicioso. É denso. Tem muita coisa pra digerir. Mas cada audição revela uma nova camada, um novo detalhe, uma nova conexão entre músicas que pareciam soltas, mas, na verdade, estão amarradas. A saída dele da briga Kendrick-Drake não agradou ninguém — tirando ele mesmo. E isso fez bem. Deixou ele focar no que sempre foi melhor: rap introspectivo, honesto, tecnicamente impecável, que não tenta impressionar a indústria, mas sim fazer as pazes com o homem no espelho. Não acredito que The Fall-Off seja o último álbum de Cole. Mesmo assim, se ele estiver falando a verdade, estamos diante de uma obra que tem tudo para envelhecer bem, que será revisitada, estudada e referenciada. Foram dez anos que valeram a pena.
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